Desidério:

PA + regra \omega de Shoenfield prova todas as verdades aritméticas, e só
elas (e a regra \omega de Shoenfield é quaaaaase construtiva, no sentido
lato do termo).

Tem jeito, sim, de reduzir áreas da matemática a sistemas formais, sem
incompletude.

2008/9/17 Desidério Murcho <[EMAIL PROTECTED]>

> Olá, Márcio, tudo bem?
>
> Piaget parece ter uma concepção errada da filosofia. O que não seria de
> admirar. Muita gente a tem. Vejamos se consigo ser esclarecedor.
>
> 1) Todas as divisões académicas são algo artificiosas e não devem ser
> encaradas demasiado rigidamente. Devemos ser conduzidos pelos problemas e
> não pelas divisões académicas prévias.
>
> 2) Os métodos adoptados devem responder aos problemas, não são os problemas
> que devem responder aos métodos. O que quero dizer com isto é que não
> devemos desqualificar um dado problema por não termos já um método
> científico ou outro para o resolver. Deve ser a própria pressão para tentar
> resolver problemas que nos deve levar a conceber métodos adequados para
> isso.
>
> 3) A relação entre a filosofia e as outras áreas cognitivas é fluida e deve
> manter-se fluida: o que hoje não sabemos abordar senão filosoficamente,
> amanhã podemos aprender a abordar empiricamente ou formalmente. Em filosofia
> não devemos abordar os problemas da maneira como o fazemos por preguiça, mas
> porque nenhum outro método além do filosófico é concebível. O que é o método
> filosófico? É uma mistura dos métodos da matemática e da lógica com os
> métodos empíricos de ciências como a biologia. Uma mistura no mau sentido:
> tem o pior das duas! :-) A investigação em filosofia é como a matemática e a
> lógica por ser puramente racional: não recorre à experimentação nem à
> observação. Mas não é como a matemática nem como a lógica porque não se
> reduz aos métodos formais destas disciplinas: não podemos provar logicamente
> se há deuses ou não, mas podemos e devemos usar recursos da lógica para
> afinar melhor os nossos argumentos. Por outro lado a filosofia é como as
> ciências empíricas porque olha para problemas que não são (pelo menos
> exclusivamente) formais: o problema de saber se temos livre-arbítrio, ou se
> há deuses, ou como as palavras referem as coisas, não são matemáticos nem
> lógicos, são aproximadamente empíricos. A dificuldade é que muitos destes
> problemas parecem insusceptíveis de estudo empírico e é por isso que são
> filosóficos. Mas as fronteiras são fluidas. Um dia poderemos saber
> investigar empiricamente se temos ou não livre-arbítrio (e há já hoje
> investigações empíricas interessantes sobre isso, ou com impacto sobre este
> problema), tal como um dia descobrimos com Gödel que a verdade matemática
> não pode ser totalmente reduzida à verdade lógica.
>
> 4) A filosofia é especulação. É teorização aberta sobre o que não podemos
> saber. E é inevitável porque está antes das ciências, nas ciências e depois
> das ciências. Antes das ciências porque especulamos sobre problemas que
> ainda não podem ser abordados cientificamente, se bem que talvez mais tarde
> o venham a ser, quando descobrirmos métodos empíricos ou formais para o
> fazer. Está nas ciências porque toda a investigação científica tem
> pressupostos filosóficos (metafísicos e epistemológicos, nomeadamente), sem
> que muitas vezes os cientistas se apercebam disso. E vem depois das ciências
> porque as ciências levantam muitos problemas que não podem ser resolvidos
> pelas ciências: problemas éticos, ou problemas de integração conceptual.
>
> 5) A filosofia não é  nem superior nem inferior às outras actividades
> cognitivas. É uma parte constituinte e inevitável da nossa vida cognitiva, e
> pode ser bem ou mal feita, como tudo na vida. Mas não é superior nem
> inferior à física ou à lógica ou à matemática. Apenas trata de problemas
> diferentes e tem métodos diferentes porque os problemas são diferentes.
>
> Regressando a Piaget: ele parece pensar que a filosofia é uma espécie de
> intuição directa de essências, à maneira de Husserl, ao passo que a ciência
> seria um estudo experimental dos fenómenos, das aparências. A maior parte
> dos filósofos hoje não aceitariam esta posição de Husserl, e com razão. A
> filosofia trata de problemas como as outras áreas cognitivas, a diferença
> apenas é que os problemas que nos interessam não podem ser, pelo menos hoje,
> abordados pelas ciências. E é argumentável que certos problemas nunca
> poderão ser abordados matematicamente ou empiricamente.
>
> Já escrevi muito e não sei se fui esclarecedor!
>
> Um abraço,
> Desidério
>
>
> -----Original Message-----
> From: [EMAIL PROTECTED] [mailto:
> [EMAIL PROTECTED] On Behalf Of Márcio Palmares
> Sent: quarta-feira, 17 de Setembro de 2008 8:31
> To: Logica-L
> Subject: Re: [Logica-l] Sem Lógica
>
> Prezado Desidério,
>
> Queira, por gentileza, se possível, criticar o seguinte ponto de vista:
>
> "A filosofia teria cem vezes razão se reservasse para si os territórios
> aonde a ciência não vai, não quer ir, não pode ir no momento. Mas nada a
> autoriza a crer que seus processos estão guardados in aeternum. E ela não
> está em condições de provar que seus problemas são por natureza diferentes
> dos que a razão científica se propõe a abordar. A ciência não visa senão à
> aparência? Mas, segundo a fórmula bem conhecida, de todos os caminhos que
> conduzem ao Ser, o parecer talvez seja ainda o mais seguro. Quanto a marcar
> os limites atuais do saber científico, não é tarefa do próprio pensamento
> científico? Nenhum filósofo faria, sem dúvida, das ignorâncias e das
> impotências da ciência uma lista tão longa e tão severa quanto a que um
> sábio seria capaz de preparar."
>
> Piaget, J.: Sabedoria e Ilusões da Filosofia. Coleção Os Pensadores
> (Editora Abril, 1983), p. 149.
>
> Obrigado.
>
> Márcio
>
>
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