Camaradas, após mais ou menos 1 ano e reaberto este tópico, acho q deixei 
algumas perguntas q me foram dirigidas sem resposta e aproveito o ensejo 
para retomar algumas ideias, nada off-topic, como afirmou o Júlio. Peço 
desculpas pela assistematicidade, mas escrevo sem grandes pretensões de 
delimitação ou demarcação.
Em geral, concordo com o Eduardo e, respondendo ao Daniel e ao Doria, 
sustento o q disse anteriormente sobre a oposição ciência x pseudociência. 
Para retomar um pouco, é preciso lembrar q Popper inicialmente não usava o 
termo, mas propunha seu critério de demarcação relativamente à distinção 
entre ciência e metafísica. Ele passou a usar o termo pseudociência 
posteriormente; e eu não sei quem inventou e acho q ninguém sabe ao certo. 
Por ex., ao menos a Enciclopédia da Stanford remonta ao século 17!. Se for 
isso mesmo, a questão da demarcação é um sintoma, assim como a questão da 
definição de o q é filosofia: no momento em q o conhecimento, na Europa, se 
fragmenta em áreas especializadas, surge a questão de definir o que cada um 
faz. Se Galileo era ao mesmo tempo um filósofo natural e um "scientifico", 
mas ainda não era um físico, Einstein já é um físico, um cientista 
profissional e também um filósofo. 
O que eu quero dizer com esses exemplos? Bem, eu penso q o mais importante 
é opor a ciência ao que não é ciência, e não à falsa ciência, ou à ciência 
mentirosa (quem ousar explicar "pseudo", por favor, não sei como fazê-lo, 
acho q penso muito etimologicamente para isso). A estratégia de definir 
ciência pelo recurso às condições sine qua non etc. mostra-se muito 
limitante quando se trata no fundo de uma atitude: a genuína atitude 
científica nada tem q ver com condições suficientes ou necessárias, mas com 
uma genuína disposição para aprender. Por isso a construção coletiva do 
conhecimento é tão importante, pq desbanca inclusive as próprias 
proposições científicas. Não se trata de abandonar critérios de demarcação, 
ou ceder a relativismos, mas de reconhecer q não basta ser pesquisador, 
usar bem os métodos racionais ou racionalistas, para ter atitude científica 
(pensando aqui no velho Peirce: https://www.textlog.de/4232.html). 
Atualmente, há pessoas com altíssima educação científica ocupando altos 
cargos governamentais e defendendo posições bem duvidosas. Pode-se dizer 
muitas coisas do recém eleito senador e ex-ministro-astronauta, mas não q 
ele não sabe o q é ciência - acho q é justamente por saber q decidiu fazer 
parte do atual governo. Boa parte do alto escalão nazista também tinha 
grandes cientistas e muitos, inclusive, trabalharam por décadas na OTAN 
após a guerra. O nazismo tinha uma grande campanha negacionista, Hess era 
antroposófico, mas não nos esqueçamos q foi o uso - repito, o uso - da 
ciência q levou a indústria de guerra nazista a quase ganhar a guerra. 
Então, a questão é para que se usa o conhecimento, não é o conhecimento em 
si. Não existe ciência, nem conhecimento algum, pairando no ar. Se a 
abstração e o distanciamento de contextos locais é o q permite, em certo 
grau, a universalização do conhecimento, ao mesmo tempo sem aproximar de 
contextos locais é impossível aprender (o interesse específico do químico 
na tabela periódica, citado por Peirce no texto acima, é um exemplo disso). 
Nesse sentido, eu diria q a tentativa de impor um modo de conhecer e uma 
maneira de exprimir o conhecimento como a única verdade racional é um 
equívoco colonialista. Não a ciência, mas a maneira como ela é feita e 
imposta (a Helen Longino tem um argumento parecido: é possível organizar um 
laboratório de maneira sexista, mas seria razoável afirmar q as equações 
são sexistas? Em que medida a linguagem q usamos para exprimir o 
conhecimento é desvinculada de outras dimensões das nossa próprias vidas?). 
De fato, uma luta dos povos indígenas é para q os seus modos de saber sejam 
reconhecidos como legitimamente científicos, já q localmente funcionam. 
Para isso, combinam essa reivindicação à exigência de acesso às modernas 
metodologias e condições para fazer ciência. Pois é também um outro fato 
que não existe uma única comunidade, pois não há uma única humanidade, há 
muitas comunidades e comunidades são sempre imaginadas (sigo aqui mal e 
grosseiramente Benedikt Anderson). Não é possível sustentar práticas 
comunitárias acriticamente e correr o risco de as essencializar e nesse 
ponto acho q Gellner realmente tem muito a dizer. 
Mas, com a licença de Gellner e sem intenção de pesar demais a linguagem, 
scientia em latim vem do verbo scio - segurar, pegar firme - e traduz o 
grego episteme - compreensão, étimo ligado a pistis, crença. Assim, quem 
busca a scientia, busca a compreensão, busca uma crença q dure frente à 
instabilidade dos fatos; e quem busca a sofia, busca a algo mais q isso, já 
que sofia é mais saber do que episteme (Aristóteles assim definia). Parece 
q em certo momento da história, ciência e filosofia, q nasceram juntas, 
trocaram de lugar no berço e daí cresceram separadamente. Mas ciência e 
filosofia são impulsos fundamentais da natureza humana e nunca deixarão de 
ser, enquanto houver gente, haverá ciência e filosofia, assim como 
religiões e outras crenças - em todas as partes do mundo, por quaisquer 
pessoas. Historiadores, antropólogos, cientistas, poetas e até mesmo o 
senso comum estão a nos mostrar cotidianamente a insuficiência das 
pretensões universalistas e essencialistas da filosofia ocidental. Mais 
fortemente a partir do século XX, essa crítica é feita inclusive no seio da 
própria tradição filosófica (até que alguém diga que eu estou erradíssimo, 
desconstrução de Derrida, o conceito deleuziano de rizoma, até mesmo os 
paradigmas de Kuhn seriam exemplos disso). Concordo em gênero, número e 
grau (expressão esta, aliás, q a ciência da linguística desautoriza): por 
mais que se tente esconder, é certo que o saber grego foi intrinsecamente 
influenciado pelo egípcio; é certo que, desde a Antiguidade, a África, não 
apenas a saariana, tem saberes ancestrais de grande impacto e inestimável 
importância histórica; é certo que os que se julgam racionais são muito 
menos do que se imaginam. E há tantos outros "é certo" que são emudecidos. 
Tudo isso deveria estar muito mais presente na escola da criança e na 
pesquisa universitária. Mas também é necessário muito critério para não 
combater equívoco com equívoco, um essencialismo com outro. 
O que está em jogo, ao que me parece, é a reivindicação de o que há de mais 
importante, mais difícil e mais fundamental - o estatuto de quem é humano e 
tem direitos (e privilégios, em se tratando de projetos de poder). Por isso 
há os ataques que visam a desqualificar o saber científico e o filosófico, 
pois me parece q tais ataques identificam esse saber com um legado (seja 
ele ocidental-colonialista, egípcio, africano, chinês, indiano etc.) que, 
por sua natureza original, define um modo superior de pensar e sobretudo de 
ser (o uso da dicotomia ciência x pseudociência serve bem a isso e me 
parece igualmente equivocado - isto é, como sugeriu o Daniel, devemos então 
conceder q os psicanalistas não pensam racionalmente? Os cara-pálidas 
deviam experimentar uma terapia com jabuticaba - como a desse poema aqui: 
https://youtu.be/z-xxy9_8duM). E se for o caso de usar o termo "ciência" ou 
o termo "filosofia" num sentido que transborde suas determinantes 
históricas greco-ocidentais, que ele designe então, não uma essência 
fechada no passado, mas sim um devir aberto ao futuro. 
Saudações e perdão se fui enfadonho.
cass. 

 

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