A religião tem solução - mas não é, necessariamente, a correta... 2008/9/25 Rodrigo Oliveira <[EMAIL PROTECTED]>
> Olá Desidério, > > Parece-me que tem uma perspectiva muito redutora da filosofia. Pior: > historicamente falsa e enganadora. A maior parte das obras dos filósofos > nada têm a ver com a salvação, seja qual for o sentido rebuscado que se dê a > este termo. A ética nem sempre tem a ver com a salvação. A procura da vida > boa não é necessariamente uma procura de salvação e a muitos filósofos não > escreveram sobre a ética. > > Estou usando o termo salvação justamente nesse sentido de vida boa ou vida > autêntica ou sentido para a vida (estou usando um sentido amplo e vago). A > religião tem uma solução para os porblemas relacionados a finitude humana e > nossa consciência disso, nosso medo. Em todas as religiões há uma solução > para o problema da morte e o meio de se chegar a salvação é pela fé. Na > filosofia há também uma busca de solução para o mesmo problema, mas não pela > fé e sim pela razão. A filosofia está historicamente relacionada com essa > questão, isso eu defendo. > > Mas não se trata de colocar o problema: qual o sentido da vida? E procurar > respondê-lo diretamente, há muita coisa a se fazer antes disso. Conselhos de > vida e máximas soltas é coisa de auto-ajuda. Os direcionamentos dos > filósofos estão alicerçados em suas teorias sobre a realidade, em suas > idéias sobre o homem, sobre o que pensam poder conhecer com segurança. São > coerentes com sua visão de mundo. Emanam dessa visão. > > A tua hipótese histórica parece-me insustentável por ser arbitrária. Com > igual arbitrariedade eu posso ler toda a história da filosofia dizendo que, > de algum modo, os problemas da metafísica da modalidade, que por acaso é a > área em que eu trabalho, estão sempre presentes nas preocupações dos > filósofos, mesmo daqueles que nunca escreveram uma linha explicitamente > sobre tal coisa. > > Já te citei algumas indicações, considero que elas ao menos deviam nos > fazer pensar sobre o assunto. Sua rejeição é que me parece arbitrária já que > você não dá nenhuma interpretação alternativa para meus exemplos. Montaigne > diz: filosofar é aprender a morrer. Sócrates diz que a filosofia nos ensina > a morrer. Kant diz que umas das questões centrais é: o que podemos esperar? > (ou ainda O que devo fazer?) Espinosa diz: o sábio morre menos que o tolo. > Como você interpreta isso? Esses autores não me parecem ser do tipo que > escrevem coisas de passagem, não importantes, que poderiam ser ignoradas em > uma interpretação, ainda mais quando definem a coisa à qual dedicaram suas > vidas. > > Será possível reinterpretar toda a história da filosofia dessa perspectiva? > Sim. É possível também interpretar toda a história da filosofia como uma > tentativa de oprimir os pobres. É possível interpretar as coisas como > quisermos. A possibilidade não basta. É preciso a plausibilidade e é preciso > procurar activamente contra-exemplos, caso contrário cometemos a falácia da > supressão de provas. Se ignorares todos os textos de todos os filósofos que > não tratam da questão da salvação e deres proeminência aos outros, claro que > parece que provas algo, mas isso é só porque suprimiste provas. > > Não tenho interesse o bastante nessa idéia para me lançar a essa pesquisa > exaustiva. Vejo essa idéia presente em grandes filósofos e correntes de > pensamento na história da filosofia, isso me basta: Epicurismo, Cinismo, > Estoicismo, Pirronismo, Humanismo e Existencialismo mostram bem essa idéia. > > Se a questão da salvação fosse assim tão central na filosofia, por que > razão não escreveriam os filósofos sobre tal coisa mais vezes e mais > explicitamente? > > Porque não é a única tarefa da filosofia, porque há todo um trabalho a ser > feito antes, porque ela coroa os sistemas ou as filosofias e porque alguns > não a consideram uma tarefa da filosofia ou não acreditavam haver meios > rigorosos o bastante para falar disso. Wittgenstein não escreveu nada sobre > o assunto e essa idéia está presente de modo forte em seu pensamento. > > Além de historicamente insustentável, a tua posição é filosoficamente > implausível. Não há qualquer razão para pensar que o problema da salvação é > um problema filosófico, para começar. É um problema psicológico e pessoal. > Mas mesmo formulando o problema de uma maneira qualquer de modo a dar-lhe > interesse filosófico, por que razão havemos de pensar que é um problema > central da filosofia? Mesmo que psicologicamente muitas pessoas se preocupem > muito com isso, daí não se segue que o problema tenha centralidade > filosófica. Todos os filósofos se preocuparam com ter comida para comer, mas > nem por isso a comida tem centralidade filosófica. > Seu julgamento é apressado. Parece agir mais ideologicamente do que > comentar meu texto. Não estou certo de que tenha entendido o que estou a > dizer. Não estou dizendo que a filosofia é religião, não estou dizendo que > se trata de salvar nossa alma ou espírito pra uma vida futura e nem nada > assim. As idéias filosóficas sobre a salvação não são únicas também, para um > pirrônico o ceticismo é que levaria a uma suspensão do juízo e essa > suspensão do juízo a ataraxia, a impertubabilidade da alma. Epicuro diz que > é o desapego e seus remédios contra os medos e etc. Você disse que minha > visão é redutora, hora nenhuma eu quis reduzir a filosofia a isso. Eu é que > te acusei de reducionismo porque você parece ignorar essas correntes (estou > achando que você é um analítico militante ou coisa assim). > > Isso entre outras coisas como, por exemplo, o fato de muitas pessoas terem > essa idéia sobre a filosofia (esse pré-conceito surgiu de algum modo, não > caiu de para-quedas na história) me faz crer que a filosofia está sim > vinculada a busca de uma salvação, a responder a algo como: estou aí jogado > no mundo, que vou fazer da minha vida? Sem jamais reduzi-la a isso. > > Um abraço > > Rodrigo > > > > *From:* Rodrigo Oliveira [mailto:[EMAIL PROTECTED] > *Sent:* sexta-feira, 19 de Setembro de 2008 18:09 > *To:* Desidério Murcho > *Subject:* RE: [Logica-l] RES: falhas graves da "filosofia" acadêmica > ocidental > > > > > Caro Desidério, > > "*O que estás a fazer é supressão de provas. Apontas vários exemplos > favoráveis à tua generalização, mas escondes tudo o que refuta a > generalização. A maior parte das obras da maior parte dos filósofos não > trata do problema do sentido da vida. Há muitíssimos mais capítulos e livros > inteiros sobre outras temas, como a natureza da verdade ou a possibilidade > do conhecimento, a natureza das propriedades*." > > Sua observação é pertinente. Sem dúvida é um dos pontos que devem ser > melhor desenvolvidos. Estou tentando esclarecer melhor um ponto de vista > sobre a filosofia, amplamente difundido, que muitos filósofos contestam ou > odeiam. Eu mesmo odeio muito do que se escreve nesse sentido. Mas defendo > sim que esse projeto de salvação está presente senão como tema central ao > menos como pano de fundo no trajeto da história da filosofia. > > Entrei na discussão porque mesmo sendo contra as teses apresentadas pelo > Arthur, ao apresentarem o que ele acredita, muitos, inclusive você, > resumiram o pensamento dele a uma caricatura simples e ingênua, alias coisa > que muitos ao comentarem alguém ou um filósofo ou um sistema fazem. Tal como > apresentaram o pensamento dele nem mesmo uma pessoa ingênua acreditaria. Um > conselho popperiano: melhorar as teses e os argumentos adversários para só > então criticá-los. No fundo quis apenas moderar. > > A palavra salvação pode causar revolta mesmo. O que quero dizer com > salvação é o lado de construção pessoal que a filosofia sempre teve > associado ao seu nome. Abordado sobretudo na parte da ética. Filosofia não é > religião, concordo. Mas ela surgiu tomando como objeto para reflexão temas > pertencentes a religião. Tudo bem que podemos ser objetivos e entender a > ética como uma reflexão sobre os conceitos éticos e trabalhar problemas como > a universalização da moral e a justificação de enunciados éticos ou ainda a > possibilidade dos mesmos. Mas Desidério, você recomendaria o que acabei de > dizer como uma chave de leitura para um estudante de filosofia? Diria para > ele ler a ética de Platão assim? Ler os estóicos assim? Sem dúvida essas > questões estão presentes e podemos analisar esses filósofos assim, mas ao > menos na filosofia antiga é inegável que não se tratava apenas de uma > discussão conceitual. Não era esse o interesse principal desses filósofos. > Seria analisá-los de uma perspectiva puramente analítica e creio que perder > o cerne de suas filosofias morais. Contemporaneamente isso é possível em > muitos casos. > > Que mostrei exemplos favoráveis a tese que apresentei, não a que defendo, > sem dúvida eu o fiz. Não vejo outro modo de argumentar a favor dessa idéia > de forma sucinta. Um modo mais adequado talvez fosse desenvolver a idéia > central de que a filosofia surge da constatação da finitude do homem e de > sua consciência disso e então olhar para a história da filosofia nessa > perspectiva. Sem dúvida significa entortá-la. Assim como a visão analítica > também a entorta. Mas acho que agindo analiticamente e tendo como pano de > fundo essa questão da salvação, esse lado existencial, temos uma chave de > leitura melhor, mais abrangente. A história da filosofia pura obviamente não > temos acesso. > > *"H**ume nunca escreveu sobre o sentido da vida, Tomás de Aquino tem > pequenas passagens apenas em que fala disso, Schopenhauer escreveu muito > mais sobre a natureza da representação e da realidade do que sobre o sentido > da vida." * > > Tómas de Aquino defende o cristianismo como a salvação do mesmo modo que > indiretamente Descartes e Kant. Onde culminam as teses de Schopenhauer? Numa > ética do santo. Eu consigo extrair de Hume muitas diretrizes do que seria > uma vida boa. > Em Schopenhauer essa idéia é bem presente, em Hume e Kant menos, mas ainda > a vejo presente. > > Os livros de filosofia dedicam mais capítulos a outras questões do que ao > sentido da vida. Verdade. Mas após desenvolverem suas ontologias e > epistemologias para onde se dirigem os filósofos? Ética. Ao ler os filósofos > tenho sempre a impressão de que a ética coroa seus sistemas. > Note que quem assume essa questão da salvação ou de uma construção interior > não precisa excluir as outras áreas da filosofia, nem considerá-las menos > importantes. > > A salvação está presente de um modo muito forte em Wittgenstein. Ler sua > obra apenas de uma perspectiva analítica seria eliminar o que o motivava a > fazer filosofia. Nesse sentido não acha que a questão de um projeto de > construção pessoal ou de formação acompanha a filosofia? Sem resumi-la a > isso. > > Gostaria muito de ouvir seus comentários. É um prazer pra mim dialogar com > você. > > Abraço > > Rodrigo > > > ------------------------------ > > From: [EMAIL PROTECTED] > To: [email protected] > Date: Fri, 19 Sep 2008 11:14:04 -0300 > Subject: Re: [Logica-l] RES: falhas graves da "filosofia" acadêmica > ocidental > > Caro Rodrigo > > > > Há certas afirmações factualmente falsas que são de evitar. Eis algumas: > > > > "Grosso modo a questão central da filosofia é: qual o sentido da vida? Ou > ainda: Como atingir a vida feliz? Não se trata de aderir a um credo e > pronto, trata-se de alcançar a vida boa, exige esforço e empenho e a razão é > o principal instrumento. Esse projeto perpassa a história da filosofia. > Sócrates mesmo vai dizer que a filosofia nos prepara para a morte. A > filosofia de Epicuro e dos estóicos retratam bem isso. Montaigne diz > "filosofar é aprender a morrer". Uma das perguntas centrais da filosofia > para Kant é "O que nos é permitido esperar?"" > > > > O que estás a fazer é supressão de provas. Apontas vários exemplos > favoráveis à tua generalização, mas escondes tudo o que refuta a > generalização. A maior parte das obras da maior parte dos filósofos não > trata do problema do sentido da vida. Há muitíssimos mais capítulos e livros > inteiros sobre outras temas, como a natureza da verdade ou a possibilidade > do conhecimento, a natureza das propriedades. > > > > Por que razão chamo a atenção para isto? Porque nenhuma discussão séria > sobre estes temas pode ter lugar se partirmos logo de falsidades históricas. > Podemos e devemos ter opiniões divergentes sobre se o sentido da vida devia > ou não ser a questão central da filosofia, grosso modo. Mas não devemos > basear as nossas divergências em puras falsidades históricas. Hume nunca > escreveu sobre o sentido da vida, Tomás de Aquino tem pequenas passagens > apenas em que fala disso, Schopenhauer escreveu muito mais sobre a natureza > da representação e da realidade do que sobre o sentido da vida. > > Na verdade, a grande ironia quanto a pessoas como o Arthur, que dizem ter > muito interesse em temas como o sentido da vida, é o puro desconhecimento da > bibliografia recente sobre o tema. Isto acontece porque essa bibliografia > não dá ao Arthur o tipo de música das palavras que ele busca, uma música que > lhe dê conforto espiritual. Tudo o que se encontra nessa bibliografia > (Wiggins, Nozick, Nagel, Levy, Baier, Metz, Taylor e tantos outros, > incluindo eu próprio) é a discussão de ideias, e não paliativos infantis > para as dores de alma. A filosofia não é religião e por isso não tem > qualquer tipo de interesse para quem procura conforto espiritual. > > > > Espero ter desestabilizado mais uma vez os amigos e colegas da lista. É o > meu jeito idiota de ser. Mas não gosto de opiniões baseadas em > desconhecimento das coisas, nem de hipocrisia: pessoas que querem realmente > uma coisa mas são incapazes de declarar abertamente o que realmente querem. > Eu não vejo problema algum em querer conforto espiritual, querer uma coisa > qualquer mística, para-religiosa, etc. Mas chamar-lhe filosofia é uma > falsidade histórica, pura e simplesmente. > > > > Abraços, > > Desidério > > > ------------------------------ > > Instale a Barra de Ferramentas com Desktop Search e ganhe EMOTICONS para o > Messenger! É GRÁTIS! <http://www.msn.com.br/emoticonpack> > > ------------------------------ > Notícias direto do New York Times, gols do Lance, videocassetadas e muitos > outros vídeos no MSN Videos! Confira já! <http://video.msn.com/?mkt=pt-br> > > _______________________________________________ > Logica-l mailing list > [email protected] > http://www.dimap.ufrn.br/cgi-bin/mailman/listinfo/logica-l > >
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