Olá, Marcelo e demais colegas listeiros!

Aproveito essa questão do Marcelo, que creio resumir uma parte importante e 
interessante do problema, pra dar uma de re-animator em não uma, mas duas 
conversas antigas da lista (uma é esta).

O tema que me interessa, especificamente, é a questão do relativismo 
epistemológico e como podemos ter ao menos um norte que permita algum senso 
de equilíbrio, respeito e justiça no tratamento das pessoas (culturas 
inteiras também devem ser respeitadas?).

Tivemos aqui na escola em que trabalho (um campus do IFRN) uma apresentação 
do professor Jafelice (professor de física aposentado da UFRN) que me 
deixou bastante incomodado. O problema não foi tanto ele ter falado o que 
falou, mas a ausência de espanto entre os professores presentes, 
principalmente os das ciências naturais. Isso reforça a minha impressão de 
que há realmente dois mundos (as tais duas culturas) que se comunicam muito 
pouco, mesmo quando um dos mundos questiona os fundamentos do trabalho do 
outro.

Alguns trechos que me surpreenderam:

"A ciência é colonizadora: impõe uma visão única de mundo e é fonte de 
poder do pensamento único dominante; isto a torna epistemicida e etnocida 
em inúmeras ocasiões."

"Quando consideramos evidente que o conhecimento científico é superior aos 
outros sistemas de conhecimento, autóctones, nos rendemos à  visão de mundo 
colonizatória."

"A vertente da antropologia que adoto é a culturalista e hermenêutica 
(e.g., GEERTZ, 1997) e a concepção epistemológica, relativista – a qual, 
por sua vez, se articula melhor com um enfoque construtivista em educação, 
em especial aquele interpretado desde a perspectiva da biologia do 
conhecimento (MATURANA, 2001). Adotar essa concepção significa acatar uma 
pluralidade de alternativas para o ser humano construir conhecimento, todas 
igualmente válidas e legítimas. O conhecimento científico, portanto, não é 
visto como especial ou superior, nem implica em alternativa privilegiada 
(em nenhum sentido, seja social, ontológico, filosófico etc.); acata-se a 
existência de uma diversidade epistemológica – no fundo, base das demais 
diversidades."

Os demais trechos que achei problemáticos estão nesse docs (aceita 
comentários):
https://docs.google.com/document/d/1g3H-Tn2pBX3jQG9feb8roDgUd9rp380t8ZdKg77oAu4/edit?usp=sharing

Em relação à problemática exemplificada pelo texto mencionado acima, tenho 
compartilhado com algumas pessoas o que acho ser o melhor resumo de como 
chegamos até aqui:
https://docs.google.com/document/d/1KNTjo16NoQAn-b5UiUVmZ86QWSjBCZkxEX2drSFHrww/edit?usp=sharing

O texto é de 1997. Parece ter sido uma excelente previsão.

Por fim, a outra conversa, que acabei achando ao pesquisar essa 
problemática do relativismo como condição para a igualdade (e a não 
discriminação), é esta:
https://groups.google.com/a/dimap.ufrn.br/g/logica-l/c/w_A4sAFy6Z0

Nela, o colega Manuel Doria anunciou um paper forthcoming que atualmente 
está disponível aqui, caso interesse a mais alguém:
https://www.academia.edu/81478439/The_Unreasonable_Destructiveness_of_Political_Correctness_in_Philosophy

Isso tudo me lembra muito o texto do Russell que tenho adotado quase como 
um mantra:

"Se a um homem é oferecido um fato que vai contra seus instintos, ele o 
examinará minuciosamente e, a não ser que a evidência seja esmagadora, se 
recusará a acreditar nele. Se, por outro lado, é oferecido algo que 
constitui uma razão para agir de acordo com seus instintos, ele o aceitará 
mesmo sob a mais tênue evidência. A origem dos mitos pode ser assim 
explicada."
-Proposed Roads to Freedom: Socialism, Anarchism and Syndicalism (1919, New 
York: Henry Holt and Company, p. 147) 

On Friday, 10 December 2021 at 12:02:25 UTC-3 Marcelo Finger wrote:

> Oi Daniel.
>
> Gostei do seu argumento, e emendo uma pergunta.
>
> Quando um convívio de ideias deixa de ser pluralista e passa a ser 
> manipulado por detentores de uma ideia até então marginalizada em busca de 
> reconhecimento? Mais ao caso: Quando o convívio de ideias passa a ser 
> imposição de uma única visão?
>
> []s
>
>
> Em sex., 10 de dez. de 2021 às 11:42, Daniel Durante <dura...@gmail.com> 
> escreveu:
>
>> Colegas,
>>
>> Realmente, Eduardo, lendo a descrição do curso que você enviou, e o texto 
>> do link que consegui abrir, devo reconhecer que este curso não parece fazer 
>> o que o título da disciplina (medicina, saúde e espiritualidade) e sua 
>> ementa sugerem.  Não parece haver qualquer pluralismo ali. Perdi a vontade 
>> de cursar 🙂 e entendo a reação que tem causado. Mas resta a pergunta: a 
>> disciplina optativa e a ação de extensão a ela vinculada são ou não 
>> aceitáveis em uma universidade pública?
>>
>> Essa pergunta me leva ao texto do Cassiano. De fato, Cassiano, a 
>> constelação familiar é bem esquisita e eu não tenho qualquer simpatia por 
>> esta prática. Sou muito mais simpático aos passes e as benzedeiras de 
>> bairro. Mas eu não sei se o machismo do alemão do século XX que a inventou 
>> é muito diferente do machismo do austríaco do século XIX que inventou a 
>> psicanálise. Aliás, existe alguma psicoterapia cognitiva que não seria 
>> classificada de pseudociência? Então vamos substituí-las todas por drogas? 
>> Vamos "medicalizar" a psiquiatria e acabar com terapias cognitivas? Afinal, 
>> as drogas podem ser testadas em arranjo experimental duplo-cego e não são 
>> pseudociência.
>>
>> Não vejo essa tendência (que é vigente) como avanço, mas como retrocesso. 
>> Nem todos os nossos problemas cabem nos parâmetros da metodologia 
>> científica materialista. Aliás, muito poucos cabem. O próprio caso das 
>> vacinas da Covid é um bom exemplo. Desenvolver e produzir vacinas 
>> absurdamente eficientes foi essencial, mas não resolve o problema. É 
>> preciso aplicar as vacinas. É preciso vencer o negacionismo de parte da 
>> população de países ricos, é preciso vencer a desigualdade global e fazer a 
>> vacina chegar em países pobres. Sem um certo "ecletismo científico", e aqui 
>> eu respondo (um pouco) ao João Marcos, que eu chamaria de "abordagem 
>> interdisciplinar", a gente não resolve nada.
>>
>> Um dia desses, eu perguntei para alguns colegas cientistas do Centro de 
>> Biociências aqui da UFRN se o bicho dentro de um ovo de pato, antes de 
>> nascer, é um pato ou não é um pato. Eles desconversaram, deram nomes 
>> técnicos para este "bicho", mas evitavam responder se a coisa com nomes 
>> técnicos era ou não um pato. Pressionados, alguns responderam sim e outros 
>> responderam não. Meu ponto aqui é que não há metodologia científica 
>> naturalista que leve a uma resposta incontroversa sobre se e quando o bicho 
>> dentro de um ovo de pato, antes de nascer, é um pato ou não é um pato. E 
>> isso não é um problema ou falha da ciência atual. É um limite. Se isso 
>> acontece com esta minha pergunta, que é infantilmente simples, imagina 
>> então quando a gente pensa sobre todas as questões muito mais complexas 
>> ligadas à saúde. Seria muita ingenuidade achar que todas elas têm respostas 
>> alcançáveis via metodologia científica naturalista. Não têm.
>>
>> O problema é que sempre vão haver respostas divergentes e desacordos para 
>> estas questões cruciais que escapam à objetividade empiricamente mensurável 
>> da ciência. Vendo melhor a tal disciplina da UFRN, percebo que discordo da 
>> abordagem e da proposta. Mas tenho dificuldade de me posicionar contrário à 
>> aceitabilidade de tal disciplina e da ação de extensão. Na verdade, não sei.
>>
>> Saudações,
>> Daniel.
>>
>> Em quarta-feira, 8 de dezembro de 2021 às 00:14:15 UTC-3, eduardoochs 
>> escreveu:
>>
>>> Meio off-topic, mas lá vai. 
>>> Pessoas da UFRN, como está sendo a repercussão disso na universidade 
>>> de vocês? 
>>>
>>>
>>> https://oglobo.globo.com/brasil/educacao/construcao-do-reino-de-deus-novo-curso-da-ufrn-choca-estudantes-de-medicina-25309373
>>>  
>>> https://archive.md/TeS69 
>>>
>>> [[]], 
>>> E. 
>>>
>> -- 
>>
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>> Grupos do Google.
>> Para cancelar inscrição nesse grupo e parar de receber e-mails dele, 
>> envie um e-mail para logica-l+u...@dimap.ufrn.br.
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> Marcelo Finger
>  Departament of Computer Science, IME-USP   
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>  ORCID: https://orcid.org/0000-0002-1391-1175
>  ResearcherID: A-4670-2009
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