Álvaro:

Faz tempo, fazia parte de um grupo português sobre filosofia, era profundo 
admirador do Prof. Murcho a quem sempre fazia perguntas e recebia as respostas.
Por um deslize do qual não me lembro, exatamente ele, Murcho, me defenestrou do 
grupo: Como vs. tem visto sou apenas uma pessoa que procura pensar de maneira 
filosófica, como a mãe de todas as demais ciências. 
A partir dessa cacetada, jamais tive coragem de me dirigir ao ilustre 
professor, em sua cátedra inglesa.... recolhi-me  ao mais profundo arcano de 
minha insignificância....

Pra mim foi lição: quam sabe deve ensinar com clareza, educação, confiança. Em 
qualquer nível, o conhecimento tem um limite que o professor Murcho entende 
profundamente.

uma boa tarde,

silvio.
----- Original Message ----- 
  From: Alvaro Augusto (L) 
  To: Logica-L 
  Sent: Wednesday, September 17, 2008 1:24 PM
  Subject: Re: [Logica-l] Sem Lógica


  Caro Desidério,

  Permita-me discordar um pouco de você. Por um lado, entendo sua irritação com 
os filósofos amadores (como eu). Longe de mim querer desvalorizar essa 
profissão, a atividade ou muito menos os profissionais. Na verdade, em outra 
lista estou em discussão com um físico que argumenta que a filosofia não tem 
valor e que apenas a ciência "hard" (palavras dele) deveria ser ensinada nas 
escolas. Por outro lado, a existência dos "filósofos de botequim" me parece 
mais uma oportunidade de ensino para os filósofos profissionais do que um 
motivo de irritação. Afinal, um filósofo de botequim é alguém que poderá, algum 
dia e com muito esforço, transformar-se em um filósofo profissional. Já aqueles 
que não são nem filósofos de botequim, não têm a menor chance.

  [ ]s

  Alvaro Augusto de Almeida
  http://www.alvaroaugusto.com.br
  [EMAIL PROTECTED]


    ----- Original Message ----- 
    From: Desidério Murcho 
    To: Logica-L 
    Sent: Wednesday, September 17, 2008 1:10 AM
    Subject: Re: [Logica-l] Sem Lógica


    Caros colegas

     

    Gostaria de fazer alguns esclarecimentos. Em parte porque há coisas que me 
irritam. Irrita-me que se fale de filosofia numa lista académica como se a 
filosofia fosse lixo que não vale a pena estudar porque a Ciência (com 
maiúscula reverencial, quiçá religiosa) é que é o Verdadeiro Conhecimento. E 
depois vê-se que ler uns livritos de filosofia e estudar um bocadinho da minha 
disciplina até seria boa ideia. 

     

    Comecemos por esta afirmação do colega Ricardo: "seria tomar o conhecimento 
científico actual como último e insuperável". Bom, o conhecimento é factivo o 
que significa que se alguém, seja quem for, sabe que P, é verdade que P e isso 
é insuperável, seja conhecimento científico ou de taxistas. Uma coisa 
completamente diferente são as crenças científicas. Estas podem ser revistas 
unicamente porque as crenças não são factivas. Mas, claro, que interesse tem 
estudar um pouquinho de filosofia? Que interesse tem poder pensar com mais 
clareza do que um amador em questões evidentemente filosóficas? Nenhum, porque 
a filosofia é lixo. Nem para distinguir cuidadosamente o conhecimento de 
crença, coisa que qualquer estudante do primeiro ano de filosofia de qualquer 
departamento que se preze sabe fazer, vale a pena estudar esta miséria 
acientífica chamada filosofia. 

     

    Segundo, repare-se nesta concepção de metafísica: uma caracterização 
completa da realidade. A coisa até está próxima do que podemos encontrar em 
qualquer boa introdução à metafísica, como a do Lowe ou do Loux. Só que isto é 
tomado como um sonho de loucos, um devaneio que não é Científico, e que nos 
lança no domínio da mera opinião. A fobia pela objectividade e pelos resultados 
chega a este ponto: somos obrigados a especular, mas não sabemos como isso se 
faz porque se despreza a disciplina onde se aprende a especular com rigor, 
precisamente porque essa disciplina não é Científica e não apresenta 
resultados. Ironicamente, se não aprendermos a especular nunca aprenderemos a 
produzir resultados excepto os resultados quotidianos da ciência banal e 
quotidiana - e não os resultados da ciência imaginativa, nova, arriscada.

     

    Estou à muito tempo nesta lista e devo dizer que não me surpreende o 
desprezo a que se vota a filosofia e o desconhecimento da bibliografia mais 
básica. Isto é comum entre os meus amigos cientistas portugueses, mas não é 
menos idiota por isso. Espero que o Ricardo e os outros colegas não fiquem 
zangados comigo, mas é tempo de os colegas saberem uma coisa: discutir temas 
filosóficos como quem discute futebol é um insulto aos muitos filósofos que 
roubam tempo à sua pesquisa para publicar bons livros introdutórios, que 
permita que qualquer leitor inteligente aprenda pelo menos um pouco de 
filosofia para poder discutir esses temas de uma maneira intelectualmente 
sólida. Livros de introdução à filosofia da religião, à teoria do conhecimento, 
à filosofia da ciência, para citar só alguns casos. 

     

    E pronto, desculpem-me o desabafo. Mas ponham-se no meu lugar: como 
reagiriam se eu desatasse a falar de computação sem mostrar o mínimo domínio da 
área nem mostrar qualquer interesse em estudar a bibliografia adequada? 
Filosofia, caros colegas, não é cultura geral que se faz nos intervalos de 
fazer ciência séria. É uma disciplina altamente especializada, que exige um 
treino demorado e um conhecimento da bibliografia relevante, assim como das 
teorias, problemas e argumentos em causa. 

     

    Um abraço,

    Desidério

     

    From: [EMAIL PROTECTED] [mailto:[EMAIL PROTECTED] On Behalf Of Ricardo 
Pereira Tassinari
    Sent: terça-feira, 16 de Setembro de 2008 4:44
    To: Lógica-L
    Subject: [Logica-l] Sem Lógica

     

    Olá a todos.

    Confesso que já não estou entendendo mais muito bem o que estamos 
discutindo sobre Religião (já que a discussão sobre Futebol e Política não 
vingou), mas parece-me claro que:

    1. Não dá para equiparar conhecimento científico (com a construção de 
modelos, testes experimentais controlados e públicos, etc.) com "conhecimento" 
(se faz sentido usar essa palavra aqui) sobre assuntos religiosos;
    2. A Ciência não caracteriza completamente o que é a Realidade; seria 
transformar a Ciência em Metafísica e, pior, tomar o conhecimento científico 
atual como último e insuperável;
    3. No "método científico" (se há tal coisa, pois não é um algoritmo), na 
escolha dos postulados de uma teoria científica, entram coisas como "Navalha de 
Ockham" ou Princípio de Simplicidade, que, a menos que se prove o contrário, a 
Verdade (se posso usar esse termo) não tem que satisfazer;

    Assim, por 2 e 3, estamos no relativo; isso cria um vácuo em relação ao que 
o "conhecimento" religioso (ou até mesmo metafísico) quer atingir (e sobre os 
"métodos" usados para isso), que cada um tem o direito de preencher como quiser 
(seja sendo um ateu-macho como o Décio, seja sendo um livre pensador que busca 
superar seus preconceitos como o Arthur). Para além disso é dogmatismo, não?

    Particularmente, a questão me toca pois acho que há muito a se pesquisar 
sobre o homem (em especial, como explicar o comportamento humano dito 
"superior" em Psicologia, e.g., como o ser humano "faz" Matemática ou como ele 
constrói a Ciência) seja como ser biológico (como o faz Piaget) seja sob um 
ponto de vista idealista (que *esteticamente* me agrada), sem fixar de início 
qual a posição metafísica a se adotar. Parece-me claro que ninguém atualmente 
tem respostas claras e convincentes, muito menos explicações científicas com 
todo o rigor que elas demandam, para entendermos, pelo menos, como somos, o que 
dirá o que somos.

    Abraço a todos,
    Ricardo.

    -- 
    Dr. Ricardo Pereira Tassinari - Departamento de Filosofia
    UNESP - Faculdade de Filosofia e Ciências - Marília
    Homepage: http://www.marilia.unesp.br/ricardotassinari



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