Décio,
Tudo que não conhecemos parece fácil. Por outro lado, aquilo que conhecemos
profundamente também parece fácil. O problema está na fronteira.
[ ]s
Alvaro Augusto
----- Original Message -----
From: Décio Krause
To: Desidério Murcho
Cc: Logica-L
Sent: Wednesday, September 17, 2008 9:27 AM
Subject: Re: [Logica-l] Sem Lógica
Boa, Desidério!
Concordo plenamente. E tem mais. Uma vez, um colega mais antigo que eu tinha
no departamento de matemática, quando soube que eu estava fazendo um curso
sobre Hume me disse: "Ah, filosofia? Isso é fácil." (querendo dizer que o
difícil mesmo era a matemática). Creio que você tem razão em exigir um pouco de
conhecimento técnico, e não meramente especulações.
Abraços,
Décio
2008/9/17 Desidério Murcho <[EMAIL PROTECTED]>
Caros colegas
Gostaria de fazer alguns esclarecimentos. Em parte porque há coisas que me
irritam. Irrita-me que se fale de filosofia numa lista académica como se a
filosofia fosse lixo que não vale a pena estudar porque a Ciência (com
maiúscula reverencial, quiçá religiosa) é que é o Verdadeiro Conhecimento. E
depois vê-se que ler uns livritos de filosofia e estudar um bocadinho da minha
disciplina até seria boa ideia.
Comecemos por esta afirmação do colega Ricardo: "seria tomar o conhecimento
científico actual como último e insuperável". Bom, o conhecimento é factivo o
que significa que se alguém, seja quem for, sabe que P, é verdade que P e isso
é insuperável, seja conhecimento científico ou de taxistas. Uma coisa
completamente diferente são as crenças científicas. Estas podem ser revistas
unicamente porque as crenças não são factivas. Mas, claro, que interesse tem
estudar um pouquinho de filosofia? Que interesse tem poder pensar com mais
clareza do que um amador em questões evidentemente filosóficas? Nenhum, porque
a filosofia é lixo. Nem para distinguir cuidadosamente o conhecimento de
crença, coisa que qualquer estudante do primeiro ano de filosofia de qualquer
departamento que se preze sabe fazer, vale a pena estudar esta miséria
acientífica chamada filosofia.
Segundo, repare-se nesta concepção de metafísica: uma caracterização
completa da realidade. A coisa até está próxima do que podemos encontrar em
qualquer boa introdução à metafísica, como a do Lowe ou do Loux. Só que isto é
tomado como um sonho de loucos, um devaneio que não é Científico, e que nos
lança no domínio da mera opinião. A fobia pela objectividade e pelos resultados
chega a este ponto: somos obrigados a especular, mas não sabemos como isso se
faz porque se despreza a disciplina onde se aprende a especular com rigor,
precisamente porque essa disciplina não é Científica e não apresenta
resultados. Ironicamente, se não aprendermos a especular nunca aprenderemos a
produzir resultados excepto os resultados quotidianos da ciência banal e
quotidiana — e não os resultados da ciência imaginativa, nova, arriscada.
Estou à muito tempo nesta lista e devo dizer que não me surpreende o
desprezo a que se vota a filosofia e o desconhecimento da bibliografia mais
básica. Isto é comum entre os meus amigos cientistas portugueses, mas não é
menos idiota por isso. Espero que o Ricardo e os outros colegas não fiquem
zangados comigo, mas é tempo de os colegas saberem uma coisa: discutir temas
filosóficos como quem discute futebol é um insulto aos muitos filósofos que
roubam tempo à sua pesquisa para publicar bons livros introdutórios, que
permita que qualquer leitor inteligente aprenda pelo menos um pouco de
filosofia para poder discutir esses temas de uma maneira intelectualmente
sólida. Livros de introdução à filosofia da religião, à teoria do conhecimento,
à filosofia da ciência, para citar só alguns casos.
E pronto, desculpem-me o desabafo. Mas ponham-se no meu lugar: como
reagiriam se eu desatasse a falar de computação sem mostrar o mínimo domínio da
área nem mostrar qualquer interesse em estudar a bibliografia adequada?
Filosofia, caros colegas, não é cultura geral que se faz nos intervalos de
fazer ciência séria. É uma disciplina altamente especializada, que exige um
treino demorado e um conhecimento da bibliografia relevante, assim como das
teorias, problemas e argumentos em causa.
Um abraço,
Desidério
From: [EMAIL PROTECTED] [mailto:[EMAIL PROTECTED] On Behalf Of Ricardo
Pereira Tassinari
Sent: terça-feira, 16 de Setembro de 2008 4:44
To: Lógica-L
Subject: [Logica-l] Sem Lógica
Olá a todos.
Confesso que já não estou entendendo mais muito bem o que estamos
discutindo sobre Religião (já que a discussão sobre Futebol e Política não
vingou), mas parece-me claro que:
1. Não dá para equiparar conhecimento científico (com a construção de
modelos, testes experimentais controlados e públicos, etc.) com "conhecimento"
(se faz sentido usar essa palavra aqui) sobre assuntos religiosos;
2. A Ciência não caracteriza completamente o que é a Realidade; seria
transformar a Ciência em Metafísica e, pior, tomar o conhecimento científico
atual como último e insuperável;
3. No "método científico" (se há tal coisa, pois não é um algoritmo), na
escolha dos postulados de uma teoria científica, entram coisas como "Navalha de
Ockham" ou Princípio de Simplicidade, que, a menos que se prove o contrário, a
Verdade (se posso usar esse termo) não tem que satisfazer;
Assim, por 2 e 3, estamos no relativo; isso cria um vácuo em relação ao que
o "conhecimento" religioso (ou até mesmo metafísico) quer atingir (e sobre os
"métodos" usados para isso), que cada um tem o direito de preencher como quiser
(seja sendo um ateu-macho como o Décio, seja sendo um livre pensador que busca
superar seus preconceitos como o Arthur). Para além disso é dogmatismo, não?
Particularmente, a questão me toca pois acho que há muito a se pesquisar
sobre o homem (em especial, como explicar o comportamento humano dito
"superior" em Psicologia, e.g., como o ser humano "faz" Matemática ou como ele
constrói a Ciência) seja como ser biológico (como o faz Piaget) seja sob um
ponto de vista idealista (que *esteticamente* me agrada), sem fixar de início
qual a posição metafísica a se adotar. Parece-me claro que ninguém atualmente
tem respostas claras e convincentes, muito menos explicações científicas com
todo o rigor que elas demandam, para entendermos, pelo menos, como somos, o que
dirá o que somos.
Abraço a todos,
Ricardo.
--
Dr. Ricardo Pereira Tassinari - Departamento de Filosofia
UNESP - Faculdade de Filosofia e Ciências - Marília
Homepage: http://www.marilia.unesp.br/ricardotassinari
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