Oi João, de novo! (E-mail 2). Então, eu fiquei super anti-social com a pandemia e ando conversando com pouquíssima gente, mesmo por chat, e dentre essas poucas pessoas com as quais eu converso só tem duas que usam linguagem neutra e terminações "estranhas" com frequência... uma delas é formada em Linguística e a outra em Antropologia, e nas conversas com elas a gente costuma usar as terminações estranhas de jeitos improvisados cujas "regras" mudam com frequência, e é comum uma pessoa perguntar pra outra porque é que ela decidiu usar determinada construção linguística - ou seja, qual era a "rationale" por trás daquele uso naquele momento... e em geral as explicações são ótimas.
Nós temos usado "elas" pra nos referirmos a grupo de mulheres, "eles" pra grupos que têm homens e que podem ou não ter mulheres, e "elxs" pra pra grupos que têm pessoas trans e que podem ou não ter pessoas cis também - ou seja, a gente trata as pessoas trans como muito mais importantes do que as pessoas cis... =P ...ou seja, a gente usa isso como uma "linguagem de grupo" mesmo, sem a menor intenção de que isso percole pra norma culta, mas com a intenção de estabelecer um registro no qual a gente consiga escrever, e que pessoas que sejam só mais ou menos da turminha consigam reconhecer quando a gente mudou do registro padrão pra ele, e entendam as conotações dessa mudança... Outra coisa que a gente tem usado bastante é o "masculino derrogatório". Por exemplo, pra gente o termo "motorista" indica alguém cujo gênero não importa, mas "motoristO" indica alguém arrogante e grosseiro que fica o tempo todo sendo estúpido, provocando os outros e botando a culpa nos outros. Isso se originou daquelas discussões infindáveis sobre se a Dilma era "presidente" ou "presidenta", e, bom, it goes without saying que a gente chama o Bolsonaro de "presidentO" e não de "presidentE", né... [[]], Eduardo P.S.: ei, como você traduz "rationale" pra português? On Sun, 22 Aug 2021 at 15:07, Joao Marcos <botoc...@gmail.com> wrote: > Salve, Eduardo: > > Bom texto. Comentários: > > (0) Fiquei com a impressão, ao longo do texto todo, que defende-se ali > a marcação do neutro como uma _terceira_ classe de gênero gramatical > (não me pergunte qual é a _primeira_ e qual é a _segunda_), ao invés > de como uma classe mais ampla e inclusiva ("surgem os pronomes e as > desinências de neutro para marcar gramaticalmente uma oposição > biossocial", etc). Se assim for, diferentemente do que eu imaginava, > no email que deu origem a esta thread, o uso de "seus alunes" teria > que ser trocado por algo como "seus alunos, suas alunas, e s@@s > alunes" --- para colocar cada um na sua caixinha. > > (1) Não entendi exatamente o que Cavalcante quis dizer sobre o ensino, > nas escolas, dos logaritmos com base negativa. > > (2) Suponho que "Sonnen" deveria ter sido "Sonne". Um melhor exemplo > talvez seria "der Tod", que contraria as nossas historinhas > infanto-juvenis sobre @ senhor@ com a foice na mão (que não precisaria > em absoluto ser uma criatura sexuada). > > (3) Ainda não encontrei a resposta à minha pergunta sobre a versão > brasileira "neutrificada" (vou usar este neologismo específico sem > aspas, de agora em diante, até segunda ordem) dos pronomes possessivos > meu/minha, teu/tua, seu/sua (sei que há uma solução bastante usada > para o caso dos grupos preposicionais dele/dela, que não são > exatamente equivalentes aos ditos possessivos). Talvez a resposta que > busco esteja na mensagem que você anunciou? > > Com relação ao item (0), penso que há algo a ser esclarecido (supondo > que vamos ficar mesmo com apenas estas três caixinhas de agora em > diante). A marcação é certamente bem-vinda, em muitas situações. Por > exemplo, a pergunta "Quantas alunas há no curso de Computação da > universidade X?" pode ser interessante de se poder fazer (embora, > obviamente, ela possa em princípio ser feita de outras formas), e o > eventual cálculo d@s "não-alunas" pode ser facilmente feito ao > sabermos o total de discentes do dito curso. Para saber, contudo, o > total dest@s "não-alunas" que se trata, digamos, de "homens cis", a > pergunta fica mais complicada (e talvez até impossível de responder). > E se houver mais caixinhas, talvez a pergunta se torne ainda mais > complexa, caso a linguagem subjacente às _queries_ não seja muito rica > em discriminações. > > Pergunta: "alunes", afinal, inclui também "alunos" e "alunas"? > > *Disclaimer*: não estou propondo ---nem defendendo, nem atacando--- > uma reforma linguística. Estou, como lógico de formação, apenas > buscando consistência e avaliando consequências. > > []s, JM > > > PS: O Sarney, considerando o item (0), teria iniciado seus discursos > com: "brasileiros, brasileiras e brasileires" (estou supondo que estes > indivíduos formam um multiconjunto e não uma sequência). Realmente > não é isto que eu entendia por neutrificação da língua. Mas também > não vou ser eu quem vai meter o pau na multivaloração --- nunca me > senti muito à vontade exclusivamente no mundo das lógicas binárias. > ;-b > > On Sun, Aug 22, 2021 at 1:33 PM Eduardo Ochs <eduardoo...@gmail.com> > wrote: > > > > Oi João! > > > > Vou responder em dois e-mails. Deixa eu começar mandando o link de um > > texto sobre isso que virou o favorito da minha coleção... > > > > > https://silviacavalcante.blogspot.com/2020/10/diario-de-quarentena-sete-meses-depois.html > > > > e vou mandar também - abaixo - os trechos que eu considero mais > > importantes, porque se eu não fizer isso a chance dos engenheiros > > entenderem vai ser zero, né... =P > > > > Lá vai. [[]], E. > > > > --snip--snip-- > > > > A marcação de gênero nas palavras é arbitrária e variável nas línguas > > e não tem nada a ver com o significado da palavra no mundo biossocial > > (para usar os termos de Câmara Jr.). O que acontece em PB? Acontece > > que algumas palavras estão começando a ser marcadas gramaticalmente > > com gênero neutro para marcar uma não oposição no mundo biossocial: em > > português temos morfemas específicos para marcar feminino, que se opõe > > ao masculino, no mundo biossocial, mas o não binário não tem uma > > marcação gramatical específica. Ou não tinha. Não tinha. Porque agora > > tem: surgem os pronomes e as desinências de neutro para marcar > > gramaticalmente uma oposição biossocial. E aí eu estou usando a > > palavra oposição propositadamente: mesmo que a intenção dos indivíduos > > não-binários que sentiram a necessidade de serem referidos como "elu" > > e com a desinência -e, gramaticalmente agora elus se opõem ao > > masculino e ao feminino. Então, para substantivos (e aí os adjetivos > > por concordância) que tenham o traço [+humano] temos a oposição > > masculino / feminino / neutro: aluno / aluna / alune; ele / ela/ elu; > > dele / dela / delu; cansado / cansada / cansade. (OBS: Reparem que não > > estou marcando o -o das palavras masculinas, porque não é morfema de > > gênero, e, sim vogal temática.) > > > > (...) > > > > E se a gente fizer uma busca na internet, verá que várias línguas > > estão usando formas gramaticais de marcar a linguagem neutra, ou a > > linguagem inclusiva de gênero. Vocês podem procurar por "gender > > inclusive language" e vão achar vários artigos falando em como é esse > > uso em diversas línguas. Eu, particularmente, fiquei feliz quando vi > > que é uma tendência linguística de amplo espectro. Então, > > morfologicamente, não há problema algum em linguagem neutra. Há > > problema quando a gente não sabe fazer análise morfológica e confunde > > gênero gramatical com gênero no mundo biossocial. E os morfemas e > > pronomes só são usados para palavras que designam serem [+humanos], > > porque a questão da marcação é uma necessidade dos indivíduos > > não-binários. E isso nos leva ao segundo ponto dessa (não tão breve > > assim) explicação: > > > > Por que isso acontece? A Sociolinguística está aí para nos dizer que > > esse fenômeno da marcação de gênero é um fenômeno variável socialmente > > motivado. Língua é identidade, e se um grupo de indivíduos (um grande > > grupo, diga-se de passagem) motivado por razões sociais marcar > > linguisticamente sua identidade, essa marcação é tão válida quanto > > quaisquer outras manifestações de identidade linguística. > > > > A gente sabe disso meio que informalmente com determinados dialetos > > urbanos que surgem, como, por exemplo, o dialeto pajubá, que tem > > origem em algumas palavras de origem das línguas africanas e é usado > > por determinados grupos: de religiões afrodescendentes como umbanda e > > candomblé e também pela comunidade LGBT. A gente também reconhece > > variação linguística dialetal quando identificamos traços > > característicos dos subfalares do Norte e dos subfalares do Sul do > > Brasil, pra usar os termos de Antenor Nascentes. A gente sabe disso > > quando determinados fenômenos linguísticos são característicos de > > determinados grupos sociais, como por exemplo a regra variável de > > concordância verbal (nós vai / nós vamos) que muda a medida que o > > nível de escolaridade dos indivíduos muda. > > > > (...) > > > > Tenho visto também as pessoas que são a favor das formas com > > pensamentos prescritivistas: "isso é o certo", "todo mundo tem que > > falar assim", "essa linguagem é melhor do que todas as outras". Não, > > não mesmo. É o certo no sentido de que qualquer variedade linguística > > de uma determinada língua é válida. Mas não é fazendo manual > > prescritivista que as pessoas vão passar a usar a linguagem neutra. > > Então, menos prescrição do ponto de vista de quem defende, e mais > > descrição linguística. Aqui, eu fiz uma breve análise morfológica > > baseada em Câmara Jr. Mas não sou morfóloga, sou sintaticista, e há > > várias outras abordagens sobre gênero gramatical dentro de diferentes > > quadro teóricos que podem explicar com muito mais propriedade o que eu > > escrevi no início desse texto. Mas eu quis mostrar uma abordagem > > dentro de um quadro teórico que dá conta do fenômeno que está aí, em > > diversas línguas, não só o Português Brasileiro. Um fenômeno que está > > aí independentemente de corrente política. O que me leva ao último > > ponto: não sejam reducionistas. > > > > Tenho visto postagens criticando o uso da linguagem neutra fazendo uma > > oposição: "a população está pagando 50 reais o quilo do arroz e a > > esquerda quer ensinar pronome neutro". Então, não sejamos > > reducionistas assim. Não é porque estamos passando por um momento de > > crise econômica que a gente não pode discutir fenômenos linguísticos > > relevantes para o estudo da sociedade. Se fosse assim, a gente vai > > estudar o quê? A gente vai discutir o quê nas nossas escolas públicas? > > Não vamos discutir marxismo nas escolas públicas, porque as crianças > > não têm comida. Não vamos ensinar logaritmo de base negativa, porque > > nossas crianças passam fome. Não vamos discutir ciclo de Krebs, porque > > nossas crianças não têm comida para alimentar suas células. E é isso o > > que a gente quer? Não! A gente quer poder discutir dialetos legítimos > > socialmente e lutar para que nossa sociedade seja menos desigual. > > Ambas as discussões são válidas e uma não se opõe a outra. > > > > On Sun, 22 Aug 2021 at 13:07, Joao Marcos <botoc...@gmail.com> wrote: > >> > >> > eu resolvi o problema da "não pronunciabilidade" das terminações em > >> > "x" e em "@" de um jeito super simples: eu mostro, ou conto, esses > >> > argumentos aqui, > >> > > >> > http://angg.twu.net/xs.html > >> > >> Boa, Eduardo, vou ler! Você pode adiantar qual a solução que você > >> mesmo adota para o problema dos pronomes possessivos em português? > >> > >> Escrever é fácil, e até trocar o nome de batismo de uma pessoa, na > >> prática, é fácil (trocar o gênero do pronome de tratamento, contudo, > >> pode ser um desafio maior, se tivermos que vencer um costume anterior > >> --- sim, eu convivo com um@ adolescente trans, e tenho sentido isso na > >> carne). Quanto à "pronunciabilidade", de todo modo, eu vou ficar > >> satisfeito quando aqueles que propuserem "soluções" mostrarem que > >> conseguem _implementá-las_ em seus próprios discursos. :-b > >> > >> (Estou assumindo que a "neutralização" dos nomes não é bem conseguida > >> se não vier acompanhada de uma _boa_ "neutralização" dos pronomes, > >> todos os pronomes. Por este motivo, a minha pergunta sobre os > >> pronomes possessivos foi legítima --- e respostas são bem-vindas!) > >> > >> []s, Joao Marcos > > > > -- > http://sequiturquodlibet.googlepages.com/ > -- Você está recebendo esta mensagem porque se inscreveu no grupo "LOGICA-L" dos Grupos do Google. Para cancelar inscrição nesse grupo e parar de receber e-mails dele, envie um e-mail para logica-l+unsubscr...@dimap.ufrn.br. Para ver esta discussão na web, acesse https://groups.google.com/a/dimap.ufrn.br/d/msgid/logica-l/CADs%2B%2B6gPEHgGiJJ2JUUx04MYQFoOiPtJxLvL_BYswgg6ev7-5g%40mail.gmail.com.