Desidério: Nada nos escritos da maior parte dos filósofos permite afirmar que o objectivo deles era encontrar conforto espiritual.
Arthur: Isto depende do que entendes por filósofo. Talvez queiras dizer que muitos daqueles que são considerados filósofos pelas academias ocidentais não fazem ou faziam conjeturas a respeito da felicidade. No entanto, todos os verdadeiros filósofos buscam compreender o sentido da Vida, mesmo que vários de tais filósofos não sejam ainda assim considerados pela maioria dos academicistas do ocidente. Vou citar alguns, do período mais recente: Fritjof Capra, Krishnamurti, Eckhart Tolle, Osho (foi professor por anos em uma universidade da Índia). Krishnamurti, por exemplo, deu palestras ao redor do mundo por cerca de cinqüenta anos, e despertou a atenção de vários representantes da elite intelectual do Ocidente (cito, entre seus admiradores, Aldous Huxley e David Bohm), mas continua sendo praticamente ignorado, até onde eu conheço, pelos academicistas ocidentais). É por isto que a filosofia acadêmica ocidental vem se tornando impopular entre a elite consciente, pois, em grande parte, tem perdido a crista da onda há muito tempo. Desidério: A filosofia serve e tem servido para muitas coisas ao longo da história, e qualquer pessoa pode evidentemente fazer o que lhe apetecer dela. Arthur: Não é bem assim, o limite para o que define Filosofia é sempre a Verdade. Se alguém tenta distorcer a mesma para fazer o que lhe apetecer dela, então tal atividade não é mais Filosofia. Pode ser manipulação intelectual de jogos mentais, mas não merece ser chamada de Filosofia. Nada contra a prática de exercícios intelectuais para o adestramento mental, mas cada prática deveria ter um nome adequado, e não um nome para falsamente seduzir e enganar o público. Um filósofo, etimologicamente, é um amigo da Verdade. Quem prefere brincar com jogos deveria ser chamado de filójogo ou algo assim. Desidério: Mas a mentira histórica em nada nos ajuda a ter uma visão mais clara das coisas. E a verdade é que muitos filósofos encaram como função principal da filosofia a procura de verdades (e não da Verdade religiosa), e não o conforto espiritual. Até porque muitos filósofos não acreditam sequer que tenhamos espírito ou alma (conceitos extremamente difíceis de articular coerentemente, quanto mais tornar plausíveis). Arthur: Não há mais que uma Verdade. Não existe uma Verdade da Filosofia distinta da Verdade das Religiões, de forma que ambas sejam distintas da Verdade da Ciência. A visão que o senhor expressa vem de uma crença na fragmentação de tudo. O senhor acredita que conforto espiritual se deveria buscar em alguma religião, enquanto que uma busca analítica ou inteletual de verdades pela filosofia, etc. Falas de alguém fragmentado que satisfaz cada necessidade em um lugar específico, como se não houvesse de fato conexão entre tudo. Ricardo: Acho que TODOS temos a contribuir nessa jornada em busca da Verdade, que, no fundo, é uma busca da Verdade sobre nós mesmo (mesmo que existam os que não se dêem conta disso). Desidério: Não concordo, se me for permitido. A maior parte das verdades não são sobre nós mesmos, excepto quando temos uma concepção algo narcísica da verdade, sacrificando-a ao que nos é confortável. Arthur: O senhor não concorda em decorrência do que me parece ser uma visão fragmentada da Vida. Se a Verdade está em tudo e em todos, até mesmo na ponta de um palito de fósforo, se até uma partícula contém toda a Verdade, por que um ser humano não poderia encontrar a mesma em seu íntimo, também? O senhor está enganado ao supor que a busca do conforto ou da Paz íntima é cômoda e indolor, com freqüência ocorre exatamente o contrário, pois aquele que busca olhar a Verdade face a face talvez encontre um abismo incomensurável infinito, o que em geral dá medo e até pavor a quase todos que A fitam. Só quem ousa ultrapassar tal abismo para ver o que há adiante talvez encontre a resposta a tudo, e certamente a mesma não se traduz no conforto que muitos poderiam encontrar em uma aconchegante sala de estar, praticando os seus joguinhos intelectuais ou de outra natureza do dia-a-dia. Certamente é mais fácil para a maioria continuar jogando a vida toda, mas isto não deveria ser chamado de Filosofia, e não foi assim que Sócrates e Platão a praticaram. Se a maioria dos academicistas de hoje prefere continuar jogando, isto não implica que Filosofia seja isto, pois a Verdade não é algo, necessariamente, que está com a maioria, não é decidida pela opinião da maioria.
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