Parece-me que tens uma perspectiva muito redutora da filosofia. Pior:
historicamente falsa e enganadora. A maior parte das obras dos filósofos
nada têm a ver com a salvação, seja qual for o sentido rebuscado que se dê a
este termo. A ética nem sempre tem a ver com a salvação. A procura da vida
boa não é necessariamente uma procura de salvação e a muitos filósofos não
escreveram sobre a ética. 

 

Será possível reinterpretar toda a história da filosofia dessa perspectiva?
Sim. É possível também interpretar toda a história da filosofia como uma
tentativa de oprimir os pobres. É possível interpretar as coisas como
quisermos. A possibilidade não basta. É preciso a plausibilidade e é preciso
procurar activamente contra-exemplos, caso contrário cometemos a falácia da
supressão de provas. Se ignorares todos os textos de todos os filósofos que
não tratam da questão da salvação e deres proeminência aos outros, claro que
parece que provas algo, mas isso é só porque suprimiste provas. Se a questão
da salvação fosse assim tão central na filosofia, por que razão não
escreveriam os filósofos sobre tal coisa mais vezes e mais explicitamente? 

 

A tua hipótese histórica parece-me insustentável por ser arbitrária. Com
igual arbitrariedade eu posso ler toda a história da filosofia dizendo que,
de algum modo, os problemas da metafísica da modalidade, que por acaso é a
área em que eu trabalho, estão sempre presentes nas preocupações dos
filósofos, mesmo daqueles que nunca escreveram uma linha explicitamente
sobre tal coisa. 

 

Além de historicamente insustentável, a tua posição é filosoficamente
implausível. Não há qualquer razão para pensar que o problema da salvação é
um problema filosófico, para começar. É um problema psicológico e pessoal.
Mas mesmo formulando o problema de uma maneira qualquer de modo a dar-lhe
interesse filosófico, por que razão havemos de pensar que é um problema
central da filosofia? Mesmo que psicologicamente muitas pessoas se preocupem
muito com isso, daí não se segue que o problema tenha centralidade
filosófica. Todos os filósofos se preocuparam com ter comida para comer, mas
nem por isso a comida tem centralidade filosófica.  

 

Um abraço,

Desidério

 

From: Rodrigo Oliveira [mailto:[EMAIL PROTECTED] 
Sent: sexta-feira, 19 de Setembro de 2008 18:09
To: Desidério Murcho
Subject: RE: [Logica-l] RES: falhas graves da "filosofia" acadêmica
ocidental

 


Caro Desidério,

"O que estás a fazer é supressão de provas. Apontas vários exemplos
favoráveis à tua generalização, mas escondes tudo o que refuta a
generalização. A maior parte das obras da maior parte dos filósofos não
trata do problema do sentido da vida. Há muitíssimos mais capítulos e livros
inteiros sobre outras temas, como a natureza da verdade ou a possibilidade
do conhecimento, a natureza das propriedades."

Sua observação é pertinente. Sem dúvida é um dos pontos que devem ser melhor
desenvolvidos. Estou tentando esclarecer melhor um ponto de vista sobre a
filosofia, amplamente difundido, que muitos filósofos contestam ou odeiam.
Eu mesmo odeio muito do que se escreve nesse sentido. Mas defendo sim que
esse projeto de salvação está presente senão como tema central ao menos como
pano de fundo no trajeto da história da filosofia.

Entrei na discussão porque mesmo sendo contra as teses apresentadas pelo
Arthur, ao apresentarem o que ele acredita, muitos, inclusive você,
resumiram o pensamento dele a uma caricatura simples e ingênua, alias coisa
que muitos ao comentarem alguém ou um filósofo ou um sistema fazem. Tal como
apresentaram o pensamento dele nem mesmo uma pessoa ingênua acreditaria. Um
conselho popperiano: melhorar as teses e os argumentos adversários para só
então criticá-los. No fundo quis apenas moderar.

A palavra salvação pode causar revolta mesmo. O que quero dizer com salvação
é o lado de construção pessoal que a filosofia sempre teve associado ao seu
nome. Abordado sobretudo na parte da ética. Filosofia não é religião,
concordo. Mas ela surgiu tomando como objeto para reflexão temas
pertencentes a religião. Tudo bem que podemos ser objetivos e entender a
ética como uma reflexão sobre os conceitos éticos e trabalhar problemas como
a universalização da moral e a justificação de enunciados éticos ou ainda a
possibilidade dos mesmos. Mas Desidério, você recomendaria o que acabei de
dizer como uma chave de leitura para um estudante de filosofia? Diria para
ele ler a ética de Platão assim? Ler os estóicos assim? Sem dúvida essas
questões estão presentes e podemos analisar esses filósofos assim, mas ao
menos na filosofia antiga é inegável que não se tratava apenas de uma
discussão conceitual. Não era esse o interesse principal desses filósofos.
Seria analisá-los de uma perspectiva puramente analítica e creio que perder
o cerne de suas filosofias morais. Contemporaneamente isso é possível em
muitos casos.

Que mostrei exemplos favoráveis a tese que apresentei, não a que defendo,
sem dúvida eu o fiz. Não vejo outro modo de argumentar a favor dessa idéia
de forma sucinta. Um modo mais adequado talvez fosse desenvolver a idéia
central de que a filosofia surge da constatação da finitude do homem e de
sua consciência disso e então olhar para a história da filosofia nessa
perspectiva. Sem dúvida significa entortá-la. Assim como a visão analítica
também a entorta. Mas acho que agindo analiticamente e tendo como pano de
fundo essa questão da salvação, esse lado existencial, temos uma chave de
leitura melhor, mais abrangente. A história da filosofia pura obviamente não
temos acesso.

"Hume nunca escreveu sobre o sentido da vida, Tomás de Aquino tem pequenas
passagens apenas em que fala disso, Schopenhauer escreveu muito mais sobre a
natureza da representação e da realidade do que sobre o sentido da vida." 

Tómas de Aquino defende o cristianismo como a salvação do mesmo modo que
indiretamente Descartes e Kant. Onde culminam as teses de Schopenhauer? Numa
ética do santo. Eu consigo extrair de Hume muitas diretrizes do que seria
uma vida boa. Em Schopenhauer essa idéia é bem presente, em Hume e Kant
menos, mas ainda a vejo presente.

Os livros de filosofia dedicam mais capítulos a outras questões do que ao
sentido da vida. Verdade. Mas após desenvolverem suas ontologias e
epistemologias para onde se dirigem os filósofos? Ética. Ao ler os filósofos
tenho sempre a impressão de que a ética coroa seus sistemas.
Note que quem assume essa questão da salvação ou de uma construção interior
não precisa excluir as outras áreas da filosofia, nem considerá-las menos
importantes.

A salvação está presente de um modo muito forte em Wittgenstein. Ler sua
obra apenas de uma perspectiva analítica seria eliminar o que o motivava a
fazer filosofia. Nesse sentido não acha que a questão de um projeto de
construção pessoal ou de formação acompanha a filosofia? Sem resumi-la a
isso.

Gostaria muito de ouvir seus comentários. É um prazer pra mim dialogar com
você.

Abraço

Rodrigo



  _____  

From: [EMAIL PROTECTED]
To: [email protected]
Date: Fri, 19 Sep 2008 11:14:04 -0300
Subject: Re: [Logica-l] RES: falhas graves da "filosofia" acadêmica
ocidental

Caro Rodrigo

 

Há certas afirmações factualmente falsas que são de evitar. Eis algumas:

 

“Grosso modo a questão central da filosofia é: qual o sentido da vida? Ou
ainda: Como atingir a vida feliz? Não se trata de aderir a um credo e
pronto, trata-se de alcançar a vida boa, exige esforço e empenho e a razão é
o principal instrumento. Esse projeto perpassa a história da filosofia.
Sócrates mesmo vai dizer que a filosofia nos prepara para a morte. A
filosofia de Epicuro e dos estóicos retratam bem isso. Montaigne diz
"filosofar é aprender a morrer". Uma das perguntas centrais da filosofia
para Kant é "O que nos é permitido esperar?"”

 

O que estás a fazer é supressão de provas. Apontas vários exemplos
favoráveis à tua generalização, mas escondes tudo o que refuta a
generalização. A maior parte das obras da maior parte dos filósofos não
trata do problema do sentido da vida. Há muitíssimos mais capítulos e livros
inteiros sobre outras temas, como a natureza da verdade ou a possibilidade
do conhecimento, a natureza das propriedades. 

 

Por que razão chamo a atenção para isto? Porque nenhuma discussão séria
sobre estes temas pode ter lugar se partirmos logo de falsidades históricas.
Podemos e devemos ter opiniões divergentes sobre se o sentido da vida devia
ou não ser a questão central da filosofia, grosso modo. Mas não devemos
basear as nossas divergências em puras falsidades históricas. Hume nunca
escreveu sobre o sentido da vida, Tomás de Aquino tem pequenas passagens
apenas em que fala disso, Schopenhauer escreveu muito mais sobre a natureza
da representação e da realidade do que sobre o sentido da vida. 

Na verdade, a grande ironia quanto a pessoas como o Arthur, que dizem ter
muito interesse em temas como o sentido da vida, é o puro desconhecimento da
bibliografia recente sobre o tema. Isto acontece porque essa bibliografia
não dá ao Arthur o tipo de música das palavras que ele busca, uma música que
lhe dê conforto espiritual. Tudo o que se encontra nessa bibliografia
(Wiggins, Nozick, Nagel, Levy, Baier, Metz, Taylor e tantos outros,
incluindo eu próprio) é a discussão de ideias, e não paliativos infantis
para as dores de alma. A filosofia não é religião e por isso não tem
qualquer tipo de interesse para quem procura conforto espiritual.

 

Espero ter desestabilizado mais uma vez os amigos e colegas da lista. É o
meu jeito idiota de ser. Mas não gosto de opiniões baseadas em
desconhecimento das coisas, nem de hipocrisia: pessoas que querem realmente
uma coisa mas são incapazes de declarar abertamente o que realmente querem.
Eu não vejo problema algum em querer conforto espiritual, querer uma coisa
qualquer mística, para-religiosa, etc. Mas chamar-lhe filosofia é uma
falsidade histórica, pura e simplesmente. 

 

Abraços,

Desidério 

 

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