Caros Redistas:
Acho que este topico Nao eh nada off-topic.
O antidoto para o relativismo total / scepticismo radical
e outras mazelas epistemologicas que nos afligem
pode ser encontrado na combinacao de 2 elementos:
(1) Escudo:  Criterios de demarcacao para Ciencia;
(2) Lanca:  Testes de hipotese para confirmacao de Leis Naturais.
Com Escudo e Lanca,  matar os dragoes fica facil.
Sem as armas antes assinaladas, fica impossivel.
Tudo de bom,   ---Julio Stern


________________________________
From: logica-l@dimap.ufrn.br <logica-l@dimap.ufrn.br> on behalf of rhalah 
<rha...@gmail.com>
Sent: Monday, November 28, 2022 2:05 PM
To: LOGICA-L <logica-l@dimap.ufrn.br>
Cc: Marcelo Finger <mfin...@ime.usp.br>; LOGICA-L <logica-l@dimap.ufrn.br>; 
eduardoochs <eduardoo...@gmail.com>; dura...@gmail.com <durant...@gmail.com>
Subject: Re: [Logica-l] Re: Meio off-topic: Construção do Reino de Deus na UFRN

Olá, Marcelo e demais colegas listeiros!

Aproveito essa questão do Marcelo, que creio resumir uma parte importante e 
interessante do problema, pra dar uma de re-animator em não uma, mas duas 
conversas antigas da lista (uma é esta).

O tema que me interessa, especificamente, é a questão do relativismo 
epistemológico e como podemos ter ao menos um norte que permita algum senso de 
equilíbrio, respeito e justiça no tratamento das pessoas (culturas inteiras 
também devem ser respeitadas?).

Tivemos aqui na escola em que trabalho (um campus do IFRN) uma apresentação do 
professor Jafelice (professor de física aposentado da UFRN) que me deixou 
bastante incomodado. O problema não foi tanto ele ter falado o que falou, mas a 
ausência de espanto entre os professores presentes, principalmente os das 
ciências naturais. Isso reforça a minha impressão de que há realmente dois 
mundos (as tais duas culturas) que se comunicam muito pouco, mesmo quando um 
dos mundos questiona os fundamentos do trabalho do outro.

Alguns trechos que me surpreenderam:

"A ciência é colonizadora: impõe uma visão única de mundo e é fonte de poder do 
pensamento único dominante; isto a torna epistemicida e etnocida em inúmeras 
ocasiões."

"Quando consideramos evidente que o conhecimento científico é superior aos 
outros sistemas de conhecimento, autóctones, nos rendemos à  visão de mundo 
colonizatória."

"A vertente da antropologia que adoto é a culturalista e hermenêutica (e.g., 
GEERTZ, 1997) e a concepção epistemológica, relativista – a qual, por sua vez, 
se articula melhor com um enfoque construtivista em educação, em especial 
aquele interpretado desde a perspectiva da biologia do conhecimento (MATURANA, 
2001). Adotar essa concepção significa acatar uma pluralidade de alternativas 
para o ser humano construir conhecimento, todas igualmente válidas e legítimas. 
O conhecimento científico, portanto, não é visto como especial ou superior, nem 
implica em alternativa privilegiada (em nenhum sentido, seja social, 
ontológico, filosófico etc.); acata-se a existência de uma diversidade 
epistemológica – no fundo, base das demais diversidades."

Os demais trechos que achei problemáticos estão nesse docs (aceita comentários):
https://docs.google.com/document/d/1g3H-Tn2pBX3jQG9feb8roDgUd9rp380t8ZdKg77oAu4/edit?usp=sharing

Em relação à problemática exemplificada pelo texto mencionado acima, tenho 
compartilhado com algumas pessoas o que acho ser o melhor resumo de como 
chegamos até aqui:
https://docs.google.com/document/d/1KNTjo16NoQAn-b5UiUVmZ86QWSjBCZkxEX2drSFHrww/edit?usp=sharing

O texto é de 1997. Parece ter sido uma excelente previsão.

Por fim, a outra conversa, que acabei achando ao pesquisar essa problemática do 
relativismo como condição para a igualdade (e a não discriminação), é esta:
https://groups.google.com/a/dimap.ufrn.br/g/logica-l/c/w_A4sAFy6Z0

Nela, o colega Manuel Doria anunciou um paper forthcoming que atualmente está 
disponível aqui, caso interesse a mais alguém:
https://www.academia.edu/81478439/The_Unreasonable_Destructiveness_of_Political_Correctness_in_Philosophy

Isso tudo me lembra muito o texto do Russell que tenho adotado quase como um 
mantra:

"Se a um homem é oferecido um fato que vai contra seus instintos, ele o 
examinará minuciosamente e, a não ser que a evidência seja esmagadora, se 
recusará a acreditar nele. Se, por outro lado, é oferecido algo que constitui 
uma razão para agir de acordo com seus instintos, ele o aceitará mesmo sob a 
mais tênue evidência. A origem dos mitos pode ser assim explicada."
-Proposed Roads to Freedom: Socialism, Anarchism and Syndicalism (1919, New 
York: Henry Holt and Company, p. 147)

On Friday, 10 December 2021 at 12:02:25 UTC-3 Marcelo Finger wrote:
Oi Daniel.

Gostei do seu argumento, e emendo uma pergunta.

Quando um convívio de ideias deixa de ser pluralista e passa a ser manipulado 
por detentores de uma ideia até então marginalizada em busca de reconhecimento? 
Mais ao caso: Quando o convívio de ideias passa a ser imposição de uma única 
visão?

[]s


Em sex., 10 de dez. de 2021 às 11:42, Daniel Durante <dura...@gmail.com> 
escreveu:
Colegas,

Realmente, Eduardo, lendo a descrição do curso que você enviou, e o texto do 
link que consegui abrir, devo reconhecer que este curso não parece fazer o que 
o título da disciplina (medicina, saúde e espiritualidade) e sua ementa 
sugerem.  Não parece haver qualquer pluralismo ali. Perdi a vontade de cursar 🙂 
e entendo a reação que tem causado. Mas resta a pergunta: a disciplina optativa 
e a ação de extensão a ela vinculada são ou não aceitáveis em uma universidade 
pública?

Essa pergunta me leva ao texto do Cassiano. De fato, Cassiano, a constelação 
familiar é bem esquisita e eu não tenho qualquer simpatia por esta prática. Sou 
muito mais simpático aos passes e as benzedeiras de bairro. Mas eu não sei se o 
machismo do alemão do século XX que a inventou é muito diferente do machismo do 
austríaco do século XIX que inventou a psicanálise. Aliás, existe alguma 
psicoterapia cognitiva que não seria classificada de pseudociência? Então vamos 
substituí-las todas por drogas? Vamos "medicalizar" a psiquiatria e acabar com 
terapias cognitivas? Afinal, as drogas podem ser testadas em arranjo 
experimental duplo-cego e não são pseudociência.

Não vejo essa tendência (que é vigente) como avanço, mas como retrocesso. Nem 
todos os nossos problemas cabem nos parâmetros da metodologia científica 
materialista. Aliás, muito poucos cabem. O próprio caso das vacinas da Covid é 
um bom exemplo. Desenvolver e produzir vacinas absurdamente eficientes foi 
essencial, mas não resolve o problema. É preciso aplicar as vacinas. É preciso 
vencer o negacionismo de parte da população de países ricos, é preciso vencer a 
desigualdade global e fazer a vacina chegar em países pobres. Sem um certo 
"ecletismo científico", e aqui eu respondo (um pouco) ao João Marcos, que eu 
chamaria de "abordagem interdisciplinar", a gente não resolve nada.

Um dia desses, eu perguntei para alguns colegas cientistas do Centro de 
Biociências aqui da UFRN se o bicho dentro de um ovo de pato, antes de nascer, 
é um pato ou não é um pato. Eles desconversaram, deram nomes técnicos para este 
"bicho", mas evitavam responder se a coisa com nomes técnicos era ou não um 
pato. Pressionados, alguns responderam sim e outros responderam não. Meu ponto 
aqui é que não há metodologia científica naturalista que leve a uma resposta 
incontroversa sobre se e quando o bicho dentro de um ovo de pato, antes de 
nascer, é um pato ou não é um pato. E isso não é um problema ou falha da 
ciência atual. É um limite. Se isso acontece com esta minha pergunta, que é 
infantilmente simples, imagina então quando a gente pensa sobre todas as 
questões muito mais complexas ligadas à saúde. Seria muita ingenuidade achar 
que todas elas têm respostas alcançáveis via metodologia científica 
naturalista. Não têm.

O problema é que sempre vão haver respostas divergentes e desacordos para estas 
questões cruciais que escapam à objetividade empiricamente mensurável da 
ciência. Vendo melhor a tal disciplina da UFRN, percebo que discordo da 
abordagem e da proposta. Mas tenho dificuldade de me posicionar contrário à 
aceitabilidade de tal disciplina e da ação de extensão. Na verdade, não sei.

Saudações,
Daniel.

Em quarta-feira, 8 de dezembro de 2021 às 00:14:15 UTC-3, eduardoochs escreveu:
Meio off-topic, mas lá vai.
Pessoas da UFRN, como está sendo a repercussão disso na universidade
de vocês?

https://oglobo.globo.com/brasil/educacao/construcao-do-reino-de-deus-novo-curso-da-ufrn-choca-estudantes-de-medicina-25309373
https://archive.md/TeS69

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