Caros,

> 2)    Não penso que seja inimportante tratar desse tema.

Creio que você quis dizer "desimportante".



> Mas eis coisas que são historicamente falsas:
> 4)    Todos os filósofos trataram do problema da salvação ou do sentido da
> vida.
> 5)    A maior parte dos filósofos trataram desse tema.

E se qualificássemos "todos os filósofos" desta forma: "Todos os
filósofos historicamente mais importantes trataram do problema da
salvação ou do sentido da vida"? Ocorrem-me agora estes: Parmênides e
Heráclito; Sócrates, Platão e Aristóteles; Sêneca; Plotino; Agostinho;
Santo Anselmo; Tomás; Ockham; Bacon; Descartes; Hume; Rousseau; Kant;
Hegel; Kierkegaard; Marx; Nietzsche; Frege; Husserl; Wittgenstein;
Russell; Heidegger; Popper. A questão seria então: qual desses
filósofos não tratou, com destaque, do problema da salvação e/ou do
sendito da vida? A resposta salta aos olhos: quase nenhum.



> E eis proposições filosoficamente indefensáveis:
> 6)    Sócrates, Montaigne e mais não sei quantos filósofos disseram que
> filosofar é aprender a morrer; logo, filosofar é aprender a morrer.

De fato, a conclusão não se segue. Mas se segue que filosofar, segundo
Sócrates e Montaigne, é aprender a morrer. O que não é pouca coisa,
sobretudo para quem, p.ex., pretende filosofas segundo o "projeto
socrático".



> 7)    O problema da salvação é importante porque todos temos medo de morrer.

Qual é o problema aí, todos termos medo da morte ou a importância do
problema soteriológico conseqüente?



> 7 é particularmente curiosa, pois envolve também uma falsidade histórica. É
> que muitos filósofos, tanto antigos como modernos, defenderam a
> irracionalidade e irrelevância do nosso medo de morrer; logo, não poderiam
> defender que o problema da salvação é importante porque todos temos medo de
> morrer.

Aqui você acaba dando razão ao partido adversário, pois a defesa da
irracionalidade e irrelevância do medo da morte feita por filósofos,
p.ex., pelos estóicos, demonstra evidentemente a sua preocupação com a
salvação: salvação do medo da morte.



> Tudo o que eu te quis dizer, Rodrigo, é que mesmo que o problema do sentido
> da vida seja importante, não é historicamente o mais estudado pelos
> filósofos. Compreendo que te interesses pelo tema e é até possível que
> queiras defender que esse é o mais importante problema da filosofia.
> Mas não
> conseguirás defender adequadamente tal ideia baseando-te 1) em falsidades
> históricas ou 2) em maus argumentos de autoridade (um argumento de
> autoridade é mau quando escolhemos cuidadosamente as autoridades que
> concordam com o nosso ponto de vista e ignoramos todas as outras).

E você não vai conseguir defender adequadamente o contrário pelos
mesmos motivos. Você está considerando a totalidade dos filósofos
--como se alguém pudesse conhecer o pensamento de todos os
filósofos!--, inclusive os historicamente menos influentes, e está
apelando para a autoridade da maioria, como se a filosofia fosse um
empreendimento democrático.

Na minha opinião, vocês estão discutindo à toa, pois está claro que
cada um defende uma concepção de filosofia própria, incomensurável à
do outro. O que é absolutamente normal. Resta tirarem-se as
conseqüências: o que é filosofia para um, não o é para o outro.
Simples.

Abraço,
Edson Gil



-- 
Edson Dognaldo Gil
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