Oi, Júlio!
Não sei se vc está usando uma referência desconhecida pra mim (o lance da
espada e escudo).
Acho que já devo ter falado isso em outras conversas, mas me parece que a
problemática é um emaranhado de ideias bem difícil de desatar.
Por exemplo, é como se a qualquer momento as bases comuns que a gente supõe
numa conversa, que nos dão a possibilidade de entendimento mútuo, pudessem
ser revogadas dependendo do nível de estresse (por causa de temas
polêmicos) das outras pessoas envolvidas. Isso torna a coisa toda bastante
contraproducente. Algo como esse relato aqui (que não é meu, mas reflete
bem o fenômeno):

"Uma vez tive uma estudante de filosofia que se contradisse. Falei: ‘Olha,
você se contradisse: você disse que A era X e depois que não era X’. Ela
disse ‘e daí? Por que eu não deveria me contradizer?’. Eu disse: ‘Bem, você
pode, é claro, mas depois perceberá que não terá dito nada: assim, se você
me disser coisas como “eu li o livro, mas não olhei para ele”, você não
estará exprimindo significado algum  e não poderemos conversar’. Ela disse:
‘Bem, eu não vejo sentido algum em conversar, mesmo’. Eu, então, mudei de
assunto. Agora, o que está sendo desafiado aqui é algo que todos
normalmente temos como certo: a lei da não-contradição."
---O trecho completo está aqui: https://tinyurl.com/58mzzm8x

On Mon, 28 Nov 2022 at 13:13, Julio Stern <jmst...@hotmail.com> wrote:

> Caros Redistas:
> Acho que este topico Nao eh nada off-topic.
> O antidoto para o relativismo total / scepticismo radical
> e outras mazelas epistemologicas que nos afligem
> pode ser encontrado na combinacao de 2 elementos:
> (1) Escudo:  Criterios de demarcacao para Ciencia;
> (2) Lanca:  Testes de hipotese para confirmacao de Leis Naturais.
> Com Escudo e Lanca,  matar os dragoes fica facil.
> Sem as armas antes assinaladas, fica impossivel.
> Tudo de bom,   ---Julio Stern
>
>
> ------------------------------
> *From:* logica-l@dimap.ufrn.br <logica-l@dimap.ufrn.br> on behalf of
> rhalah <rha...@gmail.com>
> *Sent:* Monday, November 28, 2022 2:05 PM
> *To:* LOGICA-L <logica-l@dimap.ufrn.br>
> *Cc:* Marcelo Finger <mfin...@ime.usp.br>; LOGICA-L <
> logica-l@dimap.ufrn.br>; eduardoochs <eduardoo...@gmail.com>;
> dura...@gmail.com <durant...@gmail.com>
> *Subject:* Re: [Logica-l] Re: Meio off-topic: Construção do Reino de Deus
> na UFRN
>
> Olá, Marcelo e demais colegas listeiros!
>
> Aproveito essa questão do Marcelo, que creio resumir uma parte importante
> e interessante do problema, pra dar uma de re-animator em não uma, mas duas
> conversas antigas da lista (uma é esta).
>
> O tema que me interessa, especificamente, é a questão do relativismo
> epistemológico e como podemos ter ao menos um norte que permita algum senso
> de equilíbrio, respeito e justiça no tratamento das pessoas (culturas
> inteiras também devem ser respeitadas?).
>
> Tivemos aqui na escola em que trabalho (um campus do IFRN) uma
> apresentação do professor Jafelice (professor de física aposentado da UFRN)
> que me deixou bastante incomodado. O problema não foi tanto ele ter falado
> o que falou, mas a ausência de espanto entre os professores presentes,
> principalmente os das ciências naturais. Isso reforça a minha impressão de
> que há realmente dois mundos (as tais duas culturas) que se comunicam muito
> pouco, mesmo quando um dos mundos questiona os fundamentos do trabalho do
> outro.
>
> Alguns trechos que me surpreenderam:
>
> "A ciência é colonizadora: impõe uma visão única de mundo e é fonte de
> poder do pensamento único dominante; isto a torna epistemicida e etnocida
> em inúmeras ocasiões."
>
> "Quando consideramos evidente que o conhecimento científico é superior aos
> outros sistemas de conhecimento, autóctones, nos rendemos à  visão de mundo
> colonizatória."
>
> "A vertente da antropologia que adoto é a culturalista e hermenêutica
> (e.g., GEERTZ, 1997) e a concepção epistemológica, relativista – a qual,
> por sua vez, se articula melhor com um enfoque construtivista em educação,
> em especial aquele interpretado desde a perspectiva da biologia do
> conhecimento (MATURANA, 2001). Adotar essa concepção significa acatar uma
> pluralidade de alternativas para o ser humano construir conhecimento, todas
> igualmente válidas e legítimas. O conhecimento científico, portanto, não é
> visto como especial ou superior, nem implica em alternativa privilegiada
> (em nenhum sentido, seja social, ontológico, filosófico etc.); acata-se a
> existência de uma diversidade epistemológica – no fundo, base das demais
> diversidades."
>
> Os demais trechos que achei problemáticos estão nesse docs (aceita
> comentários):
>
> https://docs.google.com/document/d/1g3H-Tn2pBX3jQG9feb8roDgUd9rp380t8ZdKg77oAu4/edit?usp=sharing
>
> Em relação à problemática exemplificada pelo texto mencionado acima, tenho
> compartilhado com algumas pessoas o que acho ser o melhor resumo de como
> chegamos até aqui:
>
> https://docs.google.com/document/d/1KNTjo16NoQAn-b5UiUVmZ86QWSjBCZkxEX2drSFHrww/edit?usp=sharing
>
> O texto é de 1997. Parece ter sido uma excelente previsão.
>
> Por fim, a outra conversa, que acabei achando ao pesquisar essa
> problemática do relativismo como condição para a igualdade (e a não
> discriminação), é esta:
> https://groups.google.com/a/dimap.ufrn.br/g/logica-l/c/w_A4sAFy6Z0
>
> Nela, o colega Manuel Doria anunciou um paper forthcoming que atualmente
> está disponível aqui, caso interesse a mais alguém:
>
> https://www.academia.edu/81478439/The_Unreasonable_Destructiveness_of_Political_Correctness_in_Philosophy
>
> Isso tudo me lembra muito o texto do Russell que tenho adotado quase como
> um mantra:
>
> "Se a um homem é oferecido um fato que vai contra seus instintos, ele o
> examinará minuciosamente e, a não ser que a evidência seja esmagadora, se
> recusará a acreditar nele. Se, por outro lado, é oferecido algo que
> constitui uma razão para agir de acordo com seus instintos, ele o aceitará
> mesmo sob a mais tênue evidência. A origem dos mitos pode ser assim
> explicada."
> -Proposed Roads to Freedom: Socialism, Anarchism and Syndicalism (1919,
> New York: Henry Holt and Company, p. 147)
>
> On Friday, 10 December 2021 at 12:02:25 UTC-3 Marcelo Finger wrote:
>
> Oi Daniel.
>
> Gostei do seu argumento, e emendo uma pergunta.
>
> Quando um convívio de ideias deixa de ser pluralista e passa a ser
> manipulado por detentores de uma ideia até então marginalizada em busca de
> reconhecimento? Mais ao caso: Quando o convívio de ideias passa a ser
> imposição de uma única visão?
>
> []s
>
>
> Em sex., 10 de dez. de 2021 às 11:42, Daniel Durante <dura...@gmail.com>
> escreveu:
>
> Colegas,
>
> Realmente, Eduardo, lendo a descrição do curso que você enviou, e o texto
> do link que consegui abrir, devo reconhecer que este curso não parece fazer
> o que o título da disciplina (medicina, saúde e espiritualidade) e sua
> ementa sugerem.  Não parece haver qualquer pluralismo ali. Perdi a vontade
> de cursar 🙂 e entendo a reação que tem causado. Mas resta a pergunta: a
> disciplina optativa e a ação de extensão a ela vinculada são ou não
> aceitáveis em uma universidade pública?
>
> Essa pergunta me leva ao texto do Cassiano. De fato, Cassiano, a
> constelação familiar é bem esquisita e eu não tenho qualquer simpatia por
> esta prática. Sou muito mais simpático aos passes e as benzedeiras de
> bairro. Mas eu não sei se o machismo do alemão do século XX que a inventou
> é muito diferente do machismo do austríaco do século XIX que inventou a
> psicanálise. Aliás, existe alguma psicoterapia cognitiva que não seria
> classificada de pseudociência? Então vamos substituí-las todas por drogas?
> Vamos "medicalizar" a psiquiatria e acabar com terapias cognitivas? Afinal,
> as drogas podem ser testadas em arranjo experimental duplo-cego e não são
> pseudociência.
>
> Não vejo essa tendência (que é vigente) como avanço, mas como retrocesso.
> Nem todos os nossos problemas cabem nos parâmetros da metodologia
> científica materialista. Aliás, muito poucos cabem. O próprio caso das
> vacinas da Covid é um bom exemplo. Desenvolver e produzir vacinas
> absurdamente eficientes foi essencial, mas não resolve o problema. É
> preciso aplicar as vacinas. É preciso vencer o negacionismo de parte da
> população de países ricos, é preciso vencer a desigualdade global e fazer a
> vacina chegar em países pobres. Sem um certo "ecletismo científico", e aqui
> eu respondo (um pouco) ao João Marcos, que eu chamaria de "abordagem
> interdisciplinar", a gente não resolve nada.
>
> Um dia desses, eu perguntei para alguns colegas cientistas do Centro de
> Biociências aqui da UFRN se o bicho dentro de um ovo de pato, antes de
> nascer, é um pato ou não é um pato. Eles desconversaram, deram nomes
> técnicos para este "bicho", mas evitavam responder se a coisa com nomes
> técnicos era ou não um pato. Pressionados, alguns responderam sim e outros
> responderam não. Meu ponto aqui é que não há metodologia científica
> naturalista que leve a uma resposta incontroversa sobre se e quando o bicho
> dentro de um ovo de pato, antes de nascer, é um pato ou não é um pato. E
> isso não é um problema ou falha da ciência atual. É um limite. Se isso
> acontece com esta minha pergunta, que é infantilmente simples, imagina
> então quando a gente pensa sobre todas as questões muito mais complexas
> ligadas à saúde. Seria muita ingenuidade achar que todas elas têm respostas
> alcançáveis via metodologia científica naturalista. Não têm.
>
> O problema é que sempre vão haver respostas divergentes e desacordos para
> estas questões cruciais que escapam à objetividade empiricamente mensurável
> da ciência. Vendo melhor a tal disciplina da UFRN, percebo que discordo da
> abordagem e da proposta. Mas tenho dificuldade de me posicionar contrário à
> aceitabilidade de tal disciplina e da ação de extensão. Na verdade, não sei.
>
> Saudações,
> Daniel.
>
> Em quarta-feira, 8 de dezembro de 2021 às 00:14:15 UTC-3, eduardoochs
> escreveu:
>
> Meio off-topic, mas lá vai.
> Pessoas da UFRN, como está sendo a repercussão disso na universidade
> de vocês?
>
>
> https://oglobo.globo.com/brasil/educacao/construcao-do-reino-de-deus-novo-curso-da-ufrn-choca-estudantes-de-medicina-25309373
> https://archive.md/TeS69
>
> [[]],
> E.
>
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> Marcelo Finger
>  Departament of Computer Science, IME-USP
>  http://www.ime.usp.br/~mfinger
>  ORCID: https://orcid.org/0000-0002-1391-1175
>  ResearcherID: A-4670-2009
>
> Instituto de Matemática e Estatística,
>
> Universidade de São Paulo
>
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