Obrigado pelas sempre amáveis palavras, João. "Viver Para Quê? Ensaios Sobre
o Sentido da Vida" ainda não saiu, mas deve sair até ao final do ano em
Portugal (na Dinalivro). Espero, assim que tiver o trabalho pronto,
conseguir interessar alguma editora brasileira na obra, até porque foi
concebida para permitir dar uma cadeira semestral sobre o tema, aos colegas
de filosofia que quiserem fazê-lo. O curso que dei foi já baseado na
antologia, que estava ainda em fase de tradução, e correu bem. Os textos são
estimulantes e deram muita discussão com os alunos. Penso que eles gostaram,
e para mim foi muito esclarecedor. Evidentemente, há muitos mais textos além
dos seis escolhidos, mas o editor não queria uma antologia muito grande. Se
o livro se vender bem espero poder acrescentar outros textos em edições
futuras. 

Mas deixa-me acrescentar uma nota de pessimismo. Não tenho a mínima
veleidade de pensar que pessoas como o Arthur vão parar de dizer que a
filosofia ocidental não se interessa pelo sentido da vida. Porque o Arthur,
se ler a bibliografia filosófica sobre o tema, vai perceber que não é o
género de coisa que procura. As pessoas tendem a confundir a filosofia com
religiões sem deus e muito palavreado, misticismos avulsos e coisas dessas.
Não tenho problema algum com isso. As pessoas também pensam que a física
quântica é meio mística. Os físicos também não têm problema com isso —
excepto em contextos académicos. Ficariam os colegas da física
insatisfeitos, decerto, se eu tivesse essa visão da física quântica, e do
mesmo modo eu fico insatisfeito quando os colegas de outras áreas
identificam a filosofia com misticismos e palavreados mistificadores. 

Um abraço,
Desidério

-----Original Message-----
From: [EMAIL PROTECTED] [mailto:[EMAIL PROTECTED] On Behalf Of Joao
Marcos
Sent: sexta-feira, 19 de Setembro de 2008 11:26
To: Desidério Murcho
Cc: Logica-L
Subject: Re: [Logica-l] RES: falhas graves da "filosofia" acadêmica
ocidental

> Na verdade, a grande ironia quanto a pessoas como o Arthur, que dizem ter
> muito interesse em temas como o sentido da vida, é o puro desconhecimento
da
> bibliografia recente sobre o tema. Isto acontece porque essa bibliografia
> não dá ao Arthur o tipo de música das palavras que ele busca, uma música
que
> lhe dê conforto espiritual. Tudo o que se encontra nessa bibliografia
> (Wiggins, Nozick, Nagel, Levy, Baier, Metz, Taylor e tantos outros,
> incluindo eu próprio) é a discussão de ideias, e não paliativos infantis
> para as dores de alma. A filosofia não é religião e por isso não tem
> qualquer tipo de interesse para quem procura conforto espiritual.

Acresço que o Desidério participou brilhantemente de uma mesa-redonda
aqui em Natal no ano passado, no "I Seminário Internacional de
Filosofia Analítica Contemporânea", exatamente sobre o tema do
*sentido da vida*, e ofereceu recentemente um curso bastante disputado
sobre o mesmo tópico no Departamento de Filosofia da UFOP (vide
http://dmurcho.com/meaning.html, onde se podem encontrar outras
referências, e http://criticanarede.com/pensaroutravez2.html).

Desidério, teu livro "Viver Para Quê? Ensaios Sobre o Sentido da Vida"
já saiu?  Sai publicado também aqui no Brasil, ou só Além-Mar?

JM

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