Muitíssimo preciso e claro! Mil obrigados. Aprendi bastante. 

Um abraço,
Desidério


> -----Original Message-----
> From: [EMAIL PROTECTED] [mailto:[EMAIL PROTECTED] On Behalf Of Joao Marcos
> Sent: domingo, 21 de Setembro de 2008 19:35
> To: Francisco Antonio Doria
> Cc: Desidério Murcho; Logica-L
> Subject: Re: [Logica-l] Sem Lógica
> 
> Acho que pode valer a pena esclarecer ainda um pouco melhor este ponto
> gödeliano, para o benefício de outros colegas da lista que porventura
> possam fazer alguma confusão do mesmo gênero.
> 
> (Se eu falar alguma besteira ou for impreciso, você me corrige, ok, Doria?)
> 
> > O seguinte não é correto:
> >
> > > O que Gödel mostrou é precisamente que isso não pode ser feito porque há
> > > verdades aritméticas que não podem ser demonstradas logicamente em
> qualquer
> > > sistema suficientemente forte para conter a aritmética.
> 
> Não sei se percebeste, Desidério, mas a ambiguidade está antes de mais
> nada na ordem das tuas quantificações (como ocorre no Argumento da
> Causa Primeira): não é que haja "verdades aritméticas que não podem
> ser demonstradas logicamente em qualquer sistema" tal-e-tal (ou, como
> alguém pode entender daí, que haja verdades não demonstráveis em
> *nenhum* sistema tal-e-tal) suficientemente forte, mas mais
> precisamente que para cada sistema [omega-consistente, ou simplesmente
> consistente, e com um conjunto recursivamente enumerável de teoremas]
> "suficientemente forte" (basta este sistema conter a aritmética
> primitiva recursiva) há "verdades" que este sistema não será capaz de
> demonstrar.  Se você acrescentar então esta verdade como novo axioma,
> obviamente ela passa a ser demonstrável, e o sistema resultante seria
> "mais completo" do que o anterior...  Mas o diabo do resultado do
> Gödel implica a *incompletabilidade*, mais que a *incompletude* (eis
> aí mais uma má tradução), e ao acrescentar a tal "nova verdade" como
> teorema poder-se-á exibir em seguida uma outra verdade não
> demonstrável no novo sistema!
> 
> (Nota as condições de aplicabilidade do teorema, entre
> colchetes/parênteses rectos.  O problema de usar esta estratégia de ir
> acrescentando novas verdades para "completar" a axiomatização inicial
> falha justamente pelo fato de que o conjunto de asserções verdadeiras
> não é recursivamente enumerável.)
> 
> > Já falei que PA + regra de Shoenfield, um sistema não-construtivo mas
> > razoável e manipulável, prova todas as verdades da aritmética. (E a
> > formulação acima está confusa: pega uma dessas verdades, X. O sistema PA + X
> > prova-a, sem problemas. Se X for ∏1, melhor ainda, pois PA + X é quase
> > irmão-gêmeo de PA.)
> 
> Esclarecendo: PA é a "Aritmética de Peano", e a tal regra-ômega (o
> ômega é o ordinal do menor número transfinito) é simplesmente uma
> regra com um número enumerável de premissas que diz por exemplo que da
> verdade de P(0), P(1), ..., P(n), ... se pode derivar Ax.P(x), para
> todo natural x.
> 
> Confesso que não faço idéia de qual seria a diferença da regra ômega
> de Shoenfield para a de qualquer outro cidadão, mas é fato que a regra
> aritmética da indução, por exemplo, obviamente segue da regra-ômega,
> estando esta última presente no sistema.  É fato também que se
> pudermos falar em versões "construtivas" desta regra (por exemplo, com
> premissas definidas recursivamente), e se podemos aceitar tais versões
> desta regra como "meios finitários" válidos de inferência (é comum
> acordo que a aritmética primitiva recursiva como um todo só fornece
> "meios finitários válidos") talvez se possa salvar então algo do
> programa Formalista de Hilbert (uma boa questão, de qualquer forma, é
> o quanto de expressividade deve ser adicionada à linguagem objeto para
> que se possa expressar nela tais versões construtivas da regra-ômega).
>  Há toda uma literatura sobre o assunto, com a qual não tenho muita
> familiaridade, e creio que outras pessoas da lista podem assumir a
> partir deste ponto.
> 
> Finalmente, as sentenças do tipo Pi_1 são aquelas que têm a forma
> Ax.P(x), onde P expressa uma propriedade recursiva (efetivamente
> decidível) dos números naturais.  As sentenças de incompletude do
> Gödel são deste tipo.  O argumento gödeliano do Penrose em "Shadows of
> the Mind" sobre a implausibilidade de se criar um modelo computacional
> para a mente humana também menciona apenas sentenças deste tipo.
> 
> Espero ter contribuído com mais clarificações do que obscuridades.
> 
> JM

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