Salve Cassiano,

Vou usar este seu email como texto de minhas aulas 👏🏼👏🏼🙂

Saudações,
Daniel.
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Departamento de Filosofia - (UFRN)
http://danieldurante.weebly.com

> On 29 Nov 2022, at 10:03, Cassiano Terra Rodrigues <cassiano.te...@gmail.com> 
> wrote:
> 
> Camaradas, após mais ou menos 1 ano e reaberto este tópico, acho q deixei 
> algumas perguntas q me foram dirigidas sem resposta e aproveito o ensejo para 
> retomar algumas ideias, nada off-topic, como afirmou o Júlio. Peço desculpas 
> pela assistematicidade, mas escrevo sem grandes pretensões de delimitação ou 
> demarcação.
> Em geral, concordo com o Eduardo e, respondendo ao Daniel e ao Doria, 
> sustento o q disse anteriormente sobre a oposição ciência x pseudociência. 
> Para retomar um pouco, é preciso lembrar q Popper inicialmente não usava o 
> termo, mas propunha seu critério de demarcação relativamente à distinção 
> entre ciência e metafísica. Ele passou a usar o termo pseudociência 
> posteriormente; e eu não sei quem inventou e acho q ninguém sabe ao certo. 
> Por ex., ao menos a Enciclopédia da Stanford remonta ao século 17!. Se for 
> isso mesmo, a questão da demarcação é um sintoma, assim como a questão da 
> definição de o q é filosofia: no momento em q o conhecimento, na Europa, se 
> fragmenta em áreas especializadas, surge a questão de definir o que cada um 
> faz. Se Galileo era ao mesmo tempo um filósofo natural e um "scientifico", 
> mas ainda não era um físico, Einstein já é um físico, um cientista 
> profissional e também um filósofo. 
> O que eu quero dizer com esses exemplos? Bem, eu penso q o mais importante é 
> opor a ciência ao que não é ciência, e não à falsa ciência, ou à ciência 
> mentirosa (quem ousar explicar "pseudo", por favor, não sei como fazê-lo, 
> acho q penso muito etimologicamente para isso). A estratégia de definir 
> ciência pelo recurso às condições sine qua non etc. mostra-se muito limitante 
> quando se trata no fundo de uma atitude: a genuína atitude científica nada 
> tem q ver com condições suficientes ou necessárias, mas com uma genuína 
> disposição para aprender. Por isso a construção coletiva do conhecimento é 
> tão importante, pq desbanca inclusive as próprias proposições científicas. 
> Não se trata de abandonar critérios de demarcação, ou ceder a relativismos, 
> mas de reconhecer q não basta ser pesquisador, usar bem os métodos racionais 
> ou racionalistas, para ter atitude científica (pensando aqui no velho Peirce: 
> https://www.textlog.de/4232.html). Atualmente, há pessoas com altíssima 
> educação científica ocupando altos cargos governamentais e defendendo 
> posições bem duvidosas. Pode-se dizer muitas coisas do recém eleito senador e 
> ex-ministro-astronauta, mas não q ele não sabe o q é ciência - acho q é 
> justamente por saber q decidiu fazer parte do atual governo. Boa parte do 
> alto escalão nazista também tinha grandes cientistas e muitos, inclusive, 
> trabalharam por décadas na OTAN após a guerra. O nazismo tinha uma grande 
> campanha negacionista, Hess era antroposófico, mas não nos esqueçamos q foi o 
> uso - repito, o uso - da ciência q levou a indústria de guerra nazista a 
> quase ganhar a guerra. Então, a questão é para que se usa o conhecimento, não 
> é o conhecimento em si. Não existe ciência, nem conhecimento algum, pairando 
> no ar. Se a abstração e o distanciamento de contextos locais é o q permite, 
> em certo grau, a universalização do conhecimento, ao mesmo tempo sem 
> aproximar de contextos locais é impossível aprender (o interesse específico 
> do químico na tabela periódica, citado por Peirce no texto acima, é um 
> exemplo disso). Nesse sentido, eu diria q a tentativa de impor um modo de 
> conhecer e uma maneira de exprimir o conhecimento como a única verdade 
> racional é um equívoco colonialista. Não a ciência, mas a maneira como ela é 
> feita e imposta (a Helen Longino tem um argumento parecido: é possível 
> organizar um laboratório de maneira sexista, mas seria razoável afirmar q as 
> equações são sexistas? Em que medida a linguagem q usamos para exprimir o 
> conhecimento é desvinculada de outras dimensões das nossa próprias vidas?). 
> De fato, uma luta dos povos indígenas é para q os seus modos de saber sejam 
> reconhecidos como legitimamente científicos, já q localmente funcionam. Para 
> isso, combinam essa reivindicação à exigência de acesso às modernas 
> metodologias e condições para fazer ciência. Pois é também um outro fato que 
> não existe uma única comunidade, pois não há uma única humanidade, há muitas 
> comunidades e comunidades são sempre imaginadas (sigo aqui mal e 
> grosseiramente Benedikt Anderson). Não é possível sustentar práticas 
> comunitárias acriticamente e correr o risco de as essencializar e nesse ponto 
> acho q Gellner realmente tem muito a dizer. 
> Mas, com a licença de Gellner e sem intenção de pesar demais a linguagem, 
> scientia em latim vem do verbo scio - segurar, pegar firme - e traduz o grego 
> episteme - compreensão, étimo ligado a pistis, crença. Assim, quem busca a 
> scientia, busca a compreensão, busca uma crença q dure frente à instabilidade 
> dos fatos; e quem busca a sofia, busca a algo mais q isso, já que sofia é 
> mais saber do que episteme (Aristóteles assim definia). Parece q em certo 
> momento da história, ciência e filosofia, q nasceram juntas, trocaram de 
> lugar no berço e daí cresceram separadamente. Mas ciência e filosofia são 
> impulsos fundamentais da natureza humana e nunca deixarão de ser, enquanto 
> houver gente, haverá ciência e filosofia, assim como religiões e outras 
> crenças - em todas as partes do mundo, por quaisquer pessoas. Historiadores, 
> antropólogos, cientistas, poetas e até mesmo o senso comum estão a nos 
> mostrar cotidianamente a insuficiência das pretensões universalistas e 
> essencialistas da filosofia ocidental. Mais fortemente a partir do século XX, 
> essa crítica é feita inclusive no seio da própria tradição filosófica (até 
> que alguém diga que eu estou erradíssimo, desconstrução de Derrida, o 
> conceito deleuziano de rizoma, até mesmo os paradigmas de Kuhn seriam 
> exemplos disso). Concordo em gênero, número e grau (expressão esta, aliás, q 
> a ciência da linguística desautoriza): por mais que se tente esconder, é 
> certo que o saber grego foi intrinsecamente influenciado pelo egípcio; é 
> certo que, desde a Antiguidade, a África, não apenas a saariana, tem saberes 
> ancestrais de grande impacto e inestimável importância histórica; é certo que 
> os que se julgam racionais são muito menos do que se imaginam. E há tantos 
> outros "é certo" que são emudecidos. Tudo isso deveria estar muito mais 
> presente na escola da criança e na pesquisa universitária. Mas também é 
> necessário muito critério para não combater equívoco com equívoco, um 
> essencialismo com outro. 
> O que está em jogo, ao que me parece, é a reivindicação de o que há de mais 
> importante, mais difícil e mais fundamental - o estatuto de quem é humano e 
> tem direitos (e privilégios, em se tratando de projetos de poder). Por isso 
> há os ataques que visam a desqualificar o saber científico e o filosófico, 
> pois me parece q tais ataques identificam esse saber com um legado (seja ele 
> ocidental-colonialista, egípcio, africano, chinês, indiano etc.) que, por sua 
> natureza original, define um modo superior de pensar e sobretudo de ser (o 
> uso da dicotomia ciência x pseudociência serve bem a isso e me parece 
> igualmente equivocado - isto é, como sugeriu o Daniel, devemos então conceder 
> q os psicanalistas não pensam racionalmente? Os cara-pálidas deviam 
> experimentar uma terapia com jabuticaba - como a desse poema aqui: 
> https://youtu.be/z-xxy9_8duM). E se for o caso de usar o termo "ciência" ou o 
> termo "filosofia" num sentido que transborde suas determinantes históricas 
> greco-ocidentais, que ele designe então, não uma essência fechada no passado, 
> mas sim um devir aberto ao futuro. 
> Saudações e perdão se fui enfadonho.
> cass. 
> 
>  
> 

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