Oi, Cassiano e demais. Seguem meus dois centavos.
On Fri, 10 Dec 2021 at 00:51, Cassiano Terra Rodrigues <cassiano.te...@gmail.com> wrote: >>> Consideração: 0,0000003% da classe médica nacional não deve ser >>> bolsonarista, o que, convenhamos, é um bom sinal dadas as circunstâncias. As coisas parecem melhores, felizmente. A partir de informações de um amigo médico, chutaria que os médicos de esquerda estão entre 10 e 20%. >>> Perdoem o sarcasmo, mas adoro perguntas retóricas: Como chegamos a >>> Bolsonaro? #mistérioprofundo Eu acho muito pertinente essa explicação abaixo: "Finalmente, pode-se levantar a questão, não mais se o movimento em direção ao estabelecimento de autoridade racional e clareza contratual deve ser feito—o que nos parece inquestionável—mas se é de fato provável que seja feito. Aqui nós alimentamos sérias dúvidas. Em algumas partes do mundo, onde as condições disciplinares são extremamente ruins, houve poucas tentativas de restabelecer a autoridade racional: o caos contínuo parece ser preferido, e os indivíduos insatisfeitos simplesmente saem (se puderem) do contexto caótico. A alternativa ao restabelecimento da autoridade racional é um fenômeno bem conhecido; as coisas acabam ficando tão ruins em todo lugar (não apenas nas escolas) que uma autoridade poderosa, do tipo carismático e não-racional, surge com apoio suficiente para assumir o controle. Incapazes de compreender (quanto mais implementar na prática) a noção de autoridade racional, as pessoas se apegam faute de mieux [trad.: por falta de algo melhor] aos representantes de alguma ideologia específica—geralmente de tipo puritano—que, pelo menos, “manterá a lei e a ordem”. Esse estado de coisas, por sua vez, está fadado ao fracasso, pois (por não ser racional) carrega consigo valores particulares que, mais cedo ou mais tarde, serão atacados. E assim o mundo dá mais uma volta." (John Wilson, Discipline And Moral Education, pg. 80~81) >>> Agora, deixando de lado apenas momentaneamente o exercício de cinismo >>> salutar à sanidade mental, é preciso lembrar que o termo pseudociência já >>> foi criticado por pressupor um sentido verdadeiro e único de ciência, o q, >>> como se sabe, leva a dificuldades de maior monta. Ainda não tenho um diagnóstico em que possa confiar, mas uma impressão forte é a de que é muito difícil a gente eliminar a possibilidade de injustiça a partir de uma distinção que não seja meramente estética. Então, sempre que há um fim a partir do qual vários meios podem ser comparados, a gente fica com medo de que o julgamento seja extrapolado dos meios para os proponentes deles, permitindo que um lado se coloque como superior e como estando justificado em oprimir ou civilizar o outro. Ainda não vi um caso em que me pareceu necessário abrir mão do julgamento para evitar essa consequência, mas parece que é o que muita gente está disposta a fazer, muitas vezes instintivamente (dada a velocidade e ênfase que já vi em algumas reações). Acho essa uma estratégia muito arriscada, por minar mesmo as compreensões mais básicas que temos de racionalidade (geralmente a gente busca os melhores meios pros nossos fins). Especificamente quanto ao termo pseudociência, acho que podemos assumir que ele é e será sempre usado indevidamente em vários casos, mas ao mesmo tempo a distinção básica que creio ser a referência do termo é muito valiosa pra ser descartada com a água da bacia. Ele não precisa fazer contraposição a um sentido único e verdadeiro de ciência, mas apenas passar a ideia de que temos bons motivos pra acreditar que determinadas práticas (as científicas) são melhores que outras (e não precisamos abdicar de reavaliar esse status sempre que quisermos) a partir de critérios com que nós mesmos podemos concordar (e discutir). >>> Mas, penso, o ponto mais importante não é esse, mas q os negacionismos >>> atuais - o científico, o histórico e todos os outros q conseguirem >>> identificar - são um sintoma da modernidade reflexiva, conforme a expressão >>> q tomo do professor australiano Andy Blunden, isto é, são produzidos como >>> efeitos de uma cultura de massificação do saber formal. Pela primeira vez >>> na história, o século XX viu surgir uma massa de gente letrada, altamente >>> especializada e intelectualizada, a par e em consequência da massificação >>> da alfabetização (formal ou literal). Não acho que se trate de massificação do saber. Pelo contrário, acho que é a carência de um saber como estabelecer as crenças de maneira racional, atentando pro fato de que nosso nível de especialização social torna necessário confiar em especialistas em um sem número de contextos que fazem parte das nossas vidas. Confiança é a palavra-chave. A quebra de confiança nas autoridades (e instituições) é um fator central. Inclusive tem a ver com a ideia de autoridade racional do trecho de livro anterior. Tem também essa outra leitura mais específica que responsabiliza as pessoas de perfil de esquerda (em que me incluo e, a até onde sei, o autor também): "O que ficou claro é que se deixarmos nossa cultura à deriva, sua tendência será se afastar da racionalidade. Mantê-la no caminho certo exigirá percepção consciente, intervenção e orientação. E, no entanto, o eleitorado com maior probabilidade de conseguir isso—a esquerda progressista, aqueles com interesse em usar os poderes da mente para melhorar a condição humana—foi atingido por uma crise de confiança de proporções incomparáveis. A esquerda não apenas falhou em defender a razão contra seus críticos e contra as dinâmicas perigosas dentro da cultura que ameaçam sua supremacia, mas em muitos casos contribuiu ativamente para seu declínio. Muito disso se deve à associação da razão com a ciência, da ciência com a tecnologia e da tecnologia com a guerra, degradação ambiental, patriarcado, alienação e uma variedade de outros males. Outra grande parte se deve às ideologias explicitamente anti-racionalistas que surgiram na década de 1960, que tendiam a tratar qualquer sistema de obediência a regras como inerentemente opressor. O último elemento provém do impulso utópico e do desejo de encontrar soluções revolucionárias para os problemas sociais, o que gera impaciência com as lentas, constantes e incertas tentativas de progresso que são tudo o que a razão tem a oferecer." (Joseph Heath - Enlightenment 2.0, Pg. 238 | location 3635-3643) Acho instigante essa problematização dos males feitos em nome da razão, mas me parece que a solução do problema não está em descartá-la, mas em refiná-la ainda mais a partir do que aprendemos. É como dizem: como se argumentar contra a razão? -- []'s ...and justice for all. Ricardo Gentil de Araújo Pereira -- Você está recebendo esta mensagem porque se inscreveu no grupo "LOGICA-L" dos Grupos do Google. Para cancelar inscrição nesse grupo e parar de receber e-mails dele, envie um e-mail para logica-l+unsubscr...@dimap.ufrn.br. 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