Caro Rodrigo
Há certas afirmações factualmente falsas que são de evitar. Eis algumas: Grosso modo a questão central da filosofia é: qual o sentido da vida? Ou ainda: Como atingir a vida feliz? Não se trata de aderir a um credo e pronto, trata-se de alcançar a vida boa, exige esforço e empenho e a razão é o principal instrumento. Esse projeto perpassa a história da filosofia. Sócrates mesmo vai dizer que a filosofia nos prepara para a morte. A filosofia de Epicuro e dos estóicos retratam bem isso. Montaigne diz "filosofar é aprender a morrer". Uma das perguntas centrais da filosofia para Kant é "O que nos é permitido esperar?" O que estás a fazer é supressão de provas. Apontas vários exemplos favoráveis à tua generalização, mas escondes tudo o que refuta a generalização. A maior parte das obras da maior parte dos filósofos não trata do problema do sentido da vida. Há muitíssimos mais capítulos e livros inteiros sobre outras temas, como a natureza da verdade ou a possibilidade do conhecimento, a natureza das propriedades. Por que razão chamo a atenção para isto? Porque nenhuma discussão séria sobre estes temas pode ter lugar se partirmos logo de falsidades históricas. Podemos e devemos ter opiniões divergentes sobre se o sentido da vida devia ou não ser a questão central da filosofia, grosso modo. Mas não devemos basear as nossas divergências em puras falsidades históricas. Hume nunca escreveu sobre o sentido da vida, Tomás de Aquino tem pequenas passagens apenas em que fala disso, Schopenhauer escreveu muito mais sobre a natureza da representação e da realidade do que sobre o sentido da vida. Na verdade, a grande ironia quanto a pessoas como o Arthur, que dizem ter muito interesse em temas como o sentido da vida, é o puro desconhecimento da bibliografia recente sobre o tema. Isto acontece porque essa bibliografia não dá ao Arthur o tipo de música das palavras que ele busca, uma música que lhe dê conforto espiritual. Tudo o que se encontra nessa bibliografia (Wiggins, Nozick, Nagel, Levy, Baier, Metz, Taylor e tantos outros, incluindo eu próprio) é a discussão de ideias, e não paliativos infantis para as dores de alma. A filosofia não é religião e por isso não tem qualquer tipo de interesse para quem procura conforto espiritual. Espero ter desestabilizado mais uma vez os amigos e colegas da lista. É o meu jeito idiota de ser. Mas não gosto de opiniões baseadas em desconhecimento das coisas, nem de hipocrisia: pessoas que querem realmente uma coisa mas são incapazes de declarar abertamente o que realmente querem. Eu não vejo problema algum em querer conforto espiritual, querer uma coisa qualquer mística, para-religiosa, etc. Mas chamar-lhe filosofia é uma falsidade histórica, pura e simplesmente. Abraços, Desidério
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