Caro Júlio, escrevo rápido agora, apenas para te responder. Eu não tenho nenhuma etimologia melhor q a tua para oferecer a não ser lembrar do Francisco Achcar falar isso, *scientia* tem a ver com o conhecer com o corpo, com as mãos, o segurar firme q está na raiz do verbo. Mas agora buscando rapidamente aqui na internet, há quem ligue *scire* a *scindere*, cindir, clivar, separar em 2 (teria a ver com o grego σκήπτω? é uma pergunta mesmo e não é retórica), e ainda até mesmo a *secare*, pela via do hebraico *carath*, que também quer dizer cortar. *Secare *é a raiz latina de sexo, o q dá uma pouco explorada ligação da ciência com o entendimento da vida e do corpo. Como meu latim é parco, cedo à autoridade do Francisco e também à tua, *scio* é 1a p do sing do inf *scire*. Abraços, cass.
Cassiano Terra Rodrigues Prof. Dr. de Filosofia - IEF-H-ITA Rua Tenente Brigadeiro do ar Paulo Victor da Silva, F0-206 Campus do DCTA São José dos Campos São Paulo, Brasil CEP: 12228-463 Tel. (+55) 12 3305 8438 -- lealdade, humildade, procedimento On Wed, Dec 7, 2022 at 1:19 AM Julio Stern <jmst...@hotmail.com> wrote: > Caro Cassiano: > >>> scientia em latim vem do verbo scio - segurar, pegar firme - > Por favor, esclareca-me a fonte desta derivacao etymologica, > pois sempre alardeei por ai a derivacao > >>> scīre, saber < *skei- cortar, separar > onde * indica uma raiz reconstituida do proto-indo-europeu. > Acho a diferenca importante e interessante. > Abraco, ---Julio Stern > > > > > > > > ------------------------------ > *From:* logica-l@dimap.ufrn.br <logica-l@dimap.ufrn.br> on behalf of > Cassiano Terra Rodrigues <cassiano.te...@gmail.com> > *Sent:* Monday, December 5, 2022 10:44 AM > *To:* Diego Almeida <adiego.u...@gmail.com> > *Cc:* Daniel Durante <durant...@gmail.com>; LOGICA-L < > logica-l@dimap.ufrn.br>; Ricardo Pereira <rha...@gmail.com>; Marcelo > Finger <marcelo.fin...@gmail.com>; eduardoochs <eduardoo...@gmail.com> > *Subject:* Re: [Logica-l] Meio off-topic: Construção do Reino de Deus na > UFRN > > Daniel, Diego, obrigado, bondade a de vcs. > Esse texto nem deveria ser chamado de meu, pois é resultado de muitas > conversas, as daqui da lista e também outras q tenho com outros amigos e > colegas de outros grupos. As palavras aí eu apenas registrei, há tempos vêm > as ideias se aninhando na minha cabeça, vindas de outras e compartilhadas > comigo, como fazemos aqui. > Acho q o ponto importante mesmo é não perdermos de vista a continuação da > conversa com todos, por mais difícil q possa parecer. Eu mesmo não sou bom > nisso, mas o exemplo do Daryl Davis é inspirador: > > https://www.npr.org/2017/08/20/544861933/how-one-man-convinced-200-ku-klux-klan-members-to-give-up-their-robes > Abraços, cass. > > Em sex., 2 de dez. de 2022 20:27, Diego Almeida <adiego.u...@gmail.com> > escreveu: > > Texto muito interessante. > > Abraços. > Diego > > Em sex., 2 de dez. de 2022 às 15:39, Daniel Durante <durant...@gmail.com> > escreveu: > > Salve Cassiano, > > Vou usar este seu email como texto de minhas aulas 👏🏼👏🏼🙂 > > Saudações, > Daniel. > ----- > Departamento de Filosofia - (UFRN) > http://danieldurante.weebly.com > > On 29 Nov 2022, at 10:03, Cassiano Terra Rodrigues < > cassiano.te...@gmail.com> wrote: > > Camaradas, após mais ou menos 1 ano e reaberto este tópico, acho q deixei > algumas perguntas q me foram dirigidas sem resposta e aproveito o ensejo > para retomar algumas ideias, nada off-topic, como afirmou o Júlio. Peço > desculpas pela assistematicidade, mas escrevo sem grandes pretensões de > delimitação ou demarcação. > Em geral, concordo com o Eduardo e, respondendo ao Daniel e ao Doria, > sustento o q disse anteriormente sobre a oposição ciência x pseudociência. > Para retomar um pouco, é preciso lembrar q Popper inicialmente não usava o > termo, mas propunha seu critério de demarcação relativamente à distinção > entre ciência e metafísica. Ele passou a usar o termo pseudociência > posteriormente; e eu não sei quem inventou e acho q ninguém sabe ao certo. > Por ex., ao menos a Enciclopédia da Stanford remonta ao século 17!. Se for > isso mesmo, a questão da demarcação é um sintoma, assim como a questão da > definição de o q é filosofia: no momento em q o conhecimento, na Europa, se > fragmenta em áreas especializadas, surge a questão de definir o que cada um > faz. Se Galileo era ao mesmo tempo um filósofo natural e um > "scientifico", mas ainda não era um físico, Einstein já é um físico, um > cientista profissional e também um filósofo. > O que eu quero dizer com esses exemplos? Bem, eu penso q o mais importante > é opor a ciência ao que não é ciência, e não à falsa ciência, ou à ciência > mentirosa (quem ousar explicar "pseudo", por favor, não sei como fazê-lo, > acho q penso muito etimologicamente para isso). A estratégia de definir > ciência pelo recurso às condições sine qua non etc. mostra-se muito > limitante quando se trata no fundo de uma atitude: a genuína atitude > científica nada tem q ver com condições suficientes ou necessárias, mas com > uma genuína disposição para aprender. Por isso a construção coletiva do > conhecimento é tão importante, pq desbanca inclusive as próprias > proposições científicas. Não se trata de abandonar critérios de demarcação, > ou ceder a relativismos, mas de reconhecer q não basta ser pesquisador, > usar bem os métodos racionais ou racionalistas, para ter atitude científica > (pensando aqui no velho Peirce: https://www.textlog.de/4232.html). > Atualmente, há pessoas com altíssima educação científica ocupando altos > cargos governamentais e defendendo posições bem duvidosas. Pode-se dizer > muitas coisas do recém eleito senador e ex-ministro-astronauta, mas não q > ele não sabe o q é ciência - acho q é justamente por saber q decidiu fazer > parte do atual governo. Boa parte do alto escalão nazista também tinha > grandes cientistas e muitos, inclusive, trabalharam por décadas na OTAN > após a guerra. O nazismo tinha uma grande campanha negacionista, Hess era > antroposófico, mas não nos esqueçamos q foi o uso - repito, o uso - da > ciência q levou a indústria de guerra nazista a quase ganhar a guerra. > Então, a questão é para que se usa o conhecimento, não é o conhecimento em > si. Não existe ciência, nem conhecimento algum, pairando no ar. Se a > abstração e o distanciamento de contextos locais é o q permite, em certo > grau, a universalização do conhecimento, ao mesmo tempo sem aproximar de > contextos locais é impossível aprender (o interesse específico do químico > na tabela periódica, citado por Peirce no texto acima, é um exemplo disso). > Nesse sentido, eu diria q a tentativa de impor um modo de conhecer e uma > maneira de exprimir o conhecimento como a única verdade racional é um > equívoco colonialista. Não a ciência, mas a maneira como ela é feita e > imposta (a Helen Longino tem um argumento parecido: é possível organizar um > laboratório de maneira sexista, mas seria razoável afirmar q as equações > são sexistas? Em que medida a linguagem q usamos para exprimir o > conhecimento é desvinculada de outras dimensões das nossa próprias vidas?). > De fato, uma luta dos povos indígenas é para q os seus modos de saber sejam > reconhecidos como legitimamente científicos, já q localmente funcionam. > Para isso, combinam essa reivindicação à exigência de acesso às modernas > metodologias e condições para fazer ciência. Pois é também um outro fato > que não existe uma única comunidade, pois não há uma única humanidade, há > muitas comunidades e comunidades são sempre imaginadas (sigo aqui mal e > grosseiramente Benedikt Anderson). Não é possível sustentar práticas > comunitárias acriticamente e correr o risco de as essencializar e nesse > ponto acho q Gellner realmente tem muito a dizer. > Mas, com a licença de Gellner e sem intenção de pesar demais a linguagem, > scientia em latim vem do verbo scio - segurar, pegar firme - e traduz o > grego episteme - compreensão, étimo ligado a pistis, crença. Assim, quem > busca a scientia, busca a compreensão, busca uma crença q dure frente à > instabilidade dos fatos; e quem busca a sofia, busca a algo mais q isso, já > que sofia é mais saber do que episteme (Aristóteles assim definia). Parece > q em certo momento da história, ciência e filosofia, q nasceram juntas, > trocaram de lugar no berço e daí cresceram separadamente. Mas ciência e > filosofia são impulsos fundamentais da natureza humana e nunca deixarão de > ser, enquanto houver gente, haverá ciência e filosofia, assim como > religiões e outras crenças - em todas as partes do mundo, por quaisquer > pessoas. Historiadores, antropólogos, cientistas, poetas e até mesmo o > senso comum estão a nos mostrar cotidianamente a insuficiência das > pretensões universalistas e essencialistas da filosofia ocidental. Mais > fortemente a partir do século XX, essa crítica é feita inclusive no seio da > própria tradição filosófica (até que alguém diga que eu estou erradíssimo, > desconstrução de Derrida, o conceito deleuziano de rizoma, até mesmo os > paradigmas de Kuhn seriam exemplos disso). Concordo em gênero, número e > grau (expressão esta, aliás, q a ciência da linguística desautoriza): por > mais que se tente esconder, é certo que o saber grego foi intrinsecamente > influenciado pelo egípcio; é certo que, desde a Antiguidade, a África, não > apenas a saariana, tem saberes ancestrais de grande impacto e inestimável > importância histórica; é certo que os que se julgam racionais são muito > menos do que se imaginam. E há tantos outros "é certo" que são emudecidos. > Tudo isso deveria estar muito mais presente na escola da criança e na > pesquisa universitária. Mas também é necessário muito critério para não > combater equívoco com equívoco, um essencialismo com outro. > O que está em jogo, ao que me parece, é a reivindicação de o que há de > mais importante, mais difícil e mais fundamental - o estatuto de quem é > humano e tem direitos (e privilégios, em se tratando de projetos de poder). > Por isso há os ataques que visam a desqualificar o saber científico e o > filosófico, pois me parece q tais ataques identificam esse saber com um > legado (seja ele ocidental-colonialista, egípcio, africano, chinês, indiano > etc.) que, por sua natureza original, define um modo superior de pensar e > sobretudo de ser (o uso da dicotomia ciência x pseudociência serve bem a > isso e me parece igualmente equivocado - isto é, como sugeriu o Daniel, > devemos então conceder q os psicanalistas não pensam racionalmente? Os > cara-pálidas deviam experimentar uma terapia com jabuticaba - como a desse > poema aqui: https://youtu.be/z-xxy9_8duM). E se for o caso de usar o > termo "ciência" ou o termo "filosofia" num sentido que transborde suas > determinantes históricas greco-ocidentais, que ele designe então, não uma > essência fechada no passado, mas sim um devir aberto ao futuro. > Saudações e perdão se fui enfadonho. > cass. > > > > > -- > LOGICA-L > Lista acadêmica brasileira dos profissionais e estudantes da área de > Lógica <logica-l@dimap.ufrn.br> > --- > Você recebeu essa mensagem porque está inscrito no grupo "LOGICA-L" dos > Grupos do Google. > Para cancelar inscrição nesse grupo e parar de receber e-mails dele, envie > um e-mail para logica-l+unsubscr...@dimap.ufrn.br. > Para ver essa discussão na Web, acesse > https://groups.google.com/a/dimap.ufrn.br/d/msgid/logica-l/528E7440-8823-4F76-A0E3-10AC42051985%40gmail.com > <https://groups.google.com/a/dimap.ufrn.br/d/msgid/logica-l/528E7440-8823-4F76-A0E3-10AC42051985%40gmail.com?utm_medium=email&utm_source=footer> > . > > -- > LOGICA-L > Lista acadêmica brasileira dos profissionais e estudantes da área de > Lógica <logica-l@dimap.ufrn.br> > --- > Você recebeu essa mensagem porque está inscrito no grupo "LOGICA-L" dos > Grupos do Google. > Para cancelar inscrição nesse grupo e parar de receber e-mails dele, envie > um e-mail para logica-l+unsubscr...@dimap.ufrn.br. > Para ver essa discussão na Web, acesse > https://groups.google.com/a/dimap.ufrn.br/d/msgid/logica-l/CALYh6%2BupuzuQCnHSmqnFtOJuV32baNSmWDxbYTHz%3D%3DW8kD88xg%40mail.gmail.com > <https://groups.google.com/a/dimap.ufrn.br/d/msgid/logica-l/CALYh6%2BupuzuQCnHSmqnFtOJuV32baNSmWDxbYTHz%3D%3DW8kD88xg%40mail.gmail.com?utm_medium=email&utm_source=footer> > . > -- LOGICA-L Lista acadêmica brasileira dos profissionais e estudantes da área de Lógica <logica-l@dimap.ufrn.br> --- Você está recebendo esta mensagem porque se inscreveu no grupo "LOGICA-L" dos Grupos do Google. 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