> Essa é fácil. Vai para a estante de sociologia, apesar do título.
>
> Mas o assunto evocado no título e que nos remete à lógica, dialética e 
> princípio do terceiro excluído (talvez ausente neste livro), não está de modo 
> algum liquidado e um trabalho sério sobre o tema poderia figurar na estante 
> de lógica...

Obrigado pela excelente e provocadora resposta, Márcio.

No prefácio, que dá para ler online a partir do link que eu mandei
antes, o autor ---que é bacharel em Direito, mestre em Economia,
doutor em Filosofia, e professor de Ciência Política da USP--- fala de
uma visita que recebeu do Chomsky (quando se encontrava em uma
campanha política na qual "perdeu para um psicopata"), e diz que o
livro em tela foi inicialmente pensado como uma crítica do modelo
econômico brasileiro calcado no patrimonialismo e na escravidão, mas
acabou virando um pequeno tratado transitando da biologia para a
antropologia, e desta para a linguística, informado pela filosofia,
pela economia e pela sociologia.  (É fascinante, independentemente
disto, ler sobre a formação humana e atuação política do autor, neste
mesmo prefácio.)

> O John Lane Bell (não confundir com John Stewart Bell) conclui sua análise 
> sobre o problema da variação contínua com a seguinte observação:
>
> "Marx and Engels, and their Marxist successors, thought that the analysis of 
> variation would require the creation of a dialectical logic or a “logic of 
> contradiction”. But traditional logic survived in mathematics, largely as a 
> result of the replacement of variation by stasis at the hands of the great 
> nineteenth century arithmetizers Weierstrass, Dedekind and Cantor. As we have 
> seen, Cantor replaced the concept of a varying quantity by that of a 
> completed, static domain of variation which may be regarded as an ensemble of 
> atomic individuals—thus, like the Pythagoreans, replacing the continuous by 
> the discrete. He also banished inf i nitesimals and the idea of geometric 
> objects as being generated by points or lines in motion.
>
> But as we know, certain mathematicians and philosophers raised objections to 
> the idea of “discretizing” or “arithmetizing” the linear continuum. Brentano, 
> for example, rejected the idea that a true continuum can be completely 
> analyzed into a
> collection of discrete points, no matter how many of them there might be.
>
> It was only with Brouwer, for whom the phenomenon of temporal variation was 
> fundamental, that logic became an issue within mathematics. Rejecting the
> Cantorian account of the continuum as purely discrete, Brouwer identif i es 
> points on the line as entities “in the process of becoming” in a temporal, 
> even subjective sense, that is, as embodying variation generating a potential 
> inf i nity. He rejects the law of excluded middle for such objects, a move 
> which led, as we have seen, to a new form of logic, intuitionistic logic. It 
> is a remarkable fact that this logic is compatible with a very general 
> concept of variation, which embraces all forms of (objective) continuous 
> variation, and which in particular allows the use of (continuous) 
> infinitesimals. While its roots lie in the subjective, intuitionistic logic 
> is thus revealed to have an objective character.
>
> The application of intuitionistic logic to resolve the contradiction 
> engendered by variation shows that it was not in the end necessary—as claimed 
> by dialectical philosophy—to reject the law of noncontradiction, but rather 
> its dual the
> law of excluded middle."
>
> (Apêndice E do livro "The Continuous, the Discrete
> and the Infinitesimal in Philosophy and Mathematics".)
>
> Essa opinião é interessante, especialmente porque ele parece ter sido o 
> orientador de doutorado do Graham Priest.

Sobre Cantor e o terceiro excluído, ainda, vale notar que este artigo
postado no arXiv em 2019 (mesmo ano em que foi publicado o livro do
John L Bell sobre o contínuo e o infinitesimal?), e atualizado pela
última vez há apenas dois meses, afirma que o teorema de
Cantor-[Schröder]-Bernstein não pode ser demonstrado sem apelo ao
Princípio do Terceiro Excluído:
https://arxiv.org/abs/1904.09193
Isto tem um impacto importante, claro, na caracterização da ordem
usual entre cardinais transfinitos.

Fiquei curioso agora em saber o que mais John L Bell teria a dizer
sobre concepções potencialistas em Filosofia da Matemática, uma vez
que se permita que o construtivismo contribua à matemática com sua
abordagem sensível à variância temporal e se possa recuperar com isso
alguns aspectos da dialética hegeliana / marxiana.

> Aí onde ele deixou o problema, parece que temos um bom ponto de partida para 
> uma pesquisa séria sobre o assunto.

Sem dúvida!

Abraços,
Joao Marcos

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