Sim, Francisco eu li o que escreveste há dias. Obrigado pela correcção. Numa 
primeira versão quis dar conta disto que tu dizes, mas acabei por apagar porque 
não faço a mínima ideia do que estás a falar e por isso não vale a pena fingir 
que sei qual é a relevância disto. Não sei o que é PA nem a regra de Shoenfield 
e tenho apenas uma ideia vaga do que é um sistema não construtivo. 

 

Dado que o verbo “mostrar” é factivo eu deveria ter escrito “O que Gödel 
pensava ter mostrado…” ou então “O que Gödel mostrou foi que no sistema de 
Russell…”

 

Obrigado pela atenção e pela correcção,  uma vez mais. 

 

Um abraço,

Desidério

 

From: Francisco Antonio Doria [mailto:[EMAIL PROTECTED] 
Sent: domingo, 21 de Setembro de 2008 15:59
To: Desidério Murcho; Logica-L
Subject: Re: [Logica-l] Sem Lógica

 

O seguinte não é correto:

O que Gödel mostrou é precisamente que isso não pode ser feito porque há 
verdades aritméticas que não podem ser demonstradas logicamente em qualquer 
sistema suficientemente forte para conter a aritmética. 

Já falei que PA + regra de Shoenfield, um sistema não-construtivo mas razoável 
e manipulável, prova todas as verdades da aritmética. (E a formulação acima 
está confusa: pega uma dessas verdades, X. O sistema PA + X prova-a, sem 
problemas. Se X for ∏1, melhor ainda, pois PA + X é quase irmão-gêmeo de PA.) 

2008/9/21 Desidério Murcho <[EMAIL PROTECTED]>

Olá, Ricardo!

 

Este argumento parece-me mau:

 

Penso que não podemos nos enganar e esquecer que, de uma forma ou de outra, uma 
das funções principais daS filosofiaS, que as fazem existir, é, como na 
religião, dar "conforto espiritual, bem-estar de alma"; mesmo que na forma do 
apego a microcertezas para poder julgar o mundo e estabelecer seu próprio 
valor; é sempre bom lebrar aquela passagem de Nietzche: "como todo 
transportador de carga quer ter seu admirador, mesmo o mais orgulhoso dos 
homens, o filósofo, pensa ver por todos os lados os olhos do universo 
telescopicamente em mira de seu agir e pensar"; e falo também de mim, se é que 
me entende.

O argumento reduz-se a isto: "Nietzsche disse que P, logo P". Acontece que 
isto, independentemente de ser dito por Nietzsche ou por Hitler, é 
historicamente falso, porque: 

1)                          Nada nos escritos da maior parte dos filósofos 
permite afirmar que o objectivo deles era encontrar conforto espiritual. 

2)                         Em muitos escritos de filósofos encontramos 
precisamente o apelo contrário; é o caso de Quine: 
http://www.intelectu.com/intelectu_win_12_06.html

3)                         Falando com muitos filósofos, eles não concordam com 
a sua posição perante a filosofia. 

Claro, será verdade que algumas pessoas vêem a filosofia dessa maneira? Sim. 
Será essa visão da filosofia preponderante ou filosoficamente significativa? 
Esta questão já é mais interessante, pois tanto a tese radical de que nenhum 
filósofo vê a filosofia dessa maneira como a de que todos a vêem assim 
parecem-me historicamente falsas. Seja qual for a resposta a esta questão, 
todavia, de nada vale fingir que é óbvia a resposta que preferimos só porque 
concorda com a visão que nós mesmos temos da filosofia. A filosofia serve e tem 
servido para muitas coisas ao longo da história, e qualquer pessoa pode 
evidentemente fazer o que lhe apetecer dela. Mas a mentira histórica em nada 
nos ajuda a ter uma visão mais clara das coisas. E a verdade é que muitos 
filósofos encaram como função principal da filosofia a procura de verdades (e 
não da Verdade religiosa), e não o conforto espiritual. Até porque muitos 
filósofos não acreditam sequer que tenhamos espírito ou alma (conceitos 
extremamente difíceis de articular coerentemente, quanto mais tornar 
plausíveis). 


Acho que TODOS temos a contribuir nessa jornada em busca da Verdade, que, no 
fundo, é uma busca da Verdade sobre nós mesmo (mesmo que existam os que não se 
dêem conta disso).

Não concordo, se me for permitido. A maior parte das verdades não são sobre nós 
mesmos, excepto quando temos uma concepção algo narcísica da verdade, 
sacrificando-a ao que nos é confortável. Defenderei sempre o direito das 
pessoas a ter esta visão algo narcísica da verdade e da filosofia, mas é um 
exagero dizer que quem não concorda com ela é porque não se dá conta disso. 
Pensemos, por exemplo, no problema dos universais ou das verdades necessárias 
alógicas. O que tem isto a ver comigo mesmo? Quero saber se há universais ou 
não e qual é a sua natureza, quero saber se há verdades necessárias que não 
sejam verdades da lógica e qual é a sua natureza; mas nada disto tem seja o que 
for a ver comigo ou com o meu conforto espiritual. Defenderei sempre quem 
quiser sacrificar a verdade ao conforto espiritual e quem quiser ver o seu 
próprio umbigo em todo o lado, mas não vou fingir publicamente que penso que 
tal modo de vida é defensável. Não penso tal coisa, mas as pessoas têm o 
direito de viver como quiserem e de fazer da filosofia o que lhes apetecer. 


Assim, não somos mais, nem menos, por sermos filósofos: somos apenas filósofos; 

Aqui concordo plenamente. Sempre argumentei contra os discursos exagerados que 
fazem da filosofia a coisa mais importante do mundo. Não é. Há coisas muito 
mais importantes, como ter água quando temos sede, amor e honestidade. A 
filosofia é uma disciplina como as outras, muito sofisticada, mais densa 
teoricamente do que muitas e menos complexa do que outras. É uma disciplina 
entre outras que procuram compreender melhor a natureza da realidade. Um 
filósofo não é superior a um padeiro por ter tido a sorte de ter uma formação 
académica, tal como um matemático não é superior a um filósofo por poder 
demonstrar teoremas, ao passo que o filósofo tudo o que faz é articular 
cuidadosamente especulações e discutir argumentos. 

Voltando a um ponto técnico: discordo de você que, em um e-mail anterior, disse 
que "descobrimos com Gödel que a verdade matemática não pode ser totalmente 
reduzida à verdade lógica". As definições relativas ao número apresentadas por 
Frege nos Fundamentos da Aritmética, como extensão de conceitos, permite 
definir o número em termos lógicos e derivar as verdades da Aritmética das 
verdades lógicas. O problema não está nessa retradução da LINGUAGEM da 
Aritmética para a LINGUAGEM da Lógica, que em última análise permite a redução 
da verdade matemática à verdade lógica (da qual podemos ver a incorreção de sua 
afirmação), mas em buscar fundamentar a Aritmética em um sistema 
(recursivamente) axiomatizável, pois nem mesmo as verdades lógicas (de uma 
linguagem que contém a de segunda ordem, como é era o caso de Frege e Gödel) 
podem ser (recursivamente) axiomatizáveis.

Não me parece que possa concordar com isto. Reduzir a construção de números a 
uma construção lógica não é suficiente para reduzir a verdade aritmética à 
verdade lógica. É também preciso que todas as verdades que se conseguem atingir 
com os métodos normais da matemática se consigam atingir no sistema lógico 
criado para o efeito. O que Gödel mostrou é precisamente que isso não pode ser 
feito porque há verdades aritméticas que não podem ser demonstradas logicamente 
em qualquer sistema suficientemente forte para conter a aritmética. 

Mas, evidentemente, não sou um lógico e os colegas desta área sabem muitíssimo 
mais disto do que eu. 

Forte abraço,

Desidério 


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