Desidério: Não quero parecer arrogante, mas já ouvi muitas vezes o tipo de
coisa que diz o Arthur: há "outras maneiras" de aceder a realidades mais
importantes do que o mero pensamento lógico. Penso que isto é uma fantasia e
que esconde muita má fé. (Não estou a dizer isso pessoalmente do querido
Arthur, que tem a coragem de apresentar aqui as suas ideias e argumentos com
muita simpatia.)

 

Arthur: Caro colega, não falei de níveis de importância, eu quis dizer que
dispomos de  outros recursos cognitivos que vão muito além do raciocínio e
pensamento. Digo isto também por experiência própria, mas isto não posso
demonstrar ao colega, pois refiro-me a experiências íntimas. O pensamento
lógico é essencial e precioso tanto para a auto-organização intelectual,
como para a implementação de idéias, mas o mesmo está longe de ser
suficiente para um processo cognitivo completo.

 

Desidério: Caso houvesse uma complexa demonstração matemática ou física da
existência de coisas com almas ou seja o que for, o "pensamento lógico" já
não seria rechaçado por ser redutor e insuficiente: pelo contrário, os
partidários destas coisas aceitariam os seus resultados.

 

Arthur: Não falei aqui da existência de almas ou algo assim, esta questão
não é essencial para este fio de discussão. Estou falando de recursos
poderosos que todos nós dispomos para o conhecimento. Tais recursos podem
ser utilizados para qualquer área de pesquisa, incluindo Matemática e
Lógica.

 

Desidério: O que significa isto? Que se temos muita vontade que a realidade
seja de certa maneira e depois vemos que não é usando os melhores métodos à
nossa disposição, podemos perfeitamente acusar os métodos de serem
insuficientes. Isso é sem dúvida logicamente possível. Mas não é nem sensato
nem honesto. O mais sensato e honesto a fazer é aceitar que afinal a
realidade nem sempre é como

gostaríamos que fosse. E pronto, passa-se à frente porque há muitíssimas
coisas maravilhosas no mundo sem termos de fingir que o mundo é como no
fundo sabemos que não é. 

 

Arthur: O senhor e outros acreditam que a realidade é o que parece ser.
Aplicas categorias racionais emprestadas pela mente. Acreditas na realidade
do espaço, tempo, movimento e outras categorias mentais. Eu estou convencido
de que a Realidade é algo bem distinto, algo talvez inexplicável em termos
usuais. Admito que isto é uma crença, mas uma crença que surgiu também do
que tenho vivido. O senhor também apresenta uma crença, que é a crença da
maioria, mas proporção numérica não implica em Verdade. Eu não vejo nada
errado em apresentar crenças, mesmo que as mesmas se afastem da maioria das
crenças, desde que estejamos conscientes de que são crenças. O senhor também
está ciente de que possui crenças?

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