A filosofia se define numa frase de Nietzsche, em ``A filosofia na idade
trágica dos gregos'': outros povos tiveram santos, os gregos tiveram sábios.


Por isso o ser a filosofia um fenômeno puramente ocidental.

2008/9/17 Arthur Buchsbaum <[EMAIL PROTECTED]>

> Caro colega Prof. Desidério Murcho:
>
> Primeiro quero parabenizar o senhor pela co-autoria do livro "Enciclopédia
> de Termos Lógico-Filosóficos", um livro do qual adquiri há anos um
> exemplar,
> do qual saiu recentemente uma nova edição ainda mais atualizada, e que
> tenho
> indicado aos meus alunos.
>
> Não sou erudito em Filosofia, mas uso idéias neste nível, entre outras
> aplicações, para a modelagem de sistemas lógicos, como por exemplo em "A
> Logical Expression of Reasoning", um sistema que pretende refletir o método
> científico europeu
> (
> http://wwwexe.inf.ufsc.br/~arthur/publicacoes/artigos_revistas/ALogicalExpr
> essionofReasoning.pdf<http://wwwexe.inf.ufsc.br/%7Earthur/publicacoes/artigos_revistas/ALogicalExpressionofReasoning.pdf>
> ).
>
> Quero expor o que sinto a respeito da "Filosofia" praticada nas academias,
> especialmente a ocidental. Com isto não quero desmerecer de nenhuma forma
> gente do quilate de Platão, Hegel, Kant, etc., os quais são alguns dos
> grandes luminares da Filosofia mundial. Quero relatar aqui especialmente a
> impressão que tem me dado a filosofia praticada nas universidades no
> dia-a-dia, enquanto alguém de fora dos departamentos e centros de
> "filosofia", mas que tem contatado estes ambientes ao longo dos anos.
>
> A Filosofia, especialmente a praticada no Ocidente, padece de alguns graves
> problemas, entre eles:
> (1) Só são considerados, basicamente, os filósofos de uma certa linhagem
> canônica, principiando por Platão e pré-socráticos, e prosseguindo por
> alguns filósofos medievais, até alguns filósofos da era atual. Não são
> praticamente considerados filósofos de quilate tais como todos da linhagem
> Vedanta e Sânquia, da linha hindu, e que deveriam merecer todo o respeito e
> consideração, e da linha taoísta e budista da China e Japão (pois o Budismo
> e Taoísmo são também filosofias, não simplesmente religiões). Na era atual
> são desconsiderados filósofos tais como Krishnamurti, Osho (ou Rajneesh) e
> todos os da linha da Filosofia Perene (http://www.perennial.org). Também
> são
> ignorados por completo os filósofos da Tradição Hermética, começando por
> Hermes Trismegisto (ou Thoth), Pitágoras, Apolônio de Tiana, Jacob Boehme,
> Salomão e outros. Tal atitude assemelha-se ao comportamento de um avestruz
> que esconde a cabeça em um buraco, para ignorar, talvez por medo, tudo o
> que
> se passa em sua volta.
> (2) Em decorrência do problema anterior, a filosofia acadêmica ocidental
> tem
> se afastado da admiração e respeito da maioria da elite intelectual e mesmo
> do resto da população do Ocidente, isto porque as necessidades intelectuais
> da maioria da população são, em grande parte, ignoradas pelos academicistas
> ocidentais, que continuam, em sua maioria, a passar o tempo a dissecar e
> redissecar apenas textos de uma lista bem restrita, e a fazer análises e
> re-análises, muitas vezes de uma forma bem pedante, de um número bem
> pequeno
> de fontes, com respeito à magnitude das referências existentes.
> (3) A Filosofia Ocidental tem se reduzido, na era atual, a uma atividade
> intelectual no sentido mais restrito. Não se nota qualquer engajamento
> expressivo por parte da maioria dos modernos professores de Filosofia.
> Enquanto Sócrates e Platão pregavam uma mudança profunda na vida de cada
> um,
> até nos menores detalhes, para a descoberta da plenitude da Existência, da
> Verdade e da Beleza, muitos dos que hoje se dizem "filósofos" passam o
> tempo
> em várias análises pedantes, mas apresentam as mesmas falhas psicológicas e
> de conduta que aquelas da população circundante. Não se nota nenhum
> benefício em sua vida pessoal, nenhuma transformação, não obstante a
> destreza intelectual que apresentam para dissecar os textos de sua restrita
> linha "escolástica". Neste sentido, ao visitar quase qualquer um dos
> departamentos ou centros de filosofia do Ocidente, podemos observar formas
> de conduta tais como a mentira, a maledicência, a intriga, a ocorrência de
> vícios tais como o fumo ou alcoolismo, e o orgulho. Pergunto-me daí quais
> os
> reais benefícios de tal atividade intelectual restrita, se não são
> observadas transformações mínimas em cada um que se pretende "filósofo"?
> Tais falhas de caráter são a antítese do que pregavam os pais da Filosofia
> Ocidental, tais como Sócrates e Platão.
>
> Maiores detalhes estão nos artigos:
> • "Tendências Atuais da Filosofia", de Jean-Yves Béziau
> (
> http://wwwexe.inf.ufsc.br/~arthur/pontosdevista/Tendencias%20Atuais%20da%20
> Filosofia.%20Jean-Yves%20Beziau.pdf<http://wwwexe.inf.ufsc.br/%7Earthur/pontosdevista/Tendencias%20Atuais%20da%20Filosofia.%20Jean-Yves%20Beziau.pdf>
> );
> • "A Universidade Fragmentada e Incompleta", em
>
> http://wwwexe.inf.ufsc.br/~arthur/pontosdevista/A_UniversidadeFragmentada_e_
> Incompleta.pdf<http://wwwexe.inf.ufsc.br/%7Earthur/pontosdevista/A_UniversidadeFragmentada_e_Incompleta.pdf>
> .
> • "O que quase todos somos e o que podemos ser", em
>
> http://wwwexe.inf.ufsc.br/~arthur/pontosdevista/O_que_quase_todos_somos_e_o_
> que_podemos_Ser.pdf<http://wwwexe.inf.ufsc.br/%7Earthur/pontosdevista/O_que_quase_todos_somos_e_o_que_podemos_Ser.pdf>
> .
>
> Muitos poderiam desconsiderar o que acabei de dizer, pois eu não sou
> formado
> em Filosofia, sequer a nível de graduação. O Prof. Jean-Yves Béziau, no
> entanto, é formado, nesta área, em todos os níveis acadêmicos, e vem
> tecendo
> sérias críticas à atividade acadêmica dos presentes centros e departamentos
> de "filosofia".
>
> a) Arthur Buchsbaum
>
>
> De: [EMAIL PROTECTED] [mailto:[EMAIL PROTECTED]
> Em nome de Desidério Murcho
> Enviada em: quarta-feira, 17 de setembro de 2008 01:11
> Para: Logica-L
> Assunto: Re: [Logica-l] Sem Lógica
>
> Caros colegas
>
> Gostaria de fazer alguns esclarecimentos. Em parte porque há coisas que me
> irritam. Irrita-me que se fale de filosofia numa lista académica como se a
> filosofia fosse lixo que não vale a pena estudar porque a Ciência (com
> maiúscula reverencial, quiçá religiosa) é que é o Verdadeiro Conhecimento.
> E
> depois vê-se que ler uns livritos de filosofia e estudar um bocadinho da
> minha disciplina até seria boa ideia.
>
> Comecemos por esta afirmação do colega Ricardo: "seria tomar o conhecimento
> científico actual como último e insuperável". Bom, o conhecimento é factivo
> o que significa que se alguém, seja quem for, sabe que P, é verdade que P e
> isso é insuperável, seja conhecimento científico ou de taxistas. Uma coisa
> completamente diferente são as crenças científicas. Estas podem ser
> revistas
> unicamente porque as crenças não são factivas. Mas, claro, que interesse
> tem
> estudar um pouquinho de filosofia? Que interesse tem poder pensar com mais
> clareza do que um amador em questões evidentemente filosóficas? Nenhum,
> porque a filosofia é lixo. Nem para distinguir cuidadosamente o
> conhecimento
> de crença, coisa que qualquer estudante do primeiro ano de filosofia de
> qualquer departamento que se preze sabe fazer, vale a pena estudar esta
> miséria acientífica chamada filosofia.
>
> Segundo, repare-se nesta concepção de metafísica: uma caracterização
> completa da realidade. A coisa até está próxima do que podemos encontrar em
> qualquer boa introdução à metafísica, como a do Lowe ou do Loux. Só que
> isto
> é tomado como um sonho de loucos, um devaneio que não é Científico, e que
> nos lança no domínio da mera opinião. A fobia pela objectividade e pelos
> resultados chega a este ponto: somos obrigados a especular, mas não sabemos
> como isso se faz porque se despreza a disciplina onde se aprende a
> especular
> com rigor, precisamente porque essa disciplina não é Científica e não
> apresenta resultados. Ironicamente, se não aprendermos a especular nunca
> aprenderemos a produzir resultados excepto os resultados quotidianos da
> ciência banal e quotidiana — e não os resultados da ciência imaginativa,
> nova, arriscada.
>
> Estou à muito tempo nesta lista e devo dizer que não me surpreende o
> desprezo a que se vota a filosofia e o desconhecimento da bibliografia mais
> básica. Isto é comum entre os meus amigos cientistas portugueses, mas não é
> menos idiota por isso. Espero que o Ricardo e os outros colegas não fiquem
> zangados comigo, mas é tempo de os colegas saberem uma coisa: discutir
> temas
> filosóficos como quem discute futebol é um insulto aos muitos filósofos que
> roubam tempo à sua pesquisa para publicar bons livros introdutórios, que
> permita que qualquer leitor inteligente aprenda pelo menos um pouco de
> filosofia para poder discutir esses temas de uma maneira intelectualmente
> sólida. Livros de introdução à filosofia da religião, à teoria do
> conhecimento, à filosofia da ciência, para citar só alguns casos.
>
> E pronto, desculpem-me o desabafo. Mas ponham-se no meu lugar: como
> reagiriam se eu desatasse a falar de computação sem mostrar o mínimo
> domínio
> da área nem mostrar qualquer interesse em estudar a bibliografia adequada?
> Filosofia, caros colegas, não é cultura geral que se faz nos intervalos de
> fazer ciência séria. É uma disciplina altamente especializada, que exige um
> treino demorado e um conhecimento da bibliografia relevante, assim como das
> teorias, problemas e argumentos em causa.
>
> Um abraço,
> Desidério
>
> _______________________________________________
> Logica-l mailing list
> [email protected]
> http://www.dimap.ufrn.br/cgi-bin/mailman/listinfo/logica-l
>
_______________________________________________
Logica-l mailing list
[email protected]
http://www.dimap.ufrn.br/cgi-bin/mailman/listinfo/logica-l

Responder a