Décio,

deixa eu te contar uma historinha.

Em 2006 eu trabalhava como programador na Vivo, e eu tinha acabado de
ser realocado pra "sede principal", ou algo assim, da Vivo no Rio, que
era um prédio enorme, muito chique, na Barra da Tijuca. Esse
prédio era muito mais longe pra mim que o anterior, e eu levava
duas horas pra chegar lá. Além disso o grupo de programadores de
lá com o qual eu deveria me entrosar MUITO bem era socialmente
dominado por vários pós-adolescentes vândalos homofóbicos,
e eu ganhava bem pouco.

A gente trabalhava numa sala muito grande, com umas 200 ou 300
pessoas, e divisórias baixas entres as baias. Certos projetos
importantes tinham deadlines estourando, os grupos que cuidavam deles
fizeram trabalhos de equipe maravilhosos, e a partir daí muitas
pessoas desses grupos passaram a se comportar como as engrenagens
principais de uma máquina bem azeitada, e a falarem muito alto,
como se fossem os personagens principais de um filme, e como se tudo
que eles pensassem e dissessem fosse muito importante pra todos
nós.

As pessoas "secundárias" nesses projetos rapidamente se tornarem
quietas de novo, mas os líderes dos projetos não. E a tensão
do trabalho diminuiu e eles começaram a cuidar de outras coisas.

Um deles passou dias falando do GPS que ele ia comprar pro carro que
ele ia alugar pra uma viagem pros Estados Unidos, e depois dias entre
histérico, decepcionado e amargurado, passando literalmente _horas_
lá no trabalho a cada dia tentando reclamar com o fabricante (e com
os colegas).

Outro, que já tinha sido professor de sei lá que faculdade
privada, e que falava MUITO alto e MUITO devagar, passou um dia
inteiro brigando com o cara que tinha montado um super-servidor com
mil garantias e certificações, e que aí conseguiu
forçá-lo - ou seja, forçar a Vivo - a pagar cem mil reais por
um pente de memória RAM com o selinho certo pro servidor, porque se
a Vivo tentasse aumentar a memória do servidor com peças não
certificadas as garantias iriam pro brejo. Até aí tudo bem, mas
num outro dia esse cara passou horas no telefone, com a mesma voz - e
ele ficava só a uns 20 metros de mim, eu não tinha como perder
um fonema do que ele falava, nem quando eu tentava ouvir música bem
alto nos headphones -, falando com a amante, e depois mais várias
horas tentando acalmar a esposa, e depois, num outro dia, umas duas
horas tentando convencer um professor da UERJ a aprová-lo numa
matéria, porque era a última que ele precisava pra terminar a
graduação, e afinal qual era a importância daquela
matéria, o objetivo do curso não é encaixar as pessoas no
mercado de trabalho? Porque ele já tem um empregão etc etc...

A historinha era essa. Ou melhor, este é o lado visível dela. O
lado invisível é que eu queria, e precisava, me concentrar no
meu trabalho lá na Vivo mas comecei a não conseguir. Não
tenho nem como resumir o que essa situação me fazia pensar, mas
posso dar alguns exemplos: 1) porque é que aquelas pessoas se davam
ao direito de falar tão alto, 2) se alguém mais se incomodava,
3) que o profissional perfeito se concentra só no seu trabalho e
portanto eu não era o profissional perfeito, 4) porque é que
ninguém fazia nada, 5) se havia algo que alguém que não fosse
os chefões poderia fazer, 6) se os caras que falavam alto
ridicularizariam qualquer um que viesse conversar com eles, 7) que
sociedade era aquela - aquele ambiente de 200 ou 300 pessoas da Vivo,
8) que os meus poucos colegas de trabalho que não eram grossos
pareciam profundamente infelizes, 9) que o "mercado" para
programadores no Brasil devia ser praticamente todo feito de ambientes
daquele tipo ou piores, 10) que se eu não fazia nada a respeito,
nem sequer conversar com os meus colegas, eu estava sendo cúmplice,
11) o que quereria dizer crescer naquele trabalho? Será que era eu
um dia poder ser o cara que fala alto? 12) como era o "mundo exterior"
que fazia com que esse tipo de ambiente fosse normal, 13) que eu era
contratado pra dedicar toda a energia possível, durante 8 horas por
dia, à empresa, ou aos projetos (técnicos) sob minha
responsabilidade, algo assim - então como é que eu poderia fazer
isso sem sentir que eu estava traindo tudo o que eu acreditava, isto
é, sem apoiar uma sociedade doente?


O que isto tem a ver com a Lista de Lógica
==========================================
Então: esta pergunta é irrespondível. Quem vai dar a resposta
definitiva? Eu? Você? A maioria? Deus? Um teorema? Um teste
duplo-cego randomizado? Um comitê especialmente designado? A
decisão do comitê é soberana? Cabe recurso?

Qualquer um pode dizer que nada tem a ver com nada. Mas ACHO que
não é por aí. Acho que quem der argumentos interessantes vai
ser ouvido por alguns dos demais, mesmo que alguma autoridade já
tenha dito "não há nada pra discutir" e "assunto encerrado".


O que eu quero ser quando eu crescer
====================================
Quando eu comentei sobre a palestra do Newton alguns dos assuntos que
eu pensei que apareceriam era: como nós damos as nossas palestras
agora, o que a gente faz pra que cada pessoa da platéia aprenda
algo interessante, e como a gente se planeja pra continuarmos a ser
palestrantes interessantes, aliás se possível ainda melhores,
daqui a décadas... mas o subtexto que eu vi em algumas respostas
foi "prove grandes teoremas (e aí você vai poder fazer o que
quiser)". Mas isto me parece muito primário.


O que é a Lista de Lógica
=========================
Pra muitos de nós que participamos dela ela é um dos ambientes
nos quais a gente vive - mesmo que passemos só poucos minutos por
dia nela - e é uma das nossas referências de um lugar no qual
deveria ser possível argumentar de forma interessante.

As "pessoas que falam alto" da lista, como os líderes de projeto da
minha história, incomodam bastante. Aliás, corrijo: incomodam
aos que não são os "profissionais perfeitos", que se concentram
só nos seus trabalhos. Vou pegar um exemplo default: o Dória. A
gente fica pensando porque é que o Dória posta as coisas que
posta; a gente sabe que não adianta perguntar pra ele nem pedir pra
ele mudar, então a gente usa o Dória como ponto de partida pra
pensar sobre mil outras coisas.

Eu apostaria R$20 que as pessoas que se incomodam com os posts do
Dória A) não são tão poucas (chute: são mais de 10) e
B) acharam o post do Rodrigo sobre a briga Dória / Moniz Bandeira
interessante pras suas próprias teorias doriológicas, e pra
pensarem - por associação livre, mesmo - sobre outras
questões de outros ambientes em torno de nós.

Oops, vou ter que interromper e sair, vou postar assim mesmo.

  Abraços,
    Eduardo Ostra
    [email protected]
    http://angg.twu.net/
    http://angg.twu.net/quadradinho/quadradinho-a5.pdf



2013/4/27 Rodrigo Podiacki <[email protected]>

> Décio,
>
> Acho que você está pegando frases isoladas, que somente podem ser
> > entendidas dentro  de um contexto.
> >
>
> O contexto está bem claro nos* links*. Isolei as frases que achei mais
> significativas. Os interessados podem abrir os* links* e ter acesso ao
> contexto.
>
>
> > Eu me lembro mais ou menos dessa discussão de Newton+Doria com o Solovay,
> > mas para não cairmos no argumento da autoridade, você deveria analisar o
> > trabalho deles por si mesmo.
> >
>
> Não houve discussão. Ela foi encerrada da maneira padrão, como descrevi
> anteriormente. Estou me valendo do mesmo expediente utilizado pela pessoa
> que critico (com referências mais concretas).
>
>
> > Puxa, Rodrigo, que tal falar de outras coisas na lista?
> >
>
> Falaremos de outras coisas quando o assunto se esgotar. Eu não peço para
> falar de outras coisas quando o assunto é tomar um vinho em Paris ou uma
> sinfonia de Beethoven, ou o PT. As pessoas são livres para falar sobre o
> que quiserem, e, dado o retorno particular que estou tendo, outros
> gostariam de dizer o que eu disse.
>
> Um abraço
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