Camaradas, essa discussão é realmente muito interessante. 
Com relação ao livro do Haddad, não o li e não posso me pronunciar, mas 
conferi o texto disponibilizado online, mencionado pelo JM. Não é a 
primeira vez q Haddad escreve mesclando experiência pessoal com política. 
Por melhor escritor ele seja, e por mais q seja nele o meu voto 
institucional para o governo do estado, sugiro a leitura de Bourdieu, "A 
ilusão biográfica". 
Com relação à discussão matemática, propriamente, não tenho competência 
para discutir os desenvolvimentos da matemática no século XX. Se escrevo, 
então, é na tentativa de não parecer demasiado arbitrário para lembrar 
apenas uma perspectiva q estudei um pouco e, penso eu, pode ajudar a pensar 
certos aspectos da discussão, uma vez q, como professor de filosofia, não 
posso deixar de notar q o labirinto do continuum de Leibniz ainda causa 
grandes especulações. 
A questão da validade do 3º excluído aparece já na filosofia de C.S. 
Peirce. Peirce critica a identificação do conjunto dos números reais com um 
genuíno continuum, mas eu não vou entrar nisso aqui, pois não conseguiria 
resumir e envolve mais matemática do q eu conheço. Vou direto para a 
concepção de continuidade, que CSP entende de duas maneiras, segundo as 
suas categorias de primeiridade (relativa a puras possibilidades, o que ele 
chama de "vagueness", vagueza), segundidade (relativa a existências reais, 
ou fatos brutos, como ele se expressa) e terceiridade (relativa a mediações 
semióticas e, por conseguinte, generalidades). CSP afirma que o 3º excluído 
não se aplica ao que é geral, ao passo que o princípio de contradição não 
se aplica ao que é vago. Vagueza e generalidade são *continua*, no sentido 
de que alguma qualidade no *contínuo *de qualidades ou nunca pode ser 
identificada com precisão absoluta e, portanto, só pode ser entendida como 
uma variação infinitesimalmente pequena do aspecto qualitativo em questão, 
ou pode vir a ser identificada, embora nem sempre o seja.  
CSP não quer dizer que. para uma proposição *p *, nem tanto *p *como 
*não-p *são válidos ou inválidos, ou seja, ele não afirma q vários valores 
de verdade são possíveis para uma mesma situação conhecida. Peirce enfatiza 
propriedades na lógica de predicados: para todas as propriedades *p *, 
nenhum sujeito tem e simultaneamente não tem a propriedade *p * (nem tanto 
“S é P” quanto “S não é P”), e assim o princípio da não-contradição apenas 
vale para itens (sujeitos, se pensarmos numa proposição categórica) 
*explicitamente 
definidos. *Mas a vagueza não é exatamente uma propriedade, é o domínio do 
q é apenas possível, e possibilidades não podem ser esses itens ou 
sujeitos. O estatuto metafísico das possibilidades é assim – e este é um 
movimento típico de Peirce – definido por uma interpretação ontológica dos 
princípios lógicos. Ontologicamente falando, há possibilidades e, como 
tais, possibilidades não excluem as suas contrárias *im*possibilidades.  Em 
outras palavras, se algum sujeito singular é ou não uma instância de uma 
certa possibilidade, isso não pode ser decidido com base na possibilidade 
ela mesma - se um sujeito pode ser, esse seu "poder-ser" não exclui o seu 
"poder-vir-a-não-ser". O fato de o princípio da não-contradição não valer 
refere-se, assim, ao caráter modal das entidades que a categoria de 
primeiridade descreve (digamos assim, perdoem-me a expressão). A expressão 
lógica dessa situação é que “S pode ser P” e “S pode ser não-P” podem ser 
ambas proposições verdadeiras. Assim, tanto “Pode chover amanhã” quanto 
“Pode não chover amanhã” são verdadeiras.
A generalidade também é contínua, mas, por outro lado, pode ser 
especificada relativamente às suas instâncias particulares em eventos reais 
e, por isso, o 3º excluído não vale para ela. Assim como antes, não devemos 
entender essa afirmação tendo em mente a formulação do 3º excluído de que 
uma proposição *p *pode ser V ou F ou nenhuma das duas coisas. Assim, não 
podemos afirmar que proposições referentes a mediações gerais, v.g, "Todos 
os prefeitos são políticos", aceitam um terceiro valor de verdade, como 
seria o caso se fosse descartado o 3º excluído tal como concebido pela 
lógica proposicional mais conhecida atualmente. A ideia de CSP é que, para 
todas as propriedades *P, *qualquer sujeito tem propriedade *P *ou não (ou 
“S é P” ou “S é não-P”). Mais uma vez, o princípio vale explicitamente 
apenas para indivíduos definidos. Dessa forma, dizer que o 3º excluído não 
se aplica remete ao estatuto ontológico do tipo de possibilidades que são 
gerais e caracterizadas pela terceiridade , ou seja, algo da natureza de um 
poder ser – e estes não são os sujeitos exigidos pelo 3º excluído. Aqui, a 
expressão lógica é que tanto “S tem que ser P” quanto “S tem que ser não-P” 
podem ser falsos (“É necessário chover amanhã” e “Não é necessário chover 
amanhã”). E mesmo que ocorra um caso especial, a falha geral do 3º excluído 
se deve ao fato de que os objetos singulares do *continuum *de 
possibilidades permanecem indeterminados em relação a todos os aspectos que 
não são abrangidos pela possibilidade real do *continuum* em questão. 
Assim, esses objetos possuem muitos aspectos indeterminados. Disso, CSP 
pode concluir: “O geral pode ser definido como aquilo a que o princípio do 
terceiro excluído não se aplica. Um triângulo em geral não é isósceles, nem 
equilátero; nem é um triângulo em escaleno geral [mas algum triângulo tem 
de ser, ele afirma alhures]. O vago pode ser definido como aquilo a que o 
princípio de contradição não se aplica. Pois não é falso que um animal (num 
sentido vago) seja macho, nem que um animal seja fêmea [mas se não é nem 
uma nem outra coisa, só é possível dizer especificando o indivíduo]”. [CP 
5.505]. Outras especificações de continuidades são igualmente possíveis e 
indeterminadas (diferentes tipos de triângulos), enquanto no caso de 
imprecisões podem aparecer propriedades contraditórias (animais 
hermafroditas ou sem gênero). Em outras palavras, relativamente à secundidade, 
a categoria dos fatos brutos e da existência determinada, uma existência 
real pode ser definida pela validade de ambos os princípios, pois a 
individualidade, quando considerada como a determinação completa de todas 
as propriedades, deve obedecer a ambos os princípios: é necessário a um 
determinado indivíduo possuir a propriedade *p *ou não a possuir (possuir a 
sua contraditória *não-p*), mas não ambas: "Embora os princípios de 
contradição e 3º excluído possam ser considerados como se constituíssem, 
juntos, a definição da relação expressa por 'não', ainda assim, eles também 
implicam que tudo o que existe consiste em indivíduais”. [CP 3.612]. Em 
resumo, é um ato pragmático de "asserção" q torna possível determinar o que 
se fala, e como, e porque é isto e não aquilo etc. 
Peirce, no entanto, e sem surpresa alguma, é claro, não aceitava a 
determinação absoluta de todas as propriedades como uma definição do modo 
existencial dos objetos ou eventos individuais e reais, pois isso tornaria 
impossível superar a descontinuidade. Vagueza e generalidade também são 
inerentes à existência individual, ainda que de forma “infinitesimal” (por 
falta de uma palavra melhor), em contraste com as duas categorias de 
possibilidade contínua. É por isso que Peirce mantém uma definição 
(platônica, note-se) de existência individual como *reatividade *: “Tudo o 
que existe, ex-iste *, isto *é, realmente age sobre outros existentes, 
então obtém uma auto-identidade e é definitivamente individual”. [EP II: 
342]. Eu poderia reagir ou ter reagido contra a minha vontade, diz ele em 
outro lugar. De acordo com essa definição, portanto, apenas objetos ideais 
podem ser absoluta e completamente determinados, e assim a determinação 
totalmente completa e absoluta e a submissão aos princípios do 3º excluído 
e de contradição só é possível para objetos ou eventos ideais. Poder-se-ia 
destacar indivíduos singulares em todas as dimensões da realidade e níveis 
do discurso sem impor absolutamente a exigência ontológica da determinação 
completa, pois a reatividade é o caráter definidor da *haecceitas *do 
indivíduo. Parece q, ao menos isso, estamos vendo bem nos nossos tempos. 
Nas histórias da matemática q eu conheço, raramente o nome de C. S. Peirce 
é mencionado; às vezes, seu pai, Benjamin Peirce, é lembrado como 
descobridor da idempotência, e quase só isso. É compreensível, vez q CSP 
era um outsider mesmo enquanto vivo e a narrativa dominante do 
desenvolvimento da lógica e da matemática no século XX tornou hegemônica 
uma história q inclui Cantor, Frege, Russell-Whitehead, Gödel, ZF em linha 
mais ou menos contínua. Ultimamente, as contribuições de CSP têm sido 
recuperadas. Eu, particularmente, não acho q se trata apenas de 
contribuições potenciais à história da lógica, uma vez q Tarski conhecia 
muito bem os trabalhos de CSP (as palestras na UNICAMP mostram isso) e q o 
teorema de Löwenheim-Skolem pode ser remontado aos escritos sobre lógica 
dos relativos (ver o trabalho de Geraldine Brady). Então, dada essa 
digressão, penso q é bastante razoável considerar q sempre é possível 
pragmatizar as nossas dicotomias de modo a usar a lógica sem sacrificar as 
possibilidades, q sempre existem, mesmo q momentaneamente não consigamos 
identificá-las. Mas alguém consegue e isso é o q faz diferença. 
Perdoem-me se escrevo demais, tenho essa tendência a ser prolixo, mas é por 
receio de errar. 
Abraços,
cass. 
 


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