PessoALL:

Em axiomatizações da lógica clássica, a *bi-implicação* frequentemente é
introduzida como uma mera abreviatura a partir, digamos, de fórmulas
contendo conjunções e implicações, ou contendo conjunções, disjunções e
negações, apropriadamente combinadas.  Tal situação nem sempre é ideal, mas
não é inteiramente fora de propósito: se a bi-implicação é tomada como um
conectivo primitivo, de fato, suas axiomatizações terão de dar conta de
propriedades pouco intuitivas da bi-implicação clássica, tais como a
associatividade deste conectivo (poder-se-ia argumentar neste caso que se
trata de um mero "efeito colateral" do princípio da casa do pombo, tendo em
vista a bivalência da lógica subjacente).  Além disso, vale notar que tais
definições alternativas não resistem ao enfraquecimento da lógica original,
pois em fragmentos dedutivos da lógica clássica duas fórmulas classicamente
equivalentes podem deixar de ser equivalentes, e passa assim a fazer
diferença qual abreviatura é escolhida para introduzir o conectivo em
questão.

Estendendo o exemplo propriamente para o domínio não-clássico, gostaria de
colher reações dos especialistas aqui sobre o seguinte ponto.

Na lógica intuicionista a negação $\neg A$ de uma sentença $A$ é
frequentemente introduzida *por definição* como a sentença $A\to\bot$, onde
$\to$ é a "implicação intuicionista" e $\bot$ o "absurdo intuicionista",
tomados como conectivos primitivos.  Como consequência, ao enfraquecermos a
implicação ou o absurdo, pela consideração de um fragmento dedutivo da
lógica intuicionista, pode ocorrer que a interpretação de $\neg$ como algo
que mereça o título de "negação" seja prejudicada.

Obviamente, para fragmentos da lógica intuicionista a abordagem
supra-citada só faz sentido quando $\to$ e $\bot$ estão disponíveis.  De
todo modo, tendo em vista o fato de que os conectivos intuicionistas não
são em geral interdefiníveis, não é inconcebível que a introdução de certos
conectivos por meio de abreviaturas possa em certas situações ser
conveniente, por alguma razão... embora isto possa também passar a
impressão de que tais conectivos assim introduzidos "não existem de
verdade".

A pergunta que lanço aqui é: ao trabalhar com *lógicas construtivas* (que
sejam fragmentos da lógica clássica ou, digamos, de alguma extensão modal
da lógica clássica), haverá alguma justificativa meta-lógica _razoável_ (em
oposição a justificativas meramente ad hoc, formuladas convenientemente
para "explicar" a teoria a posteriori) para considerarmos a negação como
sendo preferencialmente introduzida por abreviatura, sempre que isto é
possível?  Situações em que tal abordagem pareceria não ser atraente, por
exemplo, seriam aquelas em que a implicação e o bottom são suficientemente
fortes para que a definição seja útil, mas a negação que se pretende
introduzir é na realidade tanto paracompleta quanto paraconsistente
(exemplo: lógica N4 de Nelson).

(A pergunta acima ---para a qual não há resposta certa ou errada--- é
propositalmente vaga, de modo a tentar não tomar partido de nenhuma posição
específica.  Com alguma sorte, contudo, a pergunta estará suficientemente
clara para que os colegas possam emitir suas *opiniões* a respeito do
assunto!)

Abraços, JM

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