Olá, Márcio, tudo bem?

Piaget parece ter uma concepção errada da filosofia. O que não seria de 
admirar. Muita gente a tem. Vejamos se consigo ser esclarecedor.

1) Todas as divisões académicas são algo artificiosas e não devem ser encaradas 
demasiado rigidamente. Devemos ser conduzidos pelos problemas e não pelas 
divisões académicas prévias. 

2) Os métodos adoptados devem responder aos problemas, não são os problemas que 
devem responder aos métodos. O que quero dizer com isto é que não devemos 
desqualificar um dado problema por não termos já um método científico ou outro 
para o resolver. Deve ser a própria pressão para tentar resolver problemas que 
nos deve levar a conceber métodos adequados para isso. 

3) A relação entre a filosofia e as outras áreas cognitivas é fluida e deve 
manter-se fluida: o que hoje não sabemos abordar senão filosoficamente, amanhã 
podemos aprender a abordar empiricamente ou formalmente. Em filosofia não 
devemos abordar os problemas da maneira como o fazemos por preguiça, mas porque 
nenhum outro método além do filosófico é concebível. O que é o método 
filosófico? É uma mistura dos métodos da matemática e da lógica com os métodos 
empíricos de ciências como a biologia. Uma mistura no mau sentido: tem o pior 
das duas! :-) A investigação em filosofia é como a matemática e a lógica por 
ser puramente racional: não recorre à experimentação nem à observação. Mas não 
é como a matemática nem como a lógica porque não se reduz aos métodos formais 
destas disciplinas: não podemos provar logicamente se há deuses ou não, mas 
podemos e devemos usar recursos da lógica para afinar melhor os nossos 
argumentos. Por outro lado a filosofia é como as ciências empíricas porque olha 
para problemas que não são (pelo menos exclusivamente) formais: o problema de 
saber se temos livre-arbítrio, ou se há deuses, ou como as palavras referem as 
coisas, não são matemáticos nem lógicos, são aproximadamente empíricos. A 
dificuldade é que muitos destes problemas parecem insusceptíveis de estudo 
empírico e é por isso que são filosóficos. Mas as fronteiras são fluidas. Um 
dia poderemos saber investigar empiricamente se temos ou não livre-arbítrio (e 
há já hoje investigações empíricas interessantes sobre isso, ou com impacto 
sobre este problema), tal como um dia descobrimos com Gödel que a verdade 
matemática não pode ser totalmente reduzida à verdade lógica.

4) A filosofia é especulação. É teorização aberta sobre o que não podemos 
saber. E é inevitável porque está antes das ciências, nas ciências e depois das 
ciências. Antes das ciências porque especulamos sobre problemas que ainda não 
podem ser abordados cientificamente, se bem que talvez mais tarde o venham a 
ser, quando descobrirmos métodos empíricos ou formais para o fazer. Está nas 
ciências porque toda a investigação científica tem pressupostos filosóficos 
(metafísicos e epistemológicos, nomeadamente), sem que muitas vezes os 
cientistas se apercebam disso. E vem depois das ciências porque as ciências 
levantam muitos problemas que não podem ser resolvidos pelas ciências: 
problemas éticos, ou problemas de integração conceptual. 

5) A filosofia não é  nem superior nem inferior às outras actividades 
cognitivas. É uma parte constituinte e inevitável da nossa vida cognitiva, e 
pode ser bem ou mal feita, como tudo na vida. Mas não é superior nem inferior à 
física ou à lógica ou à matemática. Apenas trata de problemas diferentes e tem 
métodos diferentes porque os problemas são diferentes. 

Regressando a Piaget: ele parece pensar que a filosofia é uma espécie de 
intuição directa de essências, à maneira de Husserl, ao passo que a ciência 
seria um estudo experimental dos fenómenos, das aparências. A maior parte dos 
filósofos hoje não aceitariam esta posição de Husserl, e com razão. A filosofia 
trata de problemas como as outras áreas cognitivas, a diferença apenas é que os 
problemas que nos interessam não podem ser, pelo menos hoje, abordados pelas 
ciências. E é argumentável que certos problemas nunca poderão ser abordados 
matematicamente ou empiricamente. 

Já escrevi muito e não sei se fui esclarecedor! 

Um abraço,
Desidério


-----Original Message-----
From: [EMAIL PROTECTED] [mailto:[EMAIL PROTECTED] On Behalf Of Márcio Palmares
Sent: quarta-feira, 17 de Setembro de 2008 8:31
To: Logica-L
Subject: Re: [Logica-l] Sem Lógica

Prezado Desidério,

Queira, por gentileza, se possível, criticar o seguinte ponto de vista:

“A filosofia teria cem vezes razão se reservasse para si os territórios aonde a 
ciência não vai, não quer ir, não pode ir no momento. Mas nada a autoriza a 
crer que seus processos estão guardados in aeternum. E ela não está em 
condições de provar que seus problemas são por natureza diferentes dos que a 
razão científica se propõe a abordar. A ciência não visa senão à aparência? 
Mas, segundo a fórmula bem conhecida, de todos os caminhos que conduzem ao Ser, 
o parecer talvez seja ainda o mais seguro. Quanto a marcar os limites atuais do 
saber científico, não é tarefa do próprio pensamento científico? Nenhum 
filósofo faria, sem dúvida, das ignorâncias e das impotências da ciência uma 
lista tão longa e tão severa quanto a que um sábio seria capaz de preparar.”

Piaget, J.: Sabedoria e Ilusões da Filosofia. Coleção Os Pensadores (Editora 
Abril, 1983), p. 149.

Obrigado.

Márcio




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