Daniel, Diego, obrigado, bondade a de vcs. Esse texto nem deveria ser chamado de meu, pois é resultado de muitas conversas, as daqui da lista e também outras q tenho com outros amigos e colegas de outros grupos. As palavras aí eu apenas registrei, há tempos vêm as ideias se aninhando na minha cabeça, vindas de outras e compartilhadas comigo, como fazemos aqui. Acho q o ponto importante mesmo é não perdermos de vista a continuação da conversa com todos, por mais difícil q possa parecer. Eu mesmo não sou bom nisso, mas o exemplo do Daryl Davis é inspirador:
https://www.npr.org/2017/08/20/544861933/how-one-man-convinced-200-ku-klux-klan-members-to-give-up-their-robes Abraços, cass. Em sex., 2 de dez. de 2022 20:27, Diego Almeida <adiego.u...@gmail.com> escreveu: > Texto muito interessante. > > Abraços. > Diego > > Em sex., 2 de dez. de 2022 às 15:39, Daniel Durante <durant...@gmail.com> > escreveu: > >> Salve Cassiano, >> >> Vou usar este seu email como texto de minhas aulas 👏🏼👏🏼🙂 >> >> Saudações, >> Daniel. >> ----- >> Departamento de Filosofia - (UFRN) >> http://danieldurante.weebly.com >> >> On 29 Nov 2022, at 10:03, Cassiano Terra Rodrigues < >> cassiano.te...@gmail.com> wrote: >> >> Camaradas, após mais ou menos 1 ano e reaberto este tópico, acho q deixei >> algumas perguntas q me foram dirigidas sem resposta e aproveito o ensejo >> para retomar algumas ideias, nada off-topic, como afirmou o Júlio. Peço >> desculpas pela assistematicidade, mas escrevo sem grandes pretensões de >> delimitação ou demarcação. >> Em geral, concordo com o Eduardo e, respondendo ao Daniel e ao Doria, >> sustento o q disse anteriormente sobre a oposição ciência x pseudociência. >> Para retomar um pouco, é preciso lembrar q Popper inicialmente não usava o >> termo, mas propunha seu critério de demarcação relativamente à distinção >> entre ciência e metafísica. Ele passou a usar o termo pseudociência >> posteriormente; e eu não sei quem inventou e acho q ninguém sabe ao certo. >> Por ex., ao menos a Enciclopédia da Stanford remonta ao século 17!. Se for >> isso mesmo, a questão da demarcação é um sintoma, assim como a questão da >> definição de o q é filosofia: no momento em q o conhecimento, na Europa, se >> fragmenta em áreas especializadas, surge a questão de definir o que cada um >> faz. Se Galileo era ao mesmo tempo um filósofo natural e um >> "scientifico", mas ainda não era um físico, Einstein já é um físico, um >> cientista profissional e também um filósofo. >> O que eu quero dizer com esses exemplos? Bem, eu penso q o mais >> importante é opor a ciência ao que não é ciência, e não à falsa ciência, ou >> à ciência mentirosa (quem ousar explicar "pseudo", por favor, não sei como >> fazê-lo, acho q penso muito etimologicamente para isso). A estratégia de >> definir ciência pelo recurso às condições sine qua non etc. mostra-se muito >> limitante quando se trata no fundo de uma atitude: a genuína atitude >> científica nada tem q ver com condições suficientes ou necessárias, mas com >> uma genuína disposição para aprender. Por isso a construção coletiva do >> conhecimento é tão importante, pq desbanca inclusive as próprias >> proposições científicas. Não se trata de abandonar critérios de demarcação, >> ou ceder a relativismos, mas de reconhecer q não basta ser pesquisador, >> usar bem os métodos racionais ou racionalistas, para ter atitude científica >> (pensando aqui no velho Peirce: https://www.textlog.de/4232.html). >> Atualmente, há pessoas com altíssima educação científica ocupando altos >> cargos governamentais e defendendo posições bem duvidosas. Pode-se dizer >> muitas coisas do recém eleito senador e ex-ministro-astronauta, mas não q >> ele não sabe o q é ciência - acho q é justamente por saber q decidiu fazer >> parte do atual governo. Boa parte do alto escalão nazista também tinha >> grandes cientistas e muitos, inclusive, trabalharam por décadas na OTAN >> após a guerra. O nazismo tinha uma grande campanha negacionista, Hess era >> antroposófico, mas não nos esqueçamos q foi o uso - repito, o uso - da >> ciência q levou a indústria de guerra nazista a quase ganhar a guerra. >> Então, a questão é para que se usa o conhecimento, não é o conhecimento em >> si. Não existe ciência, nem conhecimento algum, pairando no ar. Se a >> abstração e o distanciamento de contextos locais é o q permite, em certo >> grau, a universalização do conhecimento, ao mesmo tempo sem aproximar de >> contextos locais é impossível aprender (o interesse específico do químico >> na tabela periódica, citado por Peirce no texto acima, é um exemplo disso). >> Nesse sentido, eu diria q a tentativa de impor um modo de conhecer e uma >> maneira de exprimir o conhecimento como a única verdade racional é um >> equívoco colonialista. Não a ciência, mas a maneira como ela é feita e >> imposta (a Helen Longino tem um argumento parecido: é possível organizar um >> laboratório de maneira sexista, mas seria razoável afirmar q as equações >> são sexistas? Em que medida a linguagem q usamos para exprimir o >> conhecimento é desvinculada de outras dimensões das nossa próprias vidas?). >> De fato, uma luta dos povos indígenas é para q os seus modos de saber sejam >> reconhecidos como legitimamente científicos, já q localmente funcionam. >> Para isso, combinam essa reivindicação à exigência de acesso às modernas >> metodologias e condições para fazer ciência. Pois é também um outro fato >> que não existe uma única comunidade, pois não há uma única humanidade, há >> muitas comunidades e comunidades são sempre imaginadas (sigo aqui mal e >> grosseiramente Benedikt Anderson). Não é possível sustentar práticas >> comunitárias acriticamente e correr o risco de as essencializar e nesse >> ponto acho q Gellner realmente tem muito a dizer. >> Mas, com a licença de Gellner e sem intenção de pesar demais a linguagem, >> scientia em latim vem do verbo scio - segurar, pegar firme - e traduz o >> grego episteme - compreensão, étimo ligado a pistis, crença. Assim, quem >> busca a scientia, busca a compreensão, busca uma crença q dure frente à >> instabilidade dos fatos; e quem busca a sofia, busca a algo mais q isso, já >> que sofia é mais saber do que episteme (Aristóteles assim definia). Parece >> q em certo momento da história, ciência e filosofia, q nasceram juntas, >> trocaram de lugar no berço e daí cresceram separadamente. Mas ciência e >> filosofia são impulsos fundamentais da natureza humana e nunca deixarão de >> ser, enquanto houver gente, haverá ciência e filosofia, assim como >> religiões e outras crenças - em todas as partes do mundo, por quaisquer >> pessoas. Historiadores, antropólogos, cientistas, poetas e até mesmo o >> senso comum estão a nos mostrar cotidianamente a insuficiência das >> pretensões universalistas e essencialistas da filosofia ocidental. Mais >> fortemente a partir do século XX, essa crítica é feita inclusive no seio da >> própria tradição filosófica (até que alguém diga que eu estou erradíssimo, >> desconstrução de Derrida, o conceito deleuziano de rizoma, até mesmo os >> paradigmas de Kuhn seriam exemplos disso). Concordo em gênero, número e >> grau (expressão esta, aliás, q a ciência da linguística desautoriza): por >> mais que se tente esconder, é certo que o saber grego foi intrinsecamente >> influenciado pelo egípcio; é certo que, desde a Antiguidade, a África, não >> apenas a saariana, tem saberes ancestrais de grande impacto e inestimável >> importância histórica; é certo que os que se julgam racionais são muito >> menos do que se imaginam. E há tantos outros "é certo" que são emudecidos. >> Tudo isso deveria estar muito mais presente na escola da criança e na >> pesquisa universitária. Mas também é necessário muito critério para não >> combater equívoco com equívoco, um essencialismo com outro. >> O que está em jogo, ao que me parece, é a reivindicação de o que há de >> mais importante, mais difícil e mais fundamental - o estatuto de quem é >> humano e tem direitos (e privilégios, em se tratando de projetos de poder). >> Por isso há os ataques que visam a desqualificar o saber científico e o >> filosófico, pois me parece q tais ataques identificam esse saber com um >> legado (seja ele ocidental-colonialista, egípcio, africano, chinês, indiano >> etc.) que, por sua natureza original, define um modo superior de pensar e >> sobretudo de ser (o uso da dicotomia ciência x pseudociência serve bem a >> isso e me parece igualmente equivocado - isto é, como sugeriu o Daniel, >> devemos então conceder q os psicanalistas não pensam racionalmente? Os >> cara-pálidas deviam experimentar uma terapia com jabuticaba - como a desse >> poema aqui: https://youtu.be/z-xxy9_8duM). E se for o caso de usar o >> termo "ciência" ou o termo "filosofia" num sentido que transborde suas >> determinantes históricas greco-ocidentais, que ele designe então, não uma >> essência fechada no passado, mas sim um devir aberto ao futuro. >> Saudações e perdão se fui enfadonho. >> cass. >> >> >> >> >> -- >> LOGICA-L >> Lista acadêmica brasileira dos profissionais e estudantes da área de >> Lógica <logica-l@dimap.ufrn.br> >> --- >> Você recebeu essa mensagem porque está inscrito no grupo "LOGICA-L" dos >> Grupos do Google. >> Para cancelar inscrição nesse grupo e parar de receber e-mails dele, >> envie um e-mail para logica-l+unsubscr...@dimap.ufrn.br. >> Para ver essa discussão na Web, acesse >> https://groups.google.com/a/dimap.ufrn.br/d/msgid/logica-l/528E7440-8823-4F76-A0E3-10AC42051985%40gmail.com >> <https://groups.google.com/a/dimap.ufrn.br/d/msgid/logica-l/528E7440-8823-4F76-A0E3-10AC42051985%40gmail.com?utm_medium=email&utm_source=footer> >> . >> > -- LOGICA-L Lista acadêmica brasileira dos profissionais e estudantes da área de Lógica <logica-l@dimap.ufrn.br> --- Você está recebendo esta mensagem porque se inscreveu no grupo "LOGICA-L" dos Grupos do Google. 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