Caro Ricardo

 

Obrigado pela amável resposta à minha destrambelhada reacção. 

 

Só acrescento uma nota: conhecimento e verdade são duas coisas diferentes,
assim como a factividade não é o mesmo que factível. 

 

O conhecimento é factivo no mesmo sentido em que a visão é factiva: não
podemos ver uma árvore se não estivermos perante uma árvore, mas podemos
pensar erradamente que estamos a ver uma árvore quando estamos apenas a
sonhar ou a ter uma alucinação. Analogamente, não faz sentido dizer que o
João sabe que a neve é preta e que a neve não é preta. Se a neve não for
preta, ele não pode saber que é preta, mas pode evidentemente acreditar que
é preta. Crença e conhecimento são bem diferentes precisamente porque o
conhecimento é factivo e a crença não. 

 

O conhecimento é diferente da verdade porque uma crença pode ser verdadeira
sem contudo ser conhecimento. Quando alguém tem uma crença verdadeira
qualquer essa crença pode não ser conhecimento se a pessoa não tiver uma
justificação adequada para ela, e no entanto a crença não é menos verdadeira
por isso. A verdade é uma propriedade das nossas crenças, pensamentos ou
proposições, ao passo que o conhecimento é uma relação entre um agente
cognitivo e  uma proposição (falo do conhecimento proposicional, claro, e
não do saber-fazer nem do conhecimento por contacto). 

 

Só mais uma nota (sou mesmo um chato): não me parece que um bom argumento a
favor de não ler introduções à filosofia seja o facto de se ter tido a
experiência infeliz de se ler más introduções à filosofia. Ninguém aceitaria
como bom o argumento de que não devemos beber água nunca porque bebemos más
águas várias vezes no passado, poluídas e com mau gosto. Sem livros
introdutórios é impossível a alguém ter uma boa formação seja no que for,
incluindo a filosofia ou a matemática ou a física. Mas, claro, esses livros
podem ser bons ou maus. A arte é saber escolher os bons e deitar fora os
maus. Mas se cada um de nós tiver de passar dez anos a estudar só um autor,
evidentemente que nunca poderá fazer realmente filosofia, pois só conhecerá
as ideias desse mesmo autor e nem fará a mínima ideia do que os filósofos
discutem hoje em dia. Na verdade, é dever de quem conhece bem um tema ou
autor transmitir esse seu conhecimento aos outros, de forma escorreita e
directa, para que os outros possam aprender mais depressa o que a nós nos
demorou mais tempo. É por isso que este trabalho didáctico é tão importante:
sem ele, toda a gente estava ainda a estudar a obra imensa de Aristóteles e
ninguém mais tinha escrito mais nada depois disso. E o mesmo aconteceria na
física ou na geometria. Infelizmente não há muitas vezes a noção da
importância deste trabalho didáctico humilde, mas que se for bem feito
permite a um estudante de 18 anos compreender melhor a lógica aristotélica,
em apenas umas semanas, do que Aristóteles a compreendia (e ele deve ter
demorado anos a desenvolver o seu sistema de lógica). Enfim, esta é a minha
visão das coisas e pode obviamente estar errada, mas achei boa ideia
partilhá-la com os colegas. Talvez por causa das minhas origens humildes, a
democratização do conhecimento é para mim um aspecto muito importante. 

 

Um abraço,

Desidério

 

From: [EMAIL PROTECTED] [mailto:[EMAIL PROTECTED] On
Behalf Of Ricardo Pereira Tassinari
Sent: quinta-feira, 18 de Setembro de 2008 3:12
To: Desidério Murcho
Cc: Logica-L
Subject: Re: [Logica-l] Sem Lógica

 

Caro Desidério.

Desculpe-me se passei a impressão de que a Filosofia "fosse lixo que não
vale a pena estudar"; acho exatamente o contrário. Sendo um hegeliano (e
estudo Hegel a mais de 10 anos) não poderia deixar de tê-la, como ele, e
segundo a determinação que ele apresenta dela, como o mais alto
Conhecimento. Penso que o Conhecimento, isto é a Verdade, é factivo, mas,
acabo usando os termos "Ciência" ou "Conhecimento Científico" não nesse
sentido originário, por ser mais comum em Epistemologia, como, por exemplo,
em Gilles-Gaston Granger. Porém, mesmo tendo essa posição metafísica, não
acho que o ponto de vista do Conhecimento como factível tenha aceitação
geral entre os filósofos. Aliás, se não me engano muito, há muito pouco
consenso em Filosofia. Por outro lado, evito estudar Filosofia em manuais;
em geral, a grande maioria dos que já vi expondo a filosofia hegeliana, por
exemplo, continha erros assustadores, e penso, verdadeiramente, que não se
pode expressar com precisão o pensamento de um filósofo em algumas poucas
páginas à alguém que se inicia. Por outro lado, arrepia-me também alguns
manuais que pretende com algumas definições gerais dar conta de problemas
filosóficos profundos, exatamente como se conseguissem condensar a resposta
do problema melhor que os filósofos que os antecederam. Concordo com você
que seria bom, aqui na lista, um pouco mais de rigor no uso de conceitos
como o de Ciência, por exemplo, mas não chego a me irritar com isso.

Quanto a seu comentário a respeito do que pensaria Piaget a respeito da
Filosofia, em resposta ao Márcio, sugiro que leia o livro de Piaget "Ilusões
e Sabedorias da Filosofia" do qual a citação foi tirada. Ela é um pouco mais
complexa do que a citação pode informar.

No mais, é bom ver um verdadeiro filósofo participar aqui de nossa
discussão: bem vindo a lista de Lógica!

Abraço,
Ricardo.





2008/9/17 Desidério Murcho <[EMAIL PROTECTED]>

Caros colegas

 

Gostaria de fazer alguns esclarecimentos. Em parte porque há coisas que me
irritam. Irrita-me que se fale de filosofia numa lista académica como se a
filosofia fosse lixo que não vale a pena estudar porque a Ciência (com
maiúscula reverencial, quiçá religiosa) é que é o Verdadeiro Conhecimento. E
depois vê-se que ler uns livritos de filosofia e estudar um bocadinho da
minha disciplina até seria boa ideia. 

 

Comecemos por esta afirmação do colega Ricardo: "seria tomar o conhecimento
científico actual como último e insuperável". Bom, o conhecimento é factivo
o que significa que se alguém, seja quem for, sabe que P, é verdade que P e
isso é insuperável, seja conhecimento científico ou de taxistas. Uma coisa
completamente diferente são as crenças científicas. Estas podem ser revistas
unicamente porque as crenças não são factivas. Mas, claro, que interesse tem
estudar um pouquinho de filosofia? Que interesse tem poder pensar com mais
clareza do que um amador em questões evidentemente filosóficas? Nenhum,
porque a filosofia é lixo. Nem para distinguir cuidadosamente o conhecimento
de crença, coisa que qualquer estudante do primeiro ano de filosofia de
qualquer departamento que se preze sabe fazer, vale a pena estudar esta
miséria acientífica chamada filosofia. 

 

Segundo, repare-se nesta concepção de metafísica: uma caracterização
completa da realidade. A coisa até está próxima do que podemos encontrar em
qualquer boa introdução à metafísica, como a do Lowe ou do Loux. Só que isto
é tomado como um sonho de loucos, um devaneio que não é Científico, e que
nos lança no domínio da mera opinião. A fobia pela objectividade e pelos
resultados chega a este ponto: somos obrigados a especular, mas não sabemos
como isso se faz porque se despreza a disciplina onde se aprende a especular
com rigor, precisamente porque essa disciplina não é Científica e não
apresenta resultados. Ironicamente, se não aprendermos a especular nunca
aprenderemos a produzir resultados excepto os resultados quotidianos da
ciência banal e quotidiana — e não os resultados da ciência imaginativa,
nova, arriscada.

 

Estou à muito tempo nesta lista e devo dizer que não me surpreende o
desprezo a que se vota a filosofia e o desconhecimento da bibliografia mais
básica. Isto é comum entre os meus amigos cientistas portugueses, mas não é
menos idiota por isso. Espero que o Ricardo e os outros colegas não fiquem
zangados comigo, mas é tempo de os colegas saberem uma coisa: discutir temas
filosóficos como quem discute futebol é um insulto aos muitos filósofos que
roubam tempo à sua pesquisa para publicar bons livros introdutórios, que
permita que qualquer leitor inteligente aprenda pelo menos um pouco de
filosofia para poder discutir esses temas de uma maneira intelectualmente
sólida. Livros de introdução à filosofia da religião, à teoria do
conhecimento, à filosofia da ciência, para citar só alguns casos. 

 

E pronto, desculpem-me o desabafo. Mas ponham-se no meu lugar: como
reagiriam se eu desatasse a falar de computação sem mostrar o mínimo domínio
da área nem mostrar qualquer interesse em estudar a bibliografia adequada?
Filosofia, caros colegas, não é cultura geral que se faz nos intervalos de
fazer ciência séria. É uma disciplina altamente especializada, que exige um
treino demorado e um conhecimento da bibliografia relevante, assim como das
teorias, problemas e argumentos em causa. 

 

Um abraço,

Desidério

 

From: [EMAIL PROTECTED] [mailto:[EMAIL PROTECTED]
On Behalf Of Ricardo Pereira Tassinari
Sent: terça-feira, 16 de Setembro de 2008 4:44
To: Lógica-L
Subject: [Logica-l] Sem Lógica

 

Olá a todos.



Confesso que já não estou entendendo mais muito bem o que estamos discutindo
sobre Religião (já que a discussão sobre Futebol e Política não vingou), mas
parece-me claro que:

1. Não dá para equiparar conhecimento científico (com a construção de
modelos, testes experimentais controlados e públicos, etc.) com
"conhecimento" (se faz sentido usar essa palavra aqui) sobre assuntos
religiosos;
2. A Ciência não caracteriza completamente o que é a Realidade; seria
transformar a Ciência em Metafísica e, pior, tomar o conhecimento científico
atual como último e insuperável;
3. No "método científico" (se há tal coisa, pois não é um algoritmo), na
escolha dos postulados de uma teoria científica, entram coisas como "Navalha
de Ockham" ou Princípio de Simplicidade, que, a menos que se prove o
contrário, a Verdade (se posso usar esse termo) não tem que satisfazer;

Assim, por 2 e 3, estamos no relativo; isso cria um vácuo em relação ao que
o "conhecimento" religioso (ou até mesmo metafísico) quer atingir (e sobre
os "métodos" usados para isso), que cada um tem o direito de preencher como
quiser (seja sendo um ateu-macho como o Décio, seja sendo um livre pensador
que busca superar seus preconceitos como o Arthur). Para além disso é
dogmatismo, não?

Particularmente, a questão me toca pois acho que há muito a se pesquisar
sobre o homem (em especial, como explicar o comportamento humano dito
"superior" em Psicologia, e.g., como o ser humano "faz" Matemática ou como
ele constrói a Ciência) seja como ser biológico (como o faz Piaget) seja sob
um ponto de vista idealista (que *esteticamente* me agrada), sem fixar de
início qual a posição metafísica a se adotar. Parece-me claro que ninguém
atualmente tem respostas claras e convincentes, muito menos explicações
científicas com todo o rigor que elas demandam, para entendermos, pelo
menos, como somos, o que dirá o que somos.

Abraço a todos,
Ricardo.

-- 
Dr. Ricardo Pereira Tassinari - Departamento de Filosofia
UNESP - Faculdade de Filosofia e Ciências - Marília
Homepage: http://www.marilia.unesp.br/ricardotassinari


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