Oi, Eduardo!
Obrigado pelas observações. Seguem meus comentários.

> 1. Ele ataca "a Ciência" sem delimitar qual "Ciência" ele está
>    atacando. Pelo que eu entendi a "Ciência" que ele ataca não inclui
>    a Antropologia, e também não inclui nenhum matemático ou físico que
>    tenha visto as limitações de um certo modo tradicional de dar aulas
>    e de escrever e esteja tentando usar outros modos.
>
> É mais ou menos isso. O alvo principal das críticas é a tradição
científica que alguns chamam de ciência ocidental. Talvez um dos desafios
seja justamente porque há inúmeras críticas válidas, mas também parece
haver um impulso muito grande no sentido de passar dessas críticas a um
relativismo total.
Nesse sentido, ao menos algumas vertentes da antropologia parecem ter se
percebido imperialistas e colonizadoras, passando a trabalhar de forma a
eliminar esses pecados de si mesmas.



> 2. Se todas as posições são igualmente válidas, legítimas e
>    merecedoras de respeito, então: oba! Eu posso roubar, matar e
>    estuprar e a minha posição vai continuar tão válida, legítima e
>    merecedora de respeito quanto antes... né?
>
> Pois é.
Já há um tempo que me parece haver uma confusão entre o problema da verdade
e o problema da certeza, onde para se combater a certeza (realmente muito
perigosa), acabou se batendo muito na própria ideia de verdade, que nos dá
ao menos a responsabilidade coletiva de nos esforçarmos pra avançar* em
questões de ética e política.

* O problema é que o avanço do que parece ser um movimento bem intencionado
tem desgastado não só a ideia de verdade, mas a de vários outros conceitos
fundamentais, como imparcialidade, neutralidade, progresso (avanço),
justiça, meritocracia, eficiência (um conceito neoliberal, segundo fui
informado por um colega de trabalho!!) etc.


> 3. Tem gente que diz que não existem músicas melhor ou piores, é só
>    uma questão de gosto. Essas pessoas ignoram que quando músicos se
>    encontram e tentam gravar uma música juntos eles têm uma noção
>    comum do que é uma música boa, e eles usam isso pra tentar fazer a
>    música deles ficar a melhor possível. Com ciência e com ética é a
>    mesma coisa: tem pessoas de fora que têm certeza de que tudo é
>    questão de gosto e que tanto faz, mas as pessoas de dentro têm
>    noções comuns do que é fazer ciência da melhor forma possível e do
>    que é ser o mais ético possível.
>
> Verdade.
Eu mesmo tive (acho que ainda tenho) uma relação não muito harmônica com a
arte. Provavelmente por causa de influências familiares, que viam a arte
(muito mais do que realmente se aplica) como mero jogo de vaidades, status
e manipulação.
Concordo com sua observação sobre os grupos de especialistas, mas penso que
ainda há uma necessidade de aprovação pelos leigos em algum grau, ao menos
se pensarmos realmente em divisão do trabalho.
Nesse sentido é o mesmo que ocorre em relação ao trabalho de um mecânico,
que tem um entendimento inalcançável por mim, mas cujo
resultado sejá julgado por critérios que estão ao meu alcance (o carro está
andando suavemente, o freio funciona, o consumo está bom etc.).
A diferença seria quantitativa, comparando ao contexto ético e artístico,
em vez de qualitativa, apenas porque em relação a esses últimos ainda
estamos na infância do conhecimento e o problema em si é muito mais difícil
de tratar.


> 4. Me pareceu que essa apresentação dele foi principalmente pra dizer
>    pros colegas dele: "olha, vocês são burros, a noção de ciência de
>    vocês é um lixo", mas ele fez isso muito mal. Qdz, ele poderia ter
>    feito algo muito mais construtivo, tipo mostrar algo sobre uma
>    outra forma de aprender física, mas ele só fez umas referências a
>    uns textos muito distantes.
>
> Acho que a posição de igualdade com que ele está comprometido (e que creio
ser o grande impulso que o move) o coloca em uma posição insustentável.
Algo que ele insinuou e que me deixou bastante incomodado foi que é
esperada uma reação dos cientistas que estão na zona de conforto, ainda
imersos na visão colonizadora, PORQUE eles não querem perder os privilégios.
A parte até a zona de conforto acho OK, mas essa tendência impressionante
de atribuir às intenções a maior parte da explicação (ou mesmo a
totalidade) me parece alimentar uma animosidade que torna o diálogo quase
impossível. Essa tendência, aliás, tem sido bastante forte em uma série de
contextos onde se discutem injustiças sociais.
Aliás, o Gellner faz uma referência a isso no texto que postei:

"O truque central da “etnometodologia” era a utilização do seguinte
dualismo: nossas declarações são reivindicações à verdade, mas também
feitas por pessoas de carne e osso, em geral com objetivos em mente e em
contextos sociais definidos. Os praticantes desse estilo concentravam-se
nesses últimos aspectos e permitiam que eles vencessem todas as demais
considerações. A prova ou a correção processual, por exemplo, não podiam
ser invocadas uma vez que eram, afinal de contas, apenas manobras em um
jogo, empreendidas por uma parte interessada, e era legítimo que seu rival
fizesse outros movimentos. O fato de que uma pergunta crítica gera uma
contradição ou um erro por si própria nenhuma importância tinha. A pergunta
de um crítico era um movimento feito pelo adversário e pode ser explicada e
desprezada como tal: essa caracterização era tratada como uma
deslegitimação válida, mas também como licença para ignorar todas as
propriedades processuais costumeiras."




> 5. Você falou da "ausência de espanto entre os professores presentes".
>    Imagino que em alguns casos essa "ausência de espanto" seja uma
>    apatia parecida com que a gente tem com bolsonaristas... a gente
>    pensa em responder o que eles estão dizendo, e aí a gente procura
>    algo que a gente possa dizer, mas aí a gente vê que eles vão
>    entender tudo errado, e aí a gente procura outra coisa pra dizer,
>    vê que eles vão entender aquilo errado de novo, e a gente repete o
>    loop 10 vezes, e depois das 10 vezes a gente desiste...
>
> Pode ser que seja mais ou menos isso em algum grau, mas eu vejo que
bastante gente partilha dessa visão (geralmente o pessoal mais ligado às
humanidades).
Não me parece saudável uma divisão do trabalho em que parte do meu time
despreza ou vê com desconfiança a tarefa que me coube SEM conversar honesta
e abertamente comigo sobre isso.

Por um lado, há um comprometimento com a ideia de especialista, já que o
sábio tradicional é alguém que tem um conhecimento nitidamente superior que
o deixa em situação de ser referência. Por outro, toda uma categoria de
especialistas (os cientistas) é deixada de lado porque é apenas um artefato
de uma cultura específica (imperialista e colonial), sem se entrar muito no
mérito de se as produções e os métodos se sustentam com as próprias pernas.

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[]'s ...and justice for all.

Ricardo Gentil de Araújo Pereira

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