Olá, Artur!
Arthur: O senhor e outros acreditam que a realidade é o que parece ser. Aplicas categorias racionais emprestadas pela mente. Acreditas na realidade do espaço, tempo, movimento e outras categorias mentais. Eu estou convencido de que a Realidade é algo bem distinto, algo talvez inexplicável em termos usuais. Admito que isto é uma crença, mas uma crença que surgiu também do que tenho vivido. O senhor também apresenta uma crença, que é a crença da maioria, mas proporção numérica não implica em Verdade. Eu não vejo nada errado em apresentar crenças, mesmo que as mesmas se afastem da maioria das crenças, desde que estejamos conscientes de que são crenças. O senhor também está ciente de que possui crenças? Em filosofia, usa-se o termo crença apenas para significar qualquer representação das coisas que um agente cognitivo tem. Popularmente usa-se crença no sentido de convicção pessoal indemonstrável, ou acto de fé. Filosoficamente, todos temos a crença de que um triângulo tem três lados ou que Lula é o presidente. Digo estas coisas só para esclarecer as coisas. A filosofia, como outras actividades cognitivas, ocupa-se entre outras coisas da avaliação críticas das nossas crenças sejam elas convicções pessoais e actos de fé, sejam crenças banais, como a ideia de que há uma realidade exterior e independente da minha mente. É por isso que a filosofia é tão difícil de entender para tantas pessoas. Elas tomam a filosofia como uma maneira de justificar de maneira erudita ou palavrosa as convicções pessoais que já têm, ao passo que em filosofia nos ocupamos muito mais a destruir convicções que vemos não terem justificação. Dizes que tenho crenças sobre a natureza da realidade. Claro que sim. Todos temos. O que conta é saber o que fazemos depois disso. Se analisamos cuidadosamente essas crenças para ver se são plausíveis, estamos a ser razoáveis. Se as usamos apenas como ponto de partida para reestruturar todas as nossas restantes crenças, não estamos a ser razoáveis. O apelo a experiências pessoais intransmissíveis é irrelevante num debate como este. Repara: quando discutimos algo com alguém não basta usar argumentos válidos, nem basta usar argumentos válidos com premissas verdadeiras. Precisamos de usar argumentos válidos com premissas verdadeiras e premissas mais plausíveis do que a conclusão. Mas plausível é um termo epistémico: é relativo a agentes. Um agente toma como plausível o que é mais ou menos compatível ou mais ou menos harmonioso com o seu conjunto de crenças. Portanto, quando discutimos temos de usar premissas que são plausíveis para o nosso interlocutor, caso contrário ele vai estar o tempo todo a recusar as nossas premissas. Estou a dizer isto porquê? Porque é fácil de ver que se eu estou a defender P e tu não acreditas em P e eu invoco uma experiência pessoal, nada estou realmente a fazer de relevante. Porque se tu não tens essa experiência pessoal o argumento é pura e simples vento. Limitas-te a pensar que o que a minha experiência pessoal é pura ilusão, pois o que não falta são experiências pessoais ilusórias. As ilusões visuais, auditivas, de raciocínio, vivenciais, etc., fazem parte do ser humano somos falíveis e é por isso que qualquer actividade cognitiva séria tem de ter mecanismos que minimizem a possibilidade de ilusão. Repara que isto não é um método apenas científico; não. É apenas a extensão da maneira normal como nos agimos no mundo. Se tu vais numa rua deserta a passear e vês outro ser humano ao longe, não olhas duas vezes e não duvidas dos teus sentidos. Mas se te parece ver ao longe uma barata com dois metros de altura, olhas outra vez e outra vez e vais tentar ver melhor para garantir que não estás a ser vítima de ilusão. Por que razão fazes isso? Porque a tua experiência contradiz a crença que tens de que não há baratas desse tamanho e talvez até seja biologicamente impossível tal coisa (por causa do exosqueleto). Poderá ser verdade que estás realmente a ver tal barata? Sim. Mas não é racional acreditar que isso é verdade com a mesma tranquilidade com que acreditas que estás a ver uma pessoa. Experiências ou crenças extraordinárias exigem provas extraordinárias pela simples razão de que quanto mais uma experiência ou crença colide com as nossas outras crenças mais precisamos de nos assegurar que é realmente essa nova crença que está certa e as velhas erradas. Espero ter ajudado. Um abraço, Desidério
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