Segue-se meu input nesse interessante debate:

1) Considero que a distinção de pseudociência e ciência *bona fide* é
valiosa demais para ser abandonada, além de estar capturando uma série de
fenômenos sociais de interesse e tornando saliente o que faz do
conhecimento científico vigente distintivo. Quando bem feita, ela será
empiricamente adequada (em alguma medida), sendo sensível aos padrões de
uso dos termos por especialistas, parafraseando Larry Laudan (um dos mais
famosos críticos da distinção).

Várias outras distinções, de grande importância para a filosofia da
ciência, geram cada uma um problema de demarcação correspondente, que terão
alguma sobreposição ou algo para contribuir à distinção pseudociência x
ciência *bona fide*. Exemplos:

- Protociência x ciência madura
- Ciência de fronteira (*borderlands science*) x ciência estabelecida
(Shermer)
- Metodologia "cargo cult" x metodologia científica *bona fide* (Feynman)
- Programa metafísico de pesquisa x programa de pesquisa científico
propriamente dito (Popper)
- Programa de pesquisa degenerado x programa de pesquisa progressivo
(Lakatos)
- Ciência cidadã (ou comunitária, diletante, não-profissional ou
amadora...) legítima x ilegítima (
https://en.wikipedia.org/wiki/Citizen_science)
- *Bullshit* x meras assertivas falsas (Frankfurt)

2) Não é verdade que a distinção de pseudociência x ciência *bona fide* dependa
de uma visão de unidade científica ("uma e única verdadeira ciência").
Mesmo que seja o caso de alguma tese de desunião ou pluralismo do
conhecimento científico proceder, isso dificilmente provocará a dissolução
dos problemas de demarcação citados anteriormente. Apenas eles poderão
ficar mais complexos e cada distinção precisará ser indexada para cada
concepção de conhecimento científico legítima existente ou aspecto
relevante de cada (vamos ter uma distinção de pseudociência x ciência tipo
1, tipo 2, tipo 3...).

3) Uma analogia: se for o caso, por exemplo, da matemática não possuir
fundamentos ("uma única e verdadeira matemática") e do corpo de
conhecimento matemático existente estar irredutivelmente e
incomensuravelmente fragmentado, disso não se segue que não exista
distinção legítima a ser feita entre matemática *bona fide* e
pseudomatemática.

Considere um matemático ou filósofo da matemática arbitrário mais
conservador que julgue que o valor cognitivo de matemáticas não-clássicas
seja nulo. Ele provavelmente irá encontrar terreno em comum com seus
opositores heterodoxos a respeito do conteúdo do site a seguir:

https://web.archive.org/web/20210420222422/http://www.correctpi.com/

É razoável prever que matemáticos não-clássicos e clássicos sorteados ao
acaso irão sistematicamente considerar uma bobagem que o "valor correto de
Pi é de 3.125". Tal robustez na concordância de juízos seria um resultado
interessante que demandaria boas explicações e motivaria distinções de
matemática e pseudomatemática.

4) A presença de abuso político da distinção também não é boa razão para
abandonar a distinção e deixar de investigar diferenças entre os campos
epistêmicos. Qualquer contraste entre domínios conceituais pode ser abusado
politicamente. O fenômeno continuará existindo, assim como os padrões nas
atitudes e usos de termos por especialistas e não-especialistas perante
diferentes campos de conhecimento.

Por exemplo, alquimistas, magos e homeopatas utilizam princípios de
"simpatia" ou "contágio" onde "efeitos são similares às suas causas" para
controladamente tentar obter certos eventos através da manipulação de
eventos prévios que sejam similares, em determinados âmbitos.

Zoólogos contemporâneos, biólogos do desenvolvimento e biólogos moleculares
utilizam princípios de "homologia" e "analogia" para diferenciar
similaridade em estruturas biológicas que são obtidas através de evolução
convergente das que são obtidas por ancestralidade em comum.

Os membros de ambos os clusters empregam centralmente o tema de
similaridade entre estruturas, tacitamente e deliberadamente, em suas
atividades. Mas isso é pouquíssimo informativo. Os raciocínios envolvendo
similaridade no raciocínio mágico e no raciocínio cladístico emergem de
visões de mundo profundamente diferentes, visões de mundo estas que
divergiram dramaticamente desde a Era Moderna. Um desses campos epistêmicos
- o da ciência *bona fide* - consolidou tamanha influência e impacto social
que os *outros* descendentes contemporâneos dos alquimistas e magos da
Renascença com frequência acabam incorporando a terminologia, conhecimento
teórico e até mesmo a instrumentação e equipamento de cientistas *bona fide*
(veja aqui por exemplo um alquimista contemporâneo que usa microscópio e
vidraria de laboratório contemporânea:
https://www.youtube.com/watch?v=u-D9gMniHPo)

É *neste* contexto de transferência assimétrica (da química moderna para a
alquimia tradicional sobrevivente hoje, por exemplo) que emerge
naturalmente a distinção de ciência e pseudociência. Na superfície
(incluindo estética e apresentação), a pseudociência prototípica pode ser
muito parecida com ciência *bona fide*. Mas na estrutura profunda, há
divergências históricas, práticas, teóricas e institucionais bem salientes.
Não se trata meramente de narrativa de poder espúria.

5) Ainda há muito a ser feito na "cartografia conceitual" da ciência e
pseudociência. Alguns esboços mais *ad hoc* e preliminares usando, por
exemplo, teoria de conjuntos fuzzy - Michael Shermer em *The Borderlands of
Science* (2002) - e modelos aditivos simples de teoria de decisão
multicritério - Martin Mahner em *Science and Pseudoscience: How to
Demarcate after the (Alleged) Demise of the Demarcation Problem*" (2013) -
assumem implicitamente medidas de similaridade simétricas que podem não ser
as mais apropriadas.

A escolha da medida de similaridade para comparar o quão "próximos"
encontram-se dois campos epistêmicos comensuráveis provavelmente é a
escolha de maior impacto para uma teoria formal de pseudociência.
Dependendo de como for construída, uma teoria formal de pseudociência
poderá ter como consequência uma teoria formal de ciência *bona fide*;
obtendo-se uma, obtém-se a outra. Talvez não.

Uma teoria formal de pseudociência poderá elucidar também quão ortogonal
este domínio é dos outros mencionados em #2; por exemplo, quão distintiva é
a diferenciação de pseudociência, ciência fronteiriça de protociência? Quão
empiricamente adequada? Pode ser o caso de, *ex hypothesi*, uma modelagem
envolvendo clusterização nos informar que a teoria do macaco aquático (
https://en.wikipedia.org/wiki/Aquatic_ape_hypothesis) estar tão distante do
modelo padrão da física de partículas quanto a psicanálise freudiana, mas a
teoria do macaco aquático fazer parte do mesmo agrupamento que a fusão a
frio e a teoria viral da grande peste enquanto a psicanálise freudiana
encontrar-se no mesmo agrupamento que a criptozoologia de monstros marinhos
e a radiestesia.

Os resultados encontrados por um modelo robusto podem violar completamente
as expectativas consolidadas de sociólogos, historiadores e filósofos da
ciência.

[ ]'s

On Wed, Dec 22, 2021 at 5:01 PM Ricardo Pereira <rha...@gmail.com> wrote:

> Oi, Cassiano e demais.
>
> Seguem meus dois centavos.
>
> On Fri, 10 Dec 2021 at 00:51, Cassiano Terra Rodrigues
> <cassiano.te...@gmail.com> wrote:
> >>> Consideração: 0,0000003% da classe médica nacional não deve ser
> bolsonarista, o que, convenhamos, é um bom sinal dadas as circunstâncias.
>
> As coisas parecem melhores, felizmente. A partir de informações de um
> amigo médico, chutaria que os médicos de esquerda estão entre 10 e
> 20%.
>
> >>> Perdoem o sarcasmo, mas adoro perguntas retóricas: Como chegamos a
> Bolsonaro? #mistérioprofundo
>
> Eu acho muito pertinente essa explicação abaixo:
>
> "Finalmente, pode-se levantar a questão, não mais se o movimento em
> direção ao estabelecimento de autoridade racional e clareza contratual
> deve ser feito—o que nos parece inquestionável—mas se é de fato
> provável que seja feito. Aqui nós alimentamos sérias dúvidas. Em
> algumas partes do mundo, onde as condições disciplinares são
> extremamente ruins, houve poucas tentativas de restabelecer a
> autoridade racional: o caos contínuo parece ser preferido, e os
> indivíduos insatisfeitos simplesmente saem (se puderem) do contexto
> caótico. A alternativa ao restabelecimento da autoridade racional é um
> fenômeno bem conhecido; as coisas acabam ficando tão ruins em todo
> lugar (não apenas nas escolas) que uma autoridade poderosa, do tipo
> carismático e não-racional, surge com apoio suficiente para assumir o
> controle. Incapazes de compreender (quanto mais implementar na
> prática) a noção de autoridade racional, as pessoas se apegam faute de
> mieux [trad.: por falta de algo melhor] aos representantes de alguma
> ideologia específica—geralmente de tipo puritano—que, pelo menos,
> “manterá a lei e a ordem”. Esse estado de coisas, por sua vez, está
> fadado ao fracasso, pois (por não ser racional) carrega consigo
> valores particulares que, mais cedo ou mais tarde, serão atacados. E
> assim o mundo dá mais uma volta." (John Wilson, Discipline And Moral
> Education, pg. 80~81)
>
> >>> Agora, deixando de lado apenas momentaneamente o exercício de cinismo
> salutar à sanidade mental, é preciso lembrar que o termo pseudociência já
> foi criticado por pressupor um sentido verdadeiro e único de ciência, o q,
> como se sabe, leva a dificuldades de maior monta.
>
> Ainda não tenho um diagnóstico em que possa confiar, mas uma impressão
> forte é a de que é muito difícil a gente eliminar a possibilidade de
> injustiça a partir de uma distinção que não seja meramente estética.
> Então, sempre que há um fim a partir do qual vários meios podem ser
> comparados, a gente fica com medo de que o julgamento seja extrapolado
> dos meios para os proponentes deles, permitindo que um lado se coloque
> como superior e como estando justificado em oprimir ou civilizar o
> outro.
> Ainda não vi um caso em que me pareceu necessário abrir mão do
> julgamento para evitar essa consequência, mas parece que é o que muita
> gente está disposta a fazer, muitas vezes instintivamente (dada a
> velocidade e ênfase que já vi em algumas reações). Acho essa uma
> estratégia muito arriscada, por minar mesmo as compreensões mais
> básicas que temos de racionalidade (geralmente a gente busca os
> melhores meios pros nossos fins).
> Especificamente quanto ao termo pseudociência, acho que podemos
> assumir que ele é e será sempre usado indevidamente em vários casos,
> mas ao mesmo tempo a distinção básica que creio ser a referência do
> termo é muito valiosa pra ser descartada com a água da bacia. Ele não
> precisa fazer contraposição a um sentido único e verdadeiro de
> ciência, mas apenas passar a ideia de que temos bons motivos pra
> acreditar que determinadas práticas (as científicas) são melhores que
> outras (e não precisamos abdicar de reavaliar esse status sempre que
> quisermos) a partir de critérios com que nós mesmos podemos concordar
> (e discutir).
>
> >>> Mas, penso, o ponto mais importante não é esse, mas q os negacionismos
> atuais - o científico, o histórico e todos os outros q conseguirem
> identificar - são um sintoma da modernidade reflexiva, conforme a expressão
> q tomo do professor australiano Andy Blunden, isto é, são produzidos como
> efeitos de uma cultura de massificação do saber formal. Pela primeira vez
> na história, o século XX viu surgir uma massa de gente letrada, altamente
> especializada e intelectualizada, a par e em consequência da massificação
> da alfabetização (formal ou literal).
>
> Não acho que se trate de massificação do saber. Pelo contrário, acho
> que é a carência de um saber como estabelecer as crenças de maneira
> racional, atentando pro fato de que nosso nível de especialização
> social torna necessário confiar em especialistas em um sem número de
> contextos que fazem parte das nossas vidas.
> Confiança é a palavra-chave. A quebra de confiança nas autoridades (e
> instituições) é um fator central. Inclusive tem a ver com a ideia de
> autoridade racional do trecho de livro anterior.
>
> Tem também essa outra leitura mais específica que responsabiliza as
> pessoas de perfil de esquerda (em que me incluo e, a até onde sei, o
> autor também):
>
> "O que ficou claro é que se deixarmos nossa cultura à deriva, sua
> tendência será se afastar da racionalidade. Mantê-la no caminho certo
> exigirá percepção consciente, intervenção e orientação. E, no entanto,
> o eleitorado com maior probabilidade de conseguir isso—a esquerda
> progressista, aqueles com interesse em usar os poderes da mente para
> melhorar a condição humana—foi atingido por uma crise de confiança de
> proporções incomparáveis. A esquerda não apenas falhou em defender a
> razão contra seus críticos e contra as dinâmicas perigosas dentro da
> cultura que ameaçam sua supremacia, mas em muitos casos contribuiu
> ativamente para seu declínio. Muito disso se deve à associação da
> razão com a ciência, da ciência com a tecnologia e da tecnologia com a
> guerra, degradação ambiental, patriarcado, alienação e uma variedade
> de outros males. Outra grande parte se deve às ideologias
> explicitamente anti-racionalistas que surgiram na década de 1960, que
> tendiam a tratar qualquer sistema de obediência a regras como
> inerentemente opressor. O último elemento provém do impulso utópico e
> do desejo de encontrar soluções revolucionárias para os problemas
> sociais, o que gera impaciência com as lentas, constantes e incertas
> tentativas de progresso que são tudo o que a razão tem a oferecer."
> (Joseph Heath - Enlightenment 2.0, Pg. 238 | location 3635-3643)
>
> Acho instigante essa problematização dos males feitos em nome da
> razão, mas me parece que a solução do problema não está em
> descartá-la, mas em refiná-la ainda mais a partir do que aprendemos. É
> como dizem: como se argumentar contra a razão?
>
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> []'s ...and justice for all.
>
> Ricardo Gentil de Araújo Pereira
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