Oi Decio,

É, o par ordenado como primitivo era denotado pelo C ao contrário que eu
mencionei. Na minha versão inglesa ainda tem esse C.

Realmente, os sistemas que Bourbaki adota, principalmente aquele com o C ao
contrário, são realmente péssimos para se fazer semântica. A metamatemática
deles é finitária, no sentido do Hilbert, não apenas construtiva em um
sentido intuicionista. Não há quase nada que chamaríamos "semântica" na
parte de lógica/teoria de conjuntos do Bourbaki.

Eu disse que não há quase nada que chamaríamos semântica, porque sei de um
exemplo no texto de resultado que normalmente chamamos semântico: trata-se
do *teorema das tautologias* (Post) que diz que toda tautologia é teorema
do cálculo proposicional e todo teorema do cálculo proposicional é
tautologia. Contudo, o teorema das tautologias, infelizmente, está nos
exercícios: é o exercício 7 do apêndice do capítulo 1 (tanto na edição
inglesa quanto na francesa que tenho aqui). O exercício seguinte também é
semântico. Acho que é só. Para fazer semântica mais avançada que isso,
ainda que finitária, é preciso considerar formulações melhores para a
lógica.


Eu disse que *normalmente* chamamos semântico o teorema das tautologias
porque isso também não é sem controvérsias:

"The decision procedure for validity is based on a syntactical notion, the
notion of a tautology."
Chang & Keisler, Model Theory, página 7, último parágrafo.


Com relação ao axioma da escolha, a utilização do símbolo \tau por si só
não atrapalharia. O problema é que Bourbaki deixa esse operador ocorrer
livremente no axioma da substituição. Aí o sistema prova o axioma da
escolha, trivialmente. Isso faz com que qualquer investigação semântica que
procure isolar o axioma da escolha torna-se impossível nesse sistema.

Abraço
Rodrigo








2013/1/28 Decio Krause <[email protected]>

> Legal, Rodrigo. Informações precisas. Acrescento mais umas.
> Sim, você está certo quanto ao quadradinho. Na primeira edição, o par
> ordenado era primitivo, o que não ocorre nas edições posteriores, inclusive
> na versão inglesa de 1968. Para ele, fazer matemática significa escrever
> símbolos no papel de acordo com certas regras que ele delineia no livro.
> Assim, ainda que sua matemática possa ser chamada de "clássica" (há algo
> mais "clássico" que Bourbaki?), sua metamatemática é construtiva, pois um
> problema pode não ter sido provado ser verdadeiro e nem falso porque ainda
> não se escreveu símbolos em quantidade suficiente para saber se ele é um
> teorema ou não. Mas vale o 3o excluído: ele é ou verdadeiro (teorema) ou
> não. "Verdade" aqui significa "prova". Não há semântica em sentido usual.
> Quanto ao axioma da escolha, ele usou o epsilon de Hilbert como símbolo
> primitivo, que denota por um \tau. Com isso, o AE é teorema. Eu procurei
> saber porque fez isso. Acho que ele(s) acreditava piamente que um dia o AE
> seria demonstrado, e assim estaria se adiantando bastante. Caiu do cavalo.
> Abraço
> D
>
> ________________________________
> Décio Krause
> Departamento de Filosofia
> Universidade Federal de Santa Catarina
> 88040-940 Florianópolis, SC -- Brasil
> deciokrause[at]gmail.com
> www.cfh.ufsc.br/~dkrause
> ________________________________
>
>
>
>
>
>
>
> Em 28/01/2013, às 13:16, Rodrigo Freire escreveu:
>
> O quadradinho do Bourbaki cumpre o papel de *lugar de variável ligada*. É
> preciso o link de desambiguação para ligar o quadradinho ao operador tau
> correspondente. Os links não estão oficialmente entre os símbolos da
> linguagem, mas ocorrem na formação de expressões. O operador tau é um
> "variable binding operator" que escolhe um indivíduo satisfazendo uma
> "relação", se um tal indivíduo existir. No sistema de Bourbaki, há um
> axioma (padrão para esse tipo de operador) que diz que "relações
> equivalentes produzem o mesmo indivúduo pela aplicação de tau". É um
> resultado clássico a conservatividade desse sistema sobre a lógica de
> primeira ordem.
>
> A formulação da linguagem formal de Bourbaki difere em edições diferentes
> do livro. Tenho aqui uma edição em lingua francesa da Springer e uma edição
> em língua inglesa também da Springer.  Na edição em inglês, há um símbolo
> impossível de reporduzir, um C ao contrário, cuja interpretação pretendida
> é a operação de formação de pares ordenados (talvez o C ao contrário tenha
> algo a ver com couples = pares). Na edição em francês, esse símbolo não
> existe. Acho que, cronologicamente, primeiro eles adotaram o C ao contrário
> para formar pares, depois desistiram.
>
> Já vi em algum lugar que a arbitrariedade da definição de par ordenado de
> Wiener-Kuratowski causou repulsa em Andre Weil, e esse seria o motivo da
> introdução do C ao contrário.
>
> Essas escolhas não são sem importância para a semântica. Esses simbolos
> que geram conjuntos como o C ao contrário e o tau criam problemas. Por
> exemplo, como não há controle do rank na geração de conjuntos a partir do
> tau e do C ao contrário, não há como garantir que V_k, com k um cardinal
> fortemente inacessível, seja modelo da teoria. De um modo geral, reflexão
> se torna problemática com essa formulação.
>
> Além disso, no sistema de Bourbaki, o tau pode ocorrer nas instâncias do
> axioma da substituição (que no caso do Bourbaki é um axioma que funde
> substituição e união. O Shoenfield usou a mesma formulação que o Bourbaki
> desse axioma em seu livro de lógica.) Com isso, Bourbaki não precisa
> postular o axioma da escolha, ele passa a ser um teorema. Claro que muitas
> investigações fundacionais que procuram isolar o papel do axioma da escolha
> não podem ser conduzidas em um sistema como o do Bourbaki.
>
> Os capítulos finais da teoria de conjuntos são melhores. No capítulo de
> estruturas tem uma formulação (que seria considerada um pouco desajeitada
> do ponto de vista de categorias) do teorema do funtor adjunto. Bourbaki
> chama isso de "existência de aplicações universais", seção 3.2 do capítulo
> 4 do livro de teoria de conjuntos (Claro que Bourbaki só considera funtores
> representáveis. Além disso, não há em Bourbaki a definição atual de
> adjunção)
>
> Na minha edição francesa aqui, Bourbaki usa a palavra "ensemble"
> frequentemente. Na edição inglesa ele também usa "set" com frequência. Acho
> que só no primeiro capitulo ele não usa a palavra "conjunto". Mas isso é
> compreensível porque o primeiro capítulo é de "lógica". Do segundo capítulo
> para frente, acho que é um bom livro de teoria de conjuntos básica.
>
> O primeiro capítulo de lógica do Bourbaki acho que é muito desajeitado.
> Nesse capítulo não há desenvolvimento sistemático de algo que chamaríamos
> "semântica". É uma escolha um tanto infeliz, eu acho.
>
>
> Abraço
> Rodrigo
>
>
>
>
>
>
>
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