Oi Cassiano!

Seguem alguns comentários.

O que eu quero dizer com esses exemplos? Bem, eu penso q o mais importante
> é opor a ciência ao que não é ciência, e não à falsa ciência, ou à ciência
> mentirosa (quem ousar explicar "pseudo", por favor, não sei como fazê-lo,
> acho q penso muito etimologicamente para isso).
>

Creio que as distinções se justificam sempre que refletem fenômenos que
julgamos relevantes também de maneiras distintas.
Nesse caso, muito do que é não-ciência não será confundido com ela (nem tem
essa pretensão) e, consequentemente, não haverá toda uma gama de problemas
associados a essa confusão.
Já o caso de atividades que se parecem muito com a ciência, em todas as
suas características superficiais, mas não têm poder de previsão, por
exemplo, merecem ser tratadas em separado justamente porque muitas pessoas
serão enganadas (nem precisamos entrar no mérito de se há má fé ou não).

Estou me lembrando aqui de um caso recente que aconteceu comigo, em que uma
suposta cobra coral apareceu em minha casa (tivemos de chamar os bombeiros,
já que queríamos matá-la). Pelo que vejo da cultura local, há corais,
não-corais, falsas corais e até falsas falsas corais. Consigo dar conta de
algumas não-corais e falsas falsas corais, mas as corais e falsas corais
(difíceis de distinguir das verdadeiras) são muito perigosas pra mim. Nosso
corpo de bombeiros recomenda não tentar fazer a distinção dessa última
dupla, mas creio que as razões são contrárias às do nosso contexto (evitar
dano causado por uma das cobras vs. conseguir benefício fornecido por uma
das ciências).


> A estratégia de definir ciência pelo recurso às condições sine qua non
> etc. mostra-se muito limitante quando se trata no fundo de uma atitude: a
> genuína atitude científica nada tem q ver com condições suficientes ou
> necessárias, mas com uma genuína disposição para aprender.
>

A genuína disposição para aprender não seria uma condição necessária e
suficiente, então?

E se ela, juntamente com o conhecimento acumulado, acabasse implicando que
devemos proceder de tais e tais maneiras, usando tais e tais métodos e
ferramentas, não passaria a ser obrigação de quem tem genuína disposição de
aprender, diante desse histórico, adaptar suas práticas?
Veja que segundo o que falei acima é possível pensar que os antigos faziam
ciência dadas as suas limitações, mas que a ciência evoluiu a ponto de uma
pessoa que tiver conhecimento dessa evolução não estar sendo fiel à sua
disposição de aprender quando não leva esses desenvolvimentos em conta.

Atualmente, há pessoas com altíssima educação científica ocupando altos
> cargos governamentais e defendendo posições bem duvidosas.
>

Acho que isso é fruto da divisão extrema do trabalho. Parece que a gente
acaba relaxando em relação aos fundamentos racionais e filosóficos da
ciência justamente porque no dia a dia geralmente podemos passar sem eles.
Talvez rapidamente essa maneira de trabalhar se desfaça em tempo de
desconfiança como o nosso, em que esses fundamentos precisam ser
reafirmados e defendidos, mas não parece ter sobrado gente o suficiente
tomando conta deles.


> Então, a questão é para que se usa o conhecimento, não é o conhecimento em
> si. Não existe ciência, nem conhecimento algum, pairando no ar. Se a
> abstração e o distanciamento de contextos locais é o q permite, em certo
> grau, a universalização do conhecimento, ao mesmo tempo sem aproximar de
> contextos locais é impossível aprender (o interesse específico do químico
> na tabela periódica, citado por Peirce no texto acima, é um exemplo disso).
>

Não sei se entendi. Não é contraditório afirmar que o distanciamento de
contextos locais permite universalizar o conhecimento (entendo que está
sendo aprendido um conhecimento universal) e ao mesmo tempo dizer que sem
aproximação dos contextos locais é impossível aprender?


> Nesse sentido, eu diria q a tentativa de impor um modo de conhecer e uma
> maneira de exprimir o conhecimento como a única verdade racional é um
> equívoco colonialista.
>

Acho que a palavra 'impor' aqui é fundamental. Se eu acho que alguém está
com uma crença falsa a respeito de algo, argumentar e tentar convencer essa
pessoa de que ela está errada é desrespeitoso em si? Se em vez de uma
pessoa falarmos de uma coletividade a coisa muda? Como exatamente é isso?


> De fato, uma luta dos povos indígenas é para q os seus modos de saber
> sejam reconhecidos como legitimamente científicos, já q localmente
> funcionam.
>

Gostaria de entender e pensar mais sobre esse ponto. Alguma coisa me diz
que nele se concentra uma proporção maior do problema do que o tamanho do
texto daria a entender.
Se julgamos que a ciência mainstream está num patamar mais elevado que
determinado sistema de crenças S de nossa própria sociedade, por que
esperar que essa relação também não se aplique para o caso de um sistema de
crenças S' de uma outra sociedade que parece ser análogo a S? Por que
meramente pensar nessa hipótese é ser imperialista/colonialista?


> Para isso, combinam essa reivindicação à exigência de acesso às modernas
> metodologias e condições para fazer ciência.
>

Não entendi.
A reivindicação já não é que a respectiva prática É ciência? Pra que outras
condições e metodologias se todas geram igualmente conhecimento?


> Assim, quem busca a scientia, busca a compreensão, busca uma crença q dure
> frente à instabilidade dos fatos; e quem busca a sofia, busca a algo mais q
> isso, já que sofia é mais saber do que episteme (Aristóteles assim
> definia). Parece q em certo momento da história, ciência e filosofia, q
> nasceram juntas, trocaram de lugar no berço e daí cresceram separadamente.
>

Vejo mais como sendo o mesmo impulso (o científico e o filosófico), então
nesse sentido não teriam nascido juntas, mas seriam a mesma coisa. O resto
é divisão do trabalho.
Antes achava que não deveria ou poderia afirmar algo assim tão simplista,
mas com o tempo vi que como não há uma definição de filosofia esse meu
pitaco não é tão grave assim.
:-)


> Mas ciência e filosofia são impulsos fundamentais da natureza humana e
> nunca deixarão de ser, enquanto houver gente, haverá ciência e filosofia,
> assim como religiões e outras crenças - em todas as partes do mundo, por
> quaisquer pessoas.
>

Concordo que quando há humanos há ao menos em potencial o impulso
filosófico/científico, mas sem condições mínimas que o deixem florescer,
como provavelmente foi o caso em boa parte da história do homo sapiens,
parece-me que esticar os conceitos de ciência e filosofia de modo que
acompanhem toda a história do homem implicaria em perder distinção que
queremos manter pelo uso do termo.


>  Historiadores, antropólogos, cientistas, poetas e até mesmo o senso
> comum estão a nos mostrar cotidianamente a insuficiência das pretensões
> universalistas e essencialistas da filosofia ocidental. Mais fortemente a
> partir do século XX, essa crítica é feita inclusive no seio da própria
> tradição filosófica (até que alguém diga que eu estou erradíssimo,
> desconstrução de Derrida, o conceito deleuziano de rizoma, até mesmo os
> paradigmas de Kuhn seriam exemplos disso).
>

Concordo em 100% que devemos combater a arrogância, o cientificismo e o
dogmatismo, mas minha experiência na filosofia tem me deixado com a
impressão de que o diagnóstico relativo ao problema retratado no texto
acima só não foi tão exagerado quando as atitudes tomadas a partir dele. Só
recentemente comecei a ter coragem de falar um pouco mais sobre isso,
porque a sensação é aquela retratada na história das roupas do rei.
Acho que agora, com um pouco mais de 10 anos tentando entender o que está
acontecendo, já posso considerar que meu medo de o rei estar nú não é
infundado (infelizmente! Preferiria que fosse).

Estou vendo aqui que o email já está ficando bem grandinho, mas farei mais
umas observações a seguir que não são os principais pontos que tinha em
mente, mas expressam minha curiosidade.
Se puder me indicar algum texto que me ajude a entender, agradeço.

Concordo em gênero, número e grau (expressão esta, aliás, q a ciência da
> linguística desautoriza): por mais que se tente esconder, é certo que o
> saber grego foi intrinsecamente influenciado pelo egípcio;
>

Há uma tentativa de esconder a influência?
O que significa pra vc assumir que houve influência?


> é certo que, desde a Antiguidade, a África, não apenas a saariana, tem
> saberes ancestrais de grande impacto e inestimável importância histórica;
>

Alguém nega isso?
Ou vc está propondo que saber ancestral é equivalente a conhecimento
científico? Se sim, já entendo o caráter problemático, mas ao mesmo tempo
não parece ser isso que vc está dizendo ao classificar como importância
histórica.


> é certo que os que se julgam racionais são muito menos do que se imaginam.
>

Concordo, mas isso não é amplamente aceito, talvez até demais*?

* Umas observações interessantes sobre esse pessimismo em relação à razão
estão aqui:
https://tinyurl.com/2hxcmcen

E há tantos outros "é certo" que são emudecidos. Tudo isso deveria estar
> muito mais presente na escola da criança e na pesquisa universitária. Mas
> também é necessário muito critério para não combater equívoco com equívoco,
> um essencialismo com outro.
>

É justamente o receio de que estamos combatendo equívoco com equívoco o que
me preocupa. Já até tentei me tranquilizar pensando que talvez seja da
nossa natureza oscilar em relação ao ponto ótimo, alternando entre ação e
reação, entre avanço progressista e contra-ataque reacionário, na esperança
de que estamos aos poucos nos aproximando desse suposto ponto ótimo. Mesmo
assim resta a questão de qual exagero é realmente inevitável e qual está em
nosso poder evitar, dado que os exageros cobram seu preço.

Vou ficando por aqui.
Grato pelas suas colocações.
-- 

[]'s ...and justice for all.

Ricardo Gentil de Araújo Pereira

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