Alguém sabe dizer como anda a aceitação (nos países que falam a língua
inglesa) dos pronome "they" e "their" como neutro no singular em lugar de
he/she e his/her?

Abraço,

Prolo




On Thu, Aug 26, 2021 at 4:55 PM Joao Marcos <botoc...@gmail.com> wrote:

> Viva, Cifuentes:
>
> A conversa nesta thread morreu rápido, e eu não cheguei a lhe
> responder.  Talvez o assunto "reforma da língua" (entre aspas) tenha
> ajudado a gerar más interpretações...
>
> Não me parece que a discussão aqui tenha estado ligada ao
> "policiamento gramatical", como alguém me escreveu em privado, nem me
> parece que, na seara puramente gramatical, haja qualquer necessidade
> de irmos além do mero _reconhecimento_ das falas ou dos dialetos
> usados por certas comunidades.  A minha pergunta inicial, nesta
> thread, dizia respeito ao questionamento da falta de _concordância de
> gênero_ entre o pronome possessivo "seus" e o neo-substantivo
> "alunes", na mensagem de um@ colega.  Já descobri, de lá pra cá, que o
> neo-pronome "sues" poderia (deveria?) ter sido usado, ao invés.  No
> entanto, a própria discussão, aparentemente, tornou a situação ainda
> mais enrolada, pois mostrou que certas comunidades entendem que o
> "alunes" deve ser usado para se referir a uma terceira caixinha, além
> das duas caixinhas chamadas "masculino" e "feminino", em português,
> enquanto que outras comunidades entendem que o "alunes" deve ser usado
> para se referir a todas as caixinhas de uma só vez.  Obviamente, as
> duas opções são modeladas por diagramas de Venn bastante diferentes.
>
> Quanto às injustiças sociais, estas havemos de atacar por várias
> frentes, tod@s junt@s!
>
> Abraços,
> Joao Marcos
>
>
> On Sun, Aug 22, 2021 at 2:13 PM josé carlos cifuentes <jcc...@gmail.com>
> wrote:
> >
> > Vamos mudar a língua toda para corrigir as injustiças sociais, quando a
> língua em princípio não tem culpa disso. Assim, vamos chegar a discutir,
> por exemplo, se ao invés de dizer "as coisas" vamos também dizer "os
> coisos", ou melhor, "es coises".
> > Platão já nos ensinou a não confundir o belo com as coisas belas. Os
> termos genéricos são justamente independentes de qualquer género, isto é,
> envolvem todos os géneros (ou as géneras, ou es géneres)..
> > Devemos chamar Aristóteles de machista porque ele disse "os homens são
> animais bípedes ..." e não dizer que (também "as mulheres são animais
> bípedes ..."?
> > Ou ainda, quem tem razão: os portugueses que dizem "a arte", ou os
> espanhois que dizem "el arte"? Em português, "o nosso nariz" é masculino, e
> em espanhol, "nuestra nariz" é feminino.
> > Cifuentes
> >
> >
> >
> > Em dom., 22 de ago. de 2021 às 13:33, Eduardo Ochs <
> eduardoo...@gmail.com> escreveu:
> >>
> >> Oi João!
> >>
> >> Vou responder em dois e-mails. Deixa eu começar mandando o link de um
> >> texto sobre isso que virou o favorito da minha coleção...
> >>
> >>
> https://silviacavalcante.blogspot.com/2020/10/diario-de-quarentena-sete-meses-depois.html
> >>
> >> e vou mandar também - abaixo - os trechos que eu considero mais
> >> importantes, porque se eu não fizer isso a chance dos engenheiros
> >> entenderem vai ser zero, né... =P
> >>
> >> Lá vai. [[]], E.
> >>
> >>   --snip--snip--
> >>
> >> A marcação de gênero nas palavras é arbitrária e variável nas línguas
> >> e não tem nada a ver com o significado da palavra no mundo biossocial
> >> (para usar os termos de Câmara Jr.). O que acontece em PB? Acontece
> >> que algumas palavras estão começando a ser marcadas gramaticalmente
> >> com gênero neutro para marcar uma não oposição no mundo biossocial: em
> >> português temos morfemas específicos para marcar feminino, que se opõe
> >> ao masculino, no mundo biossocial, mas o não binário não tem uma
> >> marcação gramatical específica. Ou não tinha. Não tinha. Porque agora
> >> tem: surgem os pronomes e as desinências de neutro para marcar
> >> gramaticalmente uma oposição biossocial. E aí eu estou usando a
> >> palavra oposição propositadamente: mesmo que a intenção dos indivíduos
> >> não-binários que sentiram a necessidade de serem referidos como "elu"
> >> e com a desinência -e, gramaticalmente agora elus se opõem ao
> >> masculino e ao feminino. Então, para substantivos (e aí os adjetivos
> >> por concordância) que tenham o traço [+humano] temos a oposição
> >> masculino / feminino / neutro: aluno / aluna / alune; ele / ela/ elu;
> >> dele / dela / delu; cansado / cansada / cansade. (OBS: Reparem que não
> >> estou marcando o -o das palavras masculinas, porque não é morfema de
> >> gênero, e, sim vogal temática.)
> >>
> >> (...)
> >>
> >> E se a gente fizer uma busca na internet, verá que várias línguas
> >> estão usando formas gramaticais de marcar a linguagem neutra, ou a
> >> linguagem inclusiva de gênero. Vocês podem procurar por "gender
> >> inclusive language" e vão achar vários artigos falando em como é esse
> >> uso em diversas línguas. Eu, particularmente, fiquei feliz quando vi
> >> que é uma tendência linguística de amplo espectro. Então,
> >> morfologicamente, não há problema algum em linguagem neutra. Há
> >> problema quando a gente não sabe fazer análise morfológica e confunde
> >> gênero gramatical com gênero no mundo biossocial. E os morfemas e
> >> pronomes só são usados para palavras que designam serem [+humanos],
> >> porque a questão da marcação é uma necessidade dos indivíduos
> >> não-binários. E isso nos leva ao segundo ponto dessa (não tão breve
> >> assim) explicação:
> >>
> >> Por que isso acontece? A Sociolinguística está aí para nos dizer que
> >> esse fenômeno da marcação de gênero é um fenômeno variável socialmente
> >> motivado. Língua é identidade, e se um grupo de indivíduos (um grande
> >> grupo, diga-se de passagem) motivado por razões sociais marcar
> >> linguisticamente sua identidade, essa marcação é tão válida quanto
> >> quaisquer outras manifestações de identidade linguística.
> >>
> >> A gente sabe disso meio que informalmente com determinados dialetos
> >> urbanos que surgem, como, por exemplo, o dialeto pajubá, que tem
> >> origem em algumas palavras de origem das línguas africanas e é usado
> >> por determinados grupos: de religiões afrodescendentes como umbanda e
> >> candomblé e também pela comunidade LGBT. A gente também reconhece
> >> variação linguística dialetal quando identificamos traços
> >> característicos dos subfalares do Norte e dos subfalares do Sul do
> >> Brasil, pra usar os termos de Antenor Nascentes. A gente sabe disso
> >> quando determinados fenômenos linguísticos são característicos de
> >> determinados grupos sociais, como por exemplo a regra variável de
> >> concordância verbal (nós vai / nós vamos) que muda a medida que o
> >> nível de escolaridade dos indivíduos muda.
> >>
> >> (...)
> >>
> >> Tenho visto também as pessoas que são a favor das formas com
> >> pensamentos prescritivistas: "isso é o certo", "todo mundo tem que
> >> falar assim", "essa linguagem é melhor do que todas as outras". Não,
> >> não mesmo. É o certo no sentido de que qualquer variedade linguística
> >> de uma determinada língua é válida. Mas não é fazendo manual
> >> prescritivista que as pessoas vão passar a usar a linguagem neutra.
> >> Então, menos prescrição do ponto de vista de quem defende, e mais
> >> descrição linguística. Aqui, eu fiz uma breve análise morfológica
> >> baseada em Câmara Jr. Mas não sou morfóloga, sou sintaticista, e há
> >> várias outras abordagens sobre gênero gramatical dentro de diferentes
> >> quadro teóricos que podem explicar com muito mais propriedade o que eu
> >> escrevi no início desse texto. Mas eu quis mostrar uma abordagem
> >> dentro de um quadro teórico que dá conta do fenômeno que está aí, em
> >> diversas línguas, não só o Português Brasileiro. Um fenômeno que está
> >> aí independentemente de corrente política. O que me leva ao último
> >> ponto: não sejam reducionistas.
> >>
> >> Tenho visto postagens criticando o uso da linguagem neutra fazendo uma
> >> oposição: "a população está pagando 50 reais o quilo do arroz e a
> >> esquerda quer ensinar pronome neutro". Então, não sejamos
> >> reducionistas assim. Não é porque estamos passando por um momento de
> >> crise econômica que a gente não pode discutir fenômenos linguísticos
> >> relevantes para o estudo da sociedade. Se fosse assim, a gente vai
> >> estudar o quê? A gente vai discutir o quê nas nossas escolas públicas?
> >> Não vamos discutir marxismo nas escolas públicas, porque as crianças
> >> não têm comida. Não vamos ensinar logaritmo de base negativa, porque
> >> nossas crianças passam fome. Não vamos discutir ciclo de Krebs, porque
> >> nossas crianças não têm comida para alimentar suas células. E é isso o
> >> que a gente quer? Não! A gente quer poder discutir dialetos legítimos
> >> socialmente e lutar para que nossa sociedade seja menos desigual.
> >> Ambas as discussões são válidas e uma não se opõe a outra.
> >>
> >> On Sun, 22 Aug 2021 at 13:07, Joao Marcos <botoc...@gmail.com> wrote:
> >>>
> >>> > eu resolvi o problema da "não pronunciabilidade" das terminações em
> >>> > "x" e em "@" de um jeito super simples: eu mostro, ou conto, esses
> >>> > argumentos aqui,
> >>> >
> >>> >   http://angg.twu.net/xs.html
> >>>
> >>> Boa, Eduardo, vou ler!  Você pode adiantar qual a solução que você
> >>> mesmo adota para o problema dos pronomes possessivos em português?
> >>>
> >>> Escrever é fácil, e até trocar o nome de batismo de uma pessoa, na
> >>> prática, é fácil (trocar o gênero do pronome de tratamento, contudo,
> >>> pode ser um desafio maior, se tivermos que vencer um costume anterior
> >>> --- sim, eu convivo com um@ adolescente trans, e tenho sentido isso na
> >>> carne).  Quanto à "pronunciabilidade", de todo modo, eu vou ficar
> >>> satisfeito quando aqueles que propuserem "soluções" mostrarem que
> >>> conseguem _implementá-las_ em seus próprios discursos. :-b
> >>>
> >>> (Estou assumindo que a "neutralização" dos nomes não é bem conseguida
> >>> se não vier acompanhada de uma _boa_ "neutralização" dos pronomes,
> >>> todos os pronomes.  Por este motivo, a minha pergunta sobre os
> >>> pronomes possessivos foi legítima --- e respostas são bem-vindas!)
> >>>
> >>> []s, Joao Marcos
> >>
> >> --
> >> Você recebeu essa mensagem porque está inscrito no grupo "LOGICA-L" dos
> Grupos do Google.
> >> Para cancelar inscrição nesse grupo e parar de receber e-mails dele,
> envie um e-mail para logica-l+unsubscr...@dimap.ufrn.br.
> >> Para ver essa discussão na Web, acesse
> https://groups.google.com/a/dimap.ufrn.br/d/msgid/logica-l/CADs%2B%2B6ihEHmg9_0BtdJYsRr0GMdNHQrvOwEgP2DhMC3bg1TJvw%40mail.gmail.com
> .
>
>
>
> --
> http://sequiturquodlibet.googlepages.com/
>
> --
> Você está recebendo esta mensagem porque se inscreveu no grupo "LOGICA-L"
> dos Grupos do Google.
> Para cancelar inscrição nesse grupo e parar de receber e-mails dele, envie
> um e-mail para logica-l+unsubscr...@dimap.ufrn.br.
> Para ver esta discussão na web, acesse
> https://groups.google.com/a/dimap.ufrn.br/d/msgid/logica-l/CAO6j_LiHLimH6FUXNg-wY%2By4szk08YtuyJ6KuU2tPFqaCCgD0Q%40mail.gmail.com
> .
>

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