O seguinte não é correto:

O que Gödel mostrou é precisamente que isso não pode ser feito porque há
verdades aritméticas que não podem ser demonstradas logicamente em qualquer
sistema suficientemente forte para conter a aritmética.

Já falei que PA + regra de Shoenfield, um sistema não-construtivo mas
razoável e manipulável, prova todas as verdades da aritmética. (E a
formulação acima está confusa: pega uma dessas verdades, X. O sistema PA + X
prova-a, sem problemas. Se X for ∏1, melhor ainda, pois PA + X é quase
irmão-gêmeo de PA.)

2008/9/21 Desidério Murcho <[EMAIL PROTECTED]>

>  Olá, Ricardo!
>
>
>
> Este argumento parece-me mau:
>
>
>
> Penso que não podemos nos enganar e esquecer que, de uma forma ou de outra,
> uma das funções principais daS filosofiaS, que as fazem existir, é, como na
> religião, dar "conforto espiritual, bem-estar de alma"; mesmo que na forma
> do apego a microcertezas para poder julgar o mundo e estabelecer seu próprio
> valor; é sempre bom lebrar aquela passagem de Nietzche: "como todo
> transportador de carga quer ter seu admirador, mesmo o mais orgulhoso dos
> homens, o filósofo, pensa ver por todos os lados os olhos do universo
> telescopicamente em mira de seu agir e pensar"; e falo também de mim, se é
> que me entende.
>
> O argumento reduz-se a isto: "Nietzsche disse que P, logo P". Acontece que
> isto, independentemente de ser dito por Nietzsche ou por Hitler, é
> historicamente falso, porque:
>
> 1)                          Nada nos escritos da maior parte dos filósofos
> permite afirmar que o objectivo deles era encontrar conforto espiritual.
>
> 2)                         Em muitos escritos de filósofos encontramos
> precisamente o apelo contrário; é o caso de Quine:
> http://www.intelectu.com/intelectu_win_12_06.html
>
> 3)                         Falando com muitos filósofos, eles não
> concordam com a sua posição perante a filosofia.
>
> Claro, será verdade que algumas pessoas vêem a filosofia dessa maneira?
> Sim. Será essa visão da filosofia preponderante ou filosoficamente
> significativa? Esta questão já é mais interessante, pois tanto a tese
> radical de que nenhum filósofo vê a filosofia dessa maneira como a de que
> todos a vêem assim parecem-me historicamente falsas. Seja qual for a
> resposta a esta questão, todavia, de nada vale fingir que é óbvia a resposta
> que preferimos só porque concorda com a visão que nós mesmos temos da
> filosofia. A filosofia serve e tem servido para muitas coisas ao longo da
> história, e qualquer pessoa pode evidentemente fazer o que lhe apetecer
> dela. Mas a mentira histórica em nada nos ajuda a ter uma visão mais clara
> das coisas. E a verdade é que muitos filósofos encaram como função principal
> da filosofia a procura de verdades (e não da Verdade religiosa), e não o
> conforto espiritual. Até porque muitos filósofos não acreditam sequer que
> tenhamos espírito ou alma (conceitos extremamente difíceis de articular
> coerentemente, quanto mais tornar plausíveis).
>
> Acho que TODOS temos a contribuir nessa jornada em busca da Verdade, que,
> no fundo, é uma busca da Verdade sobre nós mesmo (mesmo que existam os que
> não se dêem conta disso).
>
> Não concordo, se me for permitido. A maior parte das verdades não são sobre
> nós mesmos, excepto quando temos uma concepção algo narcísica da verdade,
> sacrificando-a ao que nos é confortável. Defenderei sempre o direito das
> pessoas a ter esta visão algo narcísica da verdade e da filosofia, mas é um
> exagero dizer que quem não concorda com ela é porque não se dá conta disso.
> Pensemos, por exemplo, no problema dos universais ou das verdades
> necessárias alógicas. O que tem isto a ver comigo mesmo? Quero saber se há
> universais ou não e qual é a sua natureza, quero saber se há verdades
> necessárias que não sejam verdades da lógica e qual é a sua natureza; mas
> nada disto tem seja o que for a ver comigo ou com o meu conforto espiritual.
> Defenderei sempre quem quiser sacrificar a verdade ao conforto espiritual e
> quem quiser ver o seu próprio umbigo em todo o lado, mas não vou fingir
> publicamente que penso que tal modo de vida é defensável. Não penso tal
> coisa, mas as pessoas têm o direito de viver como quiserem e de fazer da
> filosofia o que lhes apetecer.
>
> Assim, não somos mais, nem menos, por sermos filósofos: somos apenas
> filósofos;
>
> Aqui concordo plenamente. Sempre argumentei contra os discursos exagerados
> que fazem da filosofia a coisa mais importante do mundo. Não é. Há coisas
> muito mais importantes, como ter água quando temos sede, amor e honestidade.
> A filosofia é uma disciplina como as outras, muito sofisticada, mais densa
> teoricamente do que muitas e menos complexa do que outras. É uma disciplina
> entre outras que procuram compreender melhor a natureza da realidade. Um
> filósofo não é superior a um padeiro por ter tido a sorte de ter uma
> formação académica, tal como um matemático não é superior a um filósofo por
> poder demonstrar teoremas, ao passo que o filósofo tudo o que faz é
> articular cuidadosamente especulações e discutir argumentos.
>
> Voltando a um ponto técnico: discordo de você que, em um e-mail anterior,
> disse que "descobrimos com Gödel que a verdade matemática não pode ser
> totalmente reduzida à verdade lógica". As definições relativas ao número
> apresentadas por Frege nos Fundamentos da Aritmética, como extensão de
> conceitos, permite definir o número em termos lógicos e derivar as verdades
> da Aritmética das verdades lógicas. O problema não está nessa retradução da
> LINGUAGEM da Aritmética para a LINGUAGEM da Lógica, que em última análise
> permite a redução da verdade matemática à verdade lógica (da qual podemos
> ver a incorreção de sua afirmação), mas em buscar fundamentar a Aritmética
> em um sistema (recursivamente) axiomatizável, pois nem mesmo as verdades
> lógicas (de uma linguagem que contém a de segunda ordem, como é era o caso
> de Frege e Gödel) podem ser (recursivamente) axiomatizáveis.
>
> Não me parece que possa concordar com isto. Reduzir a construção de números
> a uma construção lógica não é suficiente para reduzir a verdade aritmética à
> verdade lógica. É também preciso que todas as verdades que se conseguem
> atingir com os métodos normais da matemática se consigam atingir no sistema
> lógico criado para o efeito. O que Gödel mostrou é precisamente que isso não
> pode ser feito porque há verdades aritméticas que não podem ser demonstradas
> logicamente em qualquer sistema suficientemente forte para conter a
> aritmética.
>
> Mas, evidentemente, não sou um lógico e os colegas desta área sabem
> muitíssimo mais disto do que eu.
>
> Forte abraço,
>
> Desidério
>
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