Caro Prof. Desidério:

Existem publicações e estudos acadêmicos de outras linhas filosóficas além
da Ocidental, mas, se observarmos os currículos dos Cursos de Filosofia
sediados nos países ocidentais, iremos observar uma lista quase imutável de
filósofos a serem estudados, dentro de um cânone estabelecido há séculos,
com poucas atualizações.

As filosofias Vedanta, Sânquia e outras têm, neste contexto, no máximo, um
papel coadjuvante, se não são completamente ignoradas e esquecidas pelos
acadêmicos ocidentais, embora as mesmas detenham uma importância até talvez
superior à maioria das linhas filosóficas ocidentais.

Isto soa como parcialidade e até arrogância por parte dos acadêmicos do
Ocidente.

Tal atitude é análoga à da Medicina Ocidental com respeito a várias formas
de terapias holísticas que têm sido divulgadas à margem das academias
ocidentais: as mesmas são ignoradas, desacreditadas ou até ridicularizadas
por parte dos médicos, já que os mesmos não querem perder o monopólio que
hoje detém com respeito à aplicação de recursos públicos. Exemplifico:
Acupuntura, Cromoterapia, Reiki, Fitoterapia, etc.

Buda foi originalmente um filósofo que buscou uma solução para o problema da
morte, doença e velhice. Passou uma boa parte de sua vida pesquisando, até
encontrar uma solução quando meditava sob uma figueira, a qual buscou
transmitir aos demais nos cinqüenta anos seguintes, até encontrar o Nirvana.
Ele nunca buscou impor dogmas a ninguém, apenas queria que os demais
examinassem, e não concordassem, com o que ele dizia. Mais tarde foi
indevidamente endeusado, e formou-se uma "religião" convencional, ao
contrário de suas propostas filosóficas originais.

Isto aconteceu diversas vezes no Oriente, onde muitos sistemas filosóficos
vieram a se transformar depois em "religiões" dogmáticas. Vem acontecendo
algo análogo no Ocidente, onde a Ciência vem se transformando em uma
ideologia dogmática, em um tipo de "religião" sem templos, ou melhor,
adotando as atuais "universidades" como templos. Outro exemplo de ideologia
travestida de "Ciência" está na Igreja Positivista do Brasil
(http://www.igrejapositivistabrasil.org.br).

Certas pessoas, pela sabedoria ímpar que demonstram, merecem para mim um
tipo de reverência, o que não implica em aceitar dogmas sem exame ou algo
assim. Merecem reverência pelos seus atos e pela sublimidade dos seus
ensinamentos. Um exemplo está em Bertrand Russell. O que vem dele merece
para mim uma atenção e devoção mais detalhadas, pela perspicácia de seu
poderoso intelecto. Já o que viesse, por exemplo, do Presidente Bush, não
iria merecer, de mim, a priori, uma maior atenção, dado o que conheço a
respeito dele. O tempo da gente é bem limitado, daí não podemos perder tempo
examinando, lendo ou ouvindo tudo o que é escrito e falado, mas sim só
aquilo que for mais promissor, que for mais provável de conter algo de real
valor.

Não vejo diferença essencial entre Filosofia, Religião e Ciência. Tais
diferenças podem consistir apenas nos métodos e atitudes, mas não no âmago
do que busca cada uma.

Filosofia - busca intelectual da Verdade.
Religião - busca da consciência do Todo.
Ciência - busca intelectual do Conhecimento dos diversos aspectos da
Existência.

Em seu mais alto grau, vejo que as três se encontram no ápice da mesma
pirâmide.

Dizes que "a filosofia não serve primariamente para dar conforto
espiritual", mas isto é apenas uma opinião tua, não de todos.

Uma boa filosofia deveria servir para todos os fins, para mobilizar todo o
organismo humano em suas mais diversas facetas. Tal foi a proposta original
de Platão. Tenho ouvido falar da "terapia filosófica"
(http://www.filosofiaclinica.com.br), que buscaria aplicar a Filosofia para
aliviar muitos do desconforto existencial que sentem.

Hoje querem reduzir a Filosofia a um simples brinquedo, a um jogo de montar
quebra-cabeças intelectuais, a uma forma de diversão, e não a uma séria
busca da Verdade. Isto jamais foi o propósito das Academias Gregas
originais. Era exigido dos alunos destas academias um comprometimento total
de suas vidas à busca da Verdade. Quem queria apenas brincar jamais seria
aceito em tais academias.

Um abraço,
Arthur Buchsbaum


-----Mensagem original-----
De: [EMAIL PROTECTED] [mailto:[EMAIL PROTECTED]
Em nome de Desidério Murcho
Enviada em: quarta-feira, 17 de setembro de 2008 15:46
Para: Logica-L
Assunto: Re: [Logica-l] falhas graves da "filosofia" acadêmica ocidental

Caro Arthur

Se me permites, acho que estás a fazer duas confusões. 

A primeira, é que quando em filosofia se respeita as ideias de alguém
deixamos de fazer filosofia e passamos a fazer hagiografia. Isso era o que
já tínhamos antes de os primeiros filósofos terem desatado a fazer
filosofia. Portanto, não podes pedir respeito por Buda ou seja quem for se
ao mesmo tempo queres que eles sejam discutidos em filosofia. Porque fazer
filosofia é discutir ideias, e não catequizar, venerar ou aceitar.

A segunda é que estás a confundir o facto de não saberes o que se estuda em
filosofia hoje com um qualquer preconceito contra o que tu pensas que é
muitíssimo importante. Se fores ao Philosophy Compass
(http://www.blackwell-compass.com/subject/philosophy/) encontras uma secção
dedicada à filosofia chinesa comparativa. Se folheares mesmo um dicionário
pequeno de filosofia como o do Blackburn (Dicionário Oxford de Filosofia),
encontras inúmeras entradas para temas e autores da filosofia indiana e
chinesa. Se quiseres ler revistas académicas sobre filosofia chinesa, podes
ler a Journal of Chinese Philosophy. Se quiseres obras de referência podes
ler online vários artigos sobre vários temas e autores orientais na SEP
(http://plato.stanford.edu/), assim como Companions da Cambridge
(http://cambridge.org/us/series/sSeries.asp?code=CCP) dedicados à filosofia
árabe e a Maimónides. 

Contudo, não sei se estás realmente interessado em qualquer destas leituras,
porque me parece que confundes sistematicamente a filosofia com religião.
Parece-me que procuras conforto espiritual, bem-estar de alma, enfim, o que
é perfeitamente legítimo. Cada qual procura o que quer. Só que isso não é
filosofia porque filosofia não é religião. A filosofia não é a aceitação das
ideias destas ou daquelas pessoas, mas antes a discussão dessas ideias. A
filosofia não serve primariamente para dar conforto espiritual, mas antes
para procurar a verdade e a verdade raramente é confortável para quem
procura conforto espiritual. 

Um abraço,
Desidério

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