Salve, Eduardo:

Bom texto.  Comentários:

(0) Fiquei com a impressão, ao longo do texto todo, que defende-se ali
a marcação do neutro como uma _terceira_ classe de gênero gramatical
(não me pergunte qual é a _primeira_ e qual é a _segunda_), ao invés
de como uma classe mais ampla e inclusiva ("surgem os pronomes e as
desinências de neutro para marcar gramaticalmente uma oposição
biossocial", etc).  Se assim for, diferentemente do que eu imaginava,
no email que deu origem a esta thread, o uso de "seus alunes" teria
que ser trocado por algo como "seus alunos, suas alunas, e s@@s
alunes" --- para colocar cada um na sua caixinha.

(1) Não entendi exatamente o que Cavalcante quis dizer sobre o ensino,
nas escolas, dos logaritmos com base negativa.

(2) Suponho que "Sonnen" deveria ter sido "Sonne".  Um melhor exemplo
talvez seria "der Tod", que contraria as nossas historinhas
infanto-juvenis sobre @ senhor@ com a foice na mão (que não precisaria
em absoluto ser uma criatura sexuada).

(3) Ainda não encontrei a resposta à minha pergunta sobre a versão
brasileira "neutrificada" (vou usar este neologismo específico sem
aspas, de agora em diante, até segunda ordem) dos pronomes possessivos
meu/minha, teu/tua, seu/sua (sei que há uma solução bastante usada
para o caso dos grupos preposicionais dele/dela, que não são
exatamente equivalentes aos ditos possessivos).  Talvez a resposta que
busco esteja na mensagem que você anunciou?

Com relação ao item (0), penso que há algo a ser esclarecido (supondo
que vamos ficar mesmo com apenas estas três caixinhas de agora em
diante).  A marcação é certamente bem-vinda, em muitas situações.  Por
exemplo, a pergunta "Quantas alunas há no curso de Computação da
universidade X?" pode ser interessante de se poder fazer (embora,
obviamente, ela possa em princípio ser feita de outras formas), e o
eventual cálculo d@s "não-alunas" pode ser facilmente feito ao
sabermos o total de discentes do dito curso.  Para saber, contudo, o
total dest@s "não-alunas" que se trata, digamos, de "homens cis", a
pergunta fica mais complicada (e talvez até impossível de responder).
E se houver mais caixinhas, talvez a pergunta se torne ainda mais
complexa, caso a linguagem subjacente às _queries_ não seja muito rica
em discriminações.

Pergunta: "alunes", afinal, inclui também "alunos" e "alunas"?

*Disclaimer*: não estou propondo ---nem defendendo, nem atacando---
uma reforma linguística.  Estou, como lógico de formação, apenas
buscando consistência e avaliando consequências.

[]s, JM


PS: O Sarney, considerando o item (0), teria iniciado seus discursos
com: "brasileiros, brasileiras e brasileires" (estou supondo que estes
indivíduos formam um multiconjunto e não uma sequência).  Realmente
não é isto que eu entendia por neutrificação da língua.  Mas também
não vou ser eu quem vai meter o pau na multivaloração --- nunca me
senti muito à vontade exclusivamente no mundo das lógicas binárias.
;-b

On Sun, Aug 22, 2021 at 1:33 PM Eduardo Ochs <eduardoo...@gmail.com> wrote:
>
> Oi João!
>
> Vou responder em dois e-mails. Deixa eu começar mandando o link de um
> texto sobre isso que virou o favorito da minha coleção...
>
> https://silviacavalcante.blogspot.com/2020/10/diario-de-quarentena-sete-meses-depois.html
>
> e vou mandar também - abaixo - os trechos que eu considero mais
> importantes, porque se eu não fizer isso a chance dos engenheiros
> entenderem vai ser zero, né... =P
>
> Lá vai. [[]], E.
>
>   --snip--snip--
>
> A marcação de gênero nas palavras é arbitrária e variável nas línguas
> e não tem nada a ver com o significado da palavra no mundo biossocial
> (para usar os termos de Câmara Jr.). O que acontece em PB? Acontece
> que algumas palavras estão começando a ser marcadas gramaticalmente
> com gênero neutro para marcar uma não oposição no mundo biossocial: em
> português temos morfemas específicos para marcar feminino, que se opõe
> ao masculino, no mundo biossocial, mas o não binário não tem uma
> marcação gramatical específica. Ou não tinha. Não tinha. Porque agora
> tem: surgem os pronomes e as desinências de neutro para marcar
> gramaticalmente uma oposição biossocial. E aí eu estou usando a
> palavra oposição propositadamente: mesmo que a intenção dos indivíduos
> não-binários que sentiram a necessidade de serem referidos como "elu"
> e com a desinência -e, gramaticalmente agora elus se opõem ao
> masculino e ao feminino. Então, para substantivos (e aí os adjetivos
> por concordância) que tenham o traço [+humano] temos a oposição
> masculino / feminino / neutro: aluno / aluna / alune; ele / ela/ elu;
> dele / dela / delu; cansado / cansada / cansade. (OBS: Reparem que não
> estou marcando o -o das palavras masculinas, porque não é morfema de
> gênero, e, sim vogal temática.)
>
> (...)
>
> E se a gente fizer uma busca na internet, verá que várias línguas
> estão usando formas gramaticais de marcar a linguagem neutra, ou a
> linguagem inclusiva de gênero. Vocês podem procurar por "gender
> inclusive language" e vão achar vários artigos falando em como é esse
> uso em diversas línguas. Eu, particularmente, fiquei feliz quando vi
> que é uma tendência linguística de amplo espectro. Então,
> morfologicamente, não há problema algum em linguagem neutra. Há
> problema quando a gente não sabe fazer análise morfológica e confunde
> gênero gramatical com gênero no mundo biossocial. E os morfemas e
> pronomes só são usados para palavras que designam serem [+humanos],
> porque a questão da marcação é uma necessidade dos indivíduos
> não-binários. E isso nos leva ao segundo ponto dessa (não tão breve
> assim) explicação:
>
> Por que isso acontece? A Sociolinguística está aí para nos dizer que
> esse fenômeno da marcação de gênero é um fenômeno variável socialmente
> motivado. Língua é identidade, e se um grupo de indivíduos (um grande
> grupo, diga-se de passagem) motivado por razões sociais marcar
> linguisticamente sua identidade, essa marcação é tão válida quanto
> quaisquer outras manifestações de identidade linguística.
>
> A gente sabe disso meio que informalmente com determinados dialetos
> urbanos que surgem, como, por exemplo, o dialeto pajubá, que tem
> origem em algumas palavras de origem das línguas africanas e é usado
> por determinados grupos: de religiões afrodescendentes como umbanda e
> candomblé e também pela comunidade LGBT. A gente também reconhece
> variação linguística dialetal quando identificamos traços
> característicos dos subfalares do Norte e dos subfalares do Sul do
> Brasil, pra usar os termos de Antenor Nascentes. A gente sabe disso
> quando determinados fenômenos linguísticos são característicos de
> determinados grupos sociais, como por exemplo a regra variável de
> concordância verbal (nós vai / nós vamos) que muda a medida que o
> nível de escolaridade dos indivíduos muda.
>
> (...)
>
> Tenho visto também as pessoas que são a favor das formas com
> pensamentos prescritivistas: "isso é o certo", "todo mundo tem que
> falar assim", "essa linguagem é melhor do que todas as outras". Não,
> não mesmo. É o certo no sentido de que qualquer variedade linguística
> de uma determinada língua é válida. Mas não é fazendo manual
> prescritivista que as pessoas vão passar a usar a linguagem neutra.
> Então, menos prescrição do ponto de vista de quem defende, e mais
> descrição linguística. Aqui, eu fiz uma breve análise morfológica
> baseada em Câmara Jr. Mas não sou morfóloga, sou sintaticista, e há
> várias outras abordagens sobre gênero gramatical dentro de diferentes
> quadro teóricos que podem explicar com muito mais propriedade o que eu
> escrevi no início desse texto. Mas eu quis mostrar uma abordagem
> dentro de um quadro teórico que dá conta do fenômeno que está aí, em
> diversas línguas, não só o Português Brasileiro. Um fenômeno que está
> aí independentemente de corrente política. O que me leva ao último
> ponto: não sejam reducionistas.
>
> Tenho visto postagens criticando o uso da linguagem neutra fazendo uma
> oposição: "a população está pagando 50 reais o quilo do arroz e a
> esquerda quer ensinar pronome neutro". Então, não sejamos
> reducionistas assim. Não é porque estamos passando por um momento de
> crise econômica que a gente não pode discutir fenômenos linguísticos
> relevantes para o estudo da sociedade. Se fosse assim, a gente vai
> estudar o quê? A gente vai discutir o quê nas nossas escolas públicas?
> Não vamos discutir marxismo nas escolas públicas, porque as crianças
> não têm comida. Não vamos ensinar logaritmo de base negativa, porque
> nossas crianças passam fome. Não vamos discutir ciclo de Krebs, porque
> nossas crianças não têm comida para alimentar suas células. E é isso o
> que a gente quer? Não! A gente quer poder discutir dialetos legítimos
> socialmente e lutar para que nossa sociedade seja menos desigual.
> Ambas as discussões são válidas e uma não se opõe a outra.
>
> On Sun, 22 Aug 2021 at 13:07, Joao Marcos <botoc...@gmail.com> wrote:
>>
>> > eu resolvi o problema da "não pronunciabilidade" das terminações em
>> > "x" e em "@" de um jeito super simples: eu mostro, ou conto, esses
>> > argumentos aqui,
>> >
>> >   http://angg.twu.net/xs.html
>>
>> Boa, Eduardo, vou ler!  Você pode adiantar qual a solução que você
>> mesmo adota para o problema dos pronomes possessivos em português?
>>
>> Escrever é fácil, e até trocar o nome de batismo de uma pessoa, na
>> prática, é fácil (trocar o gênero do pronome de tratamento, contudo,
>> pode ser um desafio maior, se tivermos que vencer um costume anterior
>> --- sim, eu convivo com um@ adolescente trans, e tenho sentido isso na
>> carne).  Quanto à "pronunciabilidade", de todo modo, eu vou ficar
>> satisfeito quando aqueles que propuserem "soluções" mostrarem que
>> conseguem _implementá-las_ em seus próprios discursos. :-b
>>
>> (Estou assumindo que a "neutralização" dos nomes não é bem conseguida
>> se não vier acompanhada de uma _boa_ "neutralização" dos pronomes,
>> todos os pronomes.  Por este motivo, a minha pergunta sobre os
>> pronomes possessivos foi legítima --- e respostas são bem-vindas!)
>>
>> []s, Joao Marcos



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