Caro Manuel (e lista)
Eu não quero de fato entrar na discussão, mas do que li sempre acho suas 
opiniões sensatas e bem fundamentadas. Simplificando,  a discussão sobre o que 
é ciência, a delimitação entre ciência e pseudo-ciência ou o que quer que 
chamem, é sempre tênue, e muda com o tempo. Basta recordar, por exemplo, que no 
primeiro livro de história da matemática, do século XVII, de Montucla, a 
astrologia era parte da matemática... Isso é assim mesmo, e talvez seja o que 
faz a coisa ser bacana. Hoje, ciência empírica (seja lá o que for isso) parece 
requerer comprovação empírica, mas o que dizer de cordas, membranas, do que 
acontece "dentro"dos buracos negros, dos multiversos? Isso não é ciência? Claro 
que estou sendo óbvio e exemplos abundam (como diria o Millôr, que língua, a 
nossa!). Somente acho que usar ainda hoje critérios de falseasionismo, por 
exemplo, quando não se sabe muito bem o que seja isso (proponho, gurizada: 
tentem dar uma definição precisa de falseasismo), é perda de tempo. Popper é 
excelente de ler, tem coisas úteis e belas, mas no geral é história. Exceto 
talvez o nosso amigo David Miller, que se estiver lendo isso pode contestar, 
ninguém mais é popperiano radical. Ou há alguém que seja?
Ademais, concordo plenamente com você em que as coisas "estranhas" devem ser 
investigadas, mas com cautela; lembro haver lido, há muitos anos, na Notices da 
AMS, um matemático defendendo e pedindo que o congresso americano não 
restringisse por lei a destinação de verbas para projetos considerados meio 
malucos, porque, segundo ele, a maioria é de fato coisa de doido, mas de 
repente sai algo genial; não dá para saber, e assim o corte não poderia ser 
radical, atendendo somente as coisas do mainstream. Acho que não podemos dizer 
o que seja a ciência, mas podemos nos acercar com sensatez (mas isso é bastante 
subjetivo) do que seja atividade científica: astrologia, cursos de mecânica 
quântica para se achar parceiros (pensam que estou brincando? posso provar!) 
etc são  charlatanismo, mas mesmo assim é difícil julgar. Quem sabe? 
Chega.
Abraço,
Décio
________________________________
Decio Krause
Departamento de Filosofia
Universidade Federal de Santa Catarina
88040-940 Florianópolis, SC -- Brasil
deciokrause[at]gmail.com
www.cfh.ufsc.br/~dkrause
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"He [God] will never choose among indiscernibles"
(G.W.Leibniz)






Em 16/09/2011, às 20:56, Manuel Doria escreveu:

> Prezado Professor Krause,
> 
> Primeiramente, de minha parte não estou interessado em "ir ao tapa" com 
> ninguém e também estou longe de estar inteirado em scholarship de Popper. 
> Julgo que toda a agressividade que se aflorou na discussão foi fruto de algum 
> mal-entendido.
> 
> Tenho entretanto algo a comentar a respeito de "teorias estranhas" com algum 
> aval de legitimidade científica (multiversos, psicologia ecológica 
> gibsoniana, inteligência artificial forte) em contraponto a "teorias 
> estranhas" que não são legítimas cientificamente (crop circles feitos por 
> alienígenas, antropologia mórmon e gnomos jardineiros)
> 
> Os dois grupos se assemelham por agrupar inúmeras hipóteses 
> contra-intuitivas. As do primeiro grupo, entretanto, podem diferir das do 
> segundo de várias formas, como exemplo:
> 
> - Metodologias de pesquisa que buscam consiliência com o estado da arte 
> consolidado pelas ciências periféricas (há teorias de multiversos que possuem 
> gênese em tentativas de unificação da mecânica quântica com relatividade 
> geral)
> 
> - Inovação tecnológica (a robótica inspirada na ecologia psicológica dos 
> Gibsonianos está fazendo robôs de comportamento fluido e adaptativo muito 
> interessantes)
> 
> - Seus proponentes tendem a ter mais expertise em suas respectivas áreas. 
> Muitos cranks em cosmologia não possuem background em física. Muitos cranks 
> em evolução biológica não possuem background em biologia. Isso pode ser uma 
> virtude (John Maynard Smith e Sir Ronald Fischer, dois dos maiores biólogos 
> teóricos, formalizaram a matemática da genética de populações tendo 
> backgrounds iniciais em engenharia e matemática/estatística), mas quase 
> sempre não é
> 
> - Superioridade heurística (M-theory é extremamente estranha, mas repetindo o 
> bordão de Michio Kaku, acrescente mais dimensões e as contas ficam mais 
> fáceis e com soluções mais elegantes)
> 
> - Extensões de nossa ontologia justificadas/previstas teoricamente por outras 
> disciplinas (ao passo que a existência de uma filogenia que desembocou em 
> gnomos passou despercebida pela biogeografia e pelo registro fóssil)
> 
> - Maior neutralidade ideológica. Cranks quase sempre estão acusando a 
> existência de uma ditadura ideológica que os impede de serem reconhecidos, 
> uma conspiração de proporções vastas. Isso existem em algum grau com toda 
> ciência fringe/de fronteira. Por exemplo, os proponentes da psicologia 
> ecológica gibsoniana acusam neurocientistas e cientistas cognitivos de 
> estarem acometidos pela ideologia do "neurocentrismo". Proponentes de loop 
> quantum gravity acusam não estar recebeno dinheiro suficiente porque a 
> ideologia do momento é a conduzida pela M-theory por teóricos das super 
> cordas, como muito bem acusado por Lee Smolin.
> 
> Ainda assim, são exemplos em uma escala muito menor, por exemplo, dos 
> proponentes do Design Inteligente que acusam o mainstream científico de estar 
> acometido por um "materialismo científico" cego que possui como origem o medo 
> do Deus Judaico-Cristão (palavras do filósofo JP Moreland em seu penúltimo 
> livro) e estão realizando o trabalho de Satanás na Terra. Ou de Bob Lazar, 
> que acusa o departamento de defesa americano de estar escondendo tecnologias 
> de energia livre que foram adquiridas por engenharia reversa de discos 
> voadores construídos pelos Zeta Reticulianos.
> 
> Em suma, eu não estou exorcizando "estranheza", eu próprio endosso de vários 
> programas de pesquisa científicos profundamente não-ortodoxos. A ciência não 
> está nem aí para preservar nossas intuições, vários dos resultados mais belos 
> bem estabelecidos são profundamente contra-intuitivos. Mas nem tudo que é 
> "estranho" vale a pena ser investigado. Em alguns casos, discernir o que vale 
> a pena é muito difícil, fica a fronteira entre ciência, não-ciência, 
> pseudociência e ciência fringe.
> 
> Um forte abraço.
> 
> 2011/9/16 Decio Krause <[email protected]>
> Prezada juventude lógica (às vezes nem tanto)
>       Creio que o debate entre vocês às vezes vai meio longe, daqui há pouco 
> vão estar se encontrando na esquina para decidir no tapa se Popper era ou não 
> chegado a algumas concepções. Olha, se procuram "teorias" estranhas, querem 
> algo mais maluco do que a dos multiversos? O que se sabe é que essas coisas 
> estão fazendo com que tenhamos que redefinir o que seja física. Da mesma 
> forma, há quem discuta se uma "prova" feita por um computador é ou não uma 
> demonstração aceitável, etc. 
>       O Walter tem razão: se querem ir para o tapa, vão por coisas mais 
> interessantes do que tentar interpretar Popper sem conhecer Popper (não acho 
> que qualquer um aqui seja um especialista na sua obra).
> Que lhes parece?
> Abraços apaziguadores,
> Décio
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> Decio Krause
> Departamento de Filosofia
> Universidade Federal de Santa Catarina
> 88040-940 Florianópolis, SC -- Brasil
> deciokrause[at]gmail.com
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> (G.W.Leibniz)
> 
> 
> 
> 
> 
> 
> Em 16/09/2011, às 19:03, Manuel Doria escreveu:
> 
>> Prezado Álisson, o único sendo agressivo aqui é você, novamente.
>> 
>> Eu acabei de alegar que eu poderia *inventar* na hora uma teoria
>> ecologicamente e patologicamente consistente de vampiros. Se você julga que
>> esse mero fato, de eu ter tirado do meu chapéu um troço tão extravagante,
>> não é razão suficiente para considerar como "trivial" minha teoria de
>> vampiros, isso apenas significa que o escopo de teorias que você tem
>> considerações epistêmicas - teorias que você *leva a sério* - é muito mais
>> vasto do que o meu.
>> 
>> Se essa forma de pensar procedesse, então todo autor decente de ficção
>> científica estaria lançando conjecturas e hipóteses que merecem ser levadas
>> a sério. Em alguns casos isso procede - ficção científica já inspirou
>> programas de pesquisa interessantes - mas a maior parte das hipóteses
>> formuladas não vale a pena de ser investigada. Quando você não é um
>> pesquisador independente, o tempo é curto, a pesquisa é cara, você tem
>> deadlines e você tem que mostrar resultados.
>> 
>> Eu posso inventar várias teorias falseáveis e intrincadas de abduções por
>> alienígenas, gnomos jardineiros e a sobrevivência de Elvis pós-1977.
>> 
>> Entretanto, se eu for submeter esses modelos teóricos em periódicos top de
>> criminologia, primatologia (vamos assumir que gnomos são um off-shot da *
>> Hominoidea*) e história contemporânea, eu na melhor das hipóteses terei meu
>> trabalho rejeitado e provavelmente serei ridicularizado pelos editores ou
>> eles acharão que estou pregando uma peça. Serei ridicularizado *com razão*,
>> porque a ciência vigente é guiada por critérios pragmáticos que nos fazem
>> não levar a sério esse tipo de elocubrações.
>> 
>> A maior parte das teorias falseáveis são triviais *nesse* sentido, de não
>> merecerem alocação de recursos governamentais para pesquisas, como minha
>> teoria de vampiros. Se algum milionário excêntrico pretender financiar
>> infectologistas para pesquisar o vampirismo, seus vetores de transmissão,
>> sintomas e possível cura, bom, cada um é livre para fazer o que quiser com
>> seu dinheiro. Eu pessoalmente acho que é jogar dinheiro fora.
>> 
>> Abraços.
>> 
>> 2011/9/16 Álisson Linhares <[email protected]>
>> 
>>> Manuel,
>>> 
>>> Partindo de sua estratagema e ironia quanto a teorias que não lhe convém:
>>> 
>>> 
>>> "Eu posso inventar agora uma teoria bem elaborada de vampiros como humanos
>>> contaminados por neuroparasitas transmissíveis por morcegos hematófagos que
>>> adquirem fotofobia e hábitos antropofágicos em decorrência da doença. Vai
>>> ser plenamente falseável, mas não será uma teoria científica senão iremos
>>> trivializar o que se compreende por ciência." - Manuel Doria
>>> 
>>> Isso pode sim ser uma teoria científica falseável como você mesmo disse;
>>> mas se você a considera trivial, é problema seu, da mesma foram como deve
>>> achar tantas outras teorias triviais. Deixe, quem quiser, procurar a
>>> falseabilidade dessa teoria por fatos e não por atitudes deliberadas como a
>>> sua, que a julga falsa e totalmente irreal sem *nenhum* argumento. Você
>>> busca convencer pelo medo e ironia, como já percebi em algumas conversas,
>>> não busca dialogar, busca discutir.
>>> Jogue seu disco, que uso meu escudo para me proteger de seus ataques
>>> agressivos.
>>> 
>>> Em 16 de setembro de 2011 18:09, FAD 2 <[email protected]> escreveu:
>>> 
>>>> Prova e te dou um, vários contraexemplos. O critêrio de Popper é irreal.
>>>> 
>>>> Sent from my iPhone
>>>> 
>>>> On 16/09/2011, at 16:32, "Carlos Santos Jr." <[email protected]>
>>>> wrote:
>>>> 
>>>>> Essa eh uma hipotese testavel popperianamente.
>>>>> 
>>>>> On Friday, September 16, 2011, FAD 2 <[email protected]> wrote:
>>>>>> Nenhum físico funciona pelo
>>>>>> Critério de Popper.
>>>>>> 
>>>>>> Sent from my iPhone
>>>>>> 
>>>>>> On 16/09/2011, at 08:14, "Carlos Santos Jr." <[email protected]
>>>> 
>>>> wrote:
>>>>>> 
>>>>>>> Prezados,
>>>>>>> 
>>>>>>> O criterio para definir ciencia nao deve ser o mesmo para decidir
>>>> quais
>>>>>>> coisas financiar. Mesmo a matematica e a filosofia nao sendo ciencia
>>>> (e
>>>>>>> muitas vezes a "ciencia" da computacao e a Historia tambem nao),
>>> elas
>>>> sao
>>>>>>> uteis. Assim, a decisao do que financiar eh mais complexa do que "eh
>>>>>>> ciencia?".
>>>>>>> 
>>>>>>> E eu nao acho que a separacao do que e' e do nao e' ciencia seja
>>>> dificil ou
>>>>>>> nebulosa. A decisao de aceitar o criterio do Popper eh pessoal, mas
>>> eu
>>>> nunca
>>>>>>> ouvi outro criterio melhor. Resumindo, eh teste de hipotese definida
>>>> antes
>>>>>>> da coleta de dados. O pesquisador tem que arriscar.
>>>>>>> 
>>>>>>> Nao ter objeto de estudo eh complicado, hein?! Alguem poderia assim
>>>> estudar
>>>>>>> Deus atraves dos humanos feitos a sua imagem e semelhanca.
>>>>>>> 
>>>>>>> Abracos,
>>>>>>> Carlos.
>>>>>>> 
>>>>>>> 2011/9/16 Vitor Moura <[email protected]>
>>>>>>> 
>>>>>>>> Manuel,
>>>>>>>> 
>>>>>>>> "ovelha negra" ou não, ela atende o critério da falseabilidade,
>>> então
>>>>>>>> realmente não faz sentido o Shermer incluí-la na categoria de
>>>> pseudociência.
>>>>>>>> .
>>>>>>>> 
>>>>>>>> Um abraço,
>>>>>>>> Vitor
>>>>>>>> 
>>>>>>>> 
>>>>>>>> ________________________________
>>>>>>>> De: Manuel Doria <[email protected]>
>>>>>>>> Para: Vitor Moura <[email protected]>
>>>>>>>> Cc: "[email protected]" <[email protected]
>>>> ;
>>>> "
>>>>>>>> [email protected]" <[email protected]>
>>>>>>>> Enviadas: Quinta-feira, 15 de Setembro de 2011 16:37
>>>>>>>> Assunto: Re: [Logica-l] Pseudoscience
>>>>>>>> 
>>>>>>>> 
>>>>>>>> Vitor, isso é um apelo à autoridade. Não é exatamente que a AAAS
>>>> reconhece
>>>>>>>> parapsicologia/psicologia anomalítica como "ciência legítima", foi
>>>> feita uma
>>>>>>>> votação em 1969 para saber se a Parapsychological Association
>>> poderia
>>>> ser
>>>>>>>> integrada aos afiliados da AAAS:
>>>>>>>> 
>>>>>>>> http://www.aaas.org/aboutaaas/affiliates/
>>>>>>>> 
>>>>>>>> A votação não foi consensual e não se decide o que é ciência ou não
>>>> por
>>>>>>>> meio de uma votação (esta foi proposta pela finada antropóloga
>>>> Margaret
>>>>>>>> Mead). A Parapsychological Association é uma "ovelha negra" da AAAS
>>> e
>>>> muitos
>>>>>>>> de seus membros criticam sua permanência na instituição.
>>>>>>>> 
>>>>>>>> Um forte abraço.
>>>>>>>> 
>>>>>>>> 
>>>>>>>> 2011/9/15 Vitor Moura <[email protected]>
>>>>>>>> 
>>>>>>>> E o autor (Shermer) também errou em considerar a Parapsicologia
>>> como
>>>>>>>> pseudociência. A Parapsicologia é reconhecida como ciência legítima
>>>> desde
>>>>>>>> 1969 pela AAAS, a maior associação científica do mundo.
>>>>>>>>> 
>>>>>>>>> 
>>>>>>>>> ________________________________
>>>>>>>>> De: Marcelo Siqueira <[email protected]>
>>>>>>>>> Para: Francisco Antonio Doria <[email protected]>
>>>>>>>>> Cc: [email protected]; [email protected]
>>>>>>>>> Enviadas: Quinta-feira, 15 de Setembro de 2011 14:10
>>>>>>>>> Assunto: Re: [Logica-l] Pseudoscience
>>>>>>>>> 
>>>>>>>>> 
>>>>>>>>> Também não concordo com o princípio da delimitação entre o que é
>>>>>>>>> pseudo-ciência e ciência: a primeira seria apenas aquilo que
>>> ameaça
>>>> nossos
>>>>>>>>> interesses científicos, recursos para financiar pesquisas etc???
>>>> Segundo o
>>>>>>>> 
>>>>> 
>>>>> --
>>>>> Carlos D Santos Jr., PhD
>>>>> Research Fellow @ University of Nottingham
>>>>> https://www.horizon.ac.uk/
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