Marcelo
De pleno acordo quanto ao ensino. Acho também que as abstrações devem ser 
deixadas para mais tarde, pois exigem maturidade. Já pensou usar o livro do 
Bourbaki na sala se aula em um primeiro ano? Este é um típico exemplo. Várias 
pessoas já me perguntaram o que significa o quadradinho que ele usa...
Este foi um dos problemas da chamada "matemática moderna" dos nos 60. Eu peguei 
essa fase na escola. Como disse o Morris Kline, queriam passar Bourbaki em 
fatias para os alunos. Deve-se mesmo começar pelo concreto.  Que eu falei foi 
da possibilidade de se desenvolver ZF sem se falar em conjunto, e não da 
conveniência de se fazer isso.
Abraço
D


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Décio Krause
Departamento de Filosofia
Universidade Federal de Santa Catarina
88040-900 Florianópolis - SC - Brasil
http://www.cfh.ufsc.br/~dkrause
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Em 27/01/2013, às 13:20, Marcelo Finger <[email protected]> escreveu:

> Caros.
> 
> Sobre ENSINAR conjuntos como abstrações puras ou com analogias ao mundo real, 
> acho que defender intransigentemente a visão de abstração pura um idealismo 
> que JAMAIS será obtido.
> 
> Apresento, para fundamentar a minha opinião, um experimento realizado por 
> Leda Cosmides (U. Calif @ Sta Barbara).  Ela apresentou a um grupo de pessoas 
> o seguinte problema:  Suponha que v tenha um cj de cartas, em que em uma face 
> há uma letra e na outra um número.  Suponha que temos a regra: "toda vogal 
> deve ter um número par no outro lado".  Sobre a mesa temos quatro cartas, 
> mostrando as seguintes informações: A, C, 3 e 6.  Pergunta: quais cartas 
> devem ser inspecionadas para verificar que a regra está sendo respeitada?
> 
> A maioria das pessoas ERROU, dizendo que precisava verificar só a primeira 
> carta ou a primeira e a última.  A resposta certa é a primeira e a terceira.
> 
> As mesmas pessoas foram apresentadas a outro problema.  Num bar, há pessoas 
> maiores e menores de 18 bebendo bebidas com ou sem álcool.  Temos quatro 
> pessoas: um menino de 16 anos, um vovô, um pessoa bebendo cerveja e outra um 
> suco de laranja.  Pergunta: quais pessoas precisam ser inspecionadas para 
> garantir que menores de 18 anos não podem beber bebida alcoólica.?  Neste 
> caso, praticamente TODOS acertaram.
> 
> Acontece que os dois problemas são o mesmo.  E a conclusão é a de que o 
> cérebro humano é talhado especialmente para raciocinar sobre situações de 
> cumprimento de regras sociais, e tem mais dificuldade (mas não 
> impossibilidade) para lidar com abstrações.  
> 
> Se v busca didatismo, o caminho que passa por instanciações com situações 
> sociais, apesar de violar a "pureza" da abstração intransigente, é um atalho 
> com forte atrativo para ENSINAR SERES HUMANOS em geral.  As primeiras vezes 
> que as crianças ouvem falar em conjunto, elas só vão entender se realizarem 
> analogias.  Alguns anos depois da familiarização do conceito a analogia pode 
> ser esquecida, o que leva a alteração do próprio conceito inicialmente 
> "entendido" (o conceito primário de conjunto dificilmente envolve infinitude, 
> densidade, indução, etc).   Razões evolutivas para isso não faltam.
> 
> Abraços
> 
> Marcelo
> 
> PS: Eu já vi este experimento mencionados em pelo 3 livros: "The Tipping 
> Point" de Malcolm Gladwell, "Grooming, Gossiping and the Origin of Language", 
> de Robin Dunbar, e tb em algum dos livros do Steven Pinker, acho que "The 
> Language Instinct".
> 
> 
> 
> 2013/1/27 Décio Krause <[email protected]>
>> Touché, JM.
>> 
>> 
>> 
>> ------------------------------------------------------
>> Décio Krause
>> Departamento de Filosofia
>> Universidade Federal de Santa Catarina
>> 88040-900 Florianópolis - SC - Brasil
>> http://www.cfh.ufsc.br/~dkrause
>> ------------------------------------------------------
>> 
>> Em 26/01/2013, às 13:28, Joao Marcos <[email protected]> escreveu:
>> 
>> > A inferência se trata de um entimema.  A premissa oculta neste caso
>> > poderia ser "elementos de conjuntos são entidades abstratas".
>> >
>> > Pode ser que Hrbacek e Jech não concordem com esta premissa.  Outros
>> > autores concordariam.
>> >
>> > Esta é uma dificuldade usual de se escrever "textos básicos".  Até
>> > sobre o que é "básico" (como a própria definição de "lógica") é
>> > possível as opiniões diferirem, sem que nenhuma delas seja
>> > necessariamente idiota.
>> >
>> > JM
>> >
>> > 2013/1/26 Rodrigo Podiacki <[email protected]>:
>> >> "O autor chega a sugerir que um grupo de pessoas é um conjunto. Logo,
>> >> pode-se inferir, pessoas são entidades abstratas."
>> >>
>> >> Que inferência é essa? Se um grupo de determinadas coisas é um conjunto,
>> >> isso significa que as coisas que formam esse grupo também são um conjunto?
>> >> O grupo é abstrato, mas não seus elementos. Isso é demasiado básico, e
>> >> lamentável é eu ter que dizer isso para um professor de lógica.
>> >>
>> >> "A set is any collection, group, or conglomerate. So we have the set of 
>> >> all
>> >> students registered at the City University of New York in February 1998,
>> >> the set of all even natural numbers [...], the set of all pink elephants.
>> >> [...] the set of all molecules in a drop of water is not the same object 
>> >> as
>> >> that drop of water."
>> >>
>> >> -- Karel Hrbacek e Thomas Jech, *Introduction to set theory*. p. 1.
>> >
>> > --
>> > http://sequiturquodlibet.googlepages.com/
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> Marcelo Finger
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