Prezado João Marcos,

Segue aqui o trecho onde Olavo alega ter revelado raciocínios falaciosos
por parte de Georg Cantor:

Só para dar um exemplo: O célebre Georg Cantor acreditou poder refutar o 5º
princípio de Euclides ( de que o todo é maior que a parte ) pelo argumento
de que o conjunto dos números pares, embora sendo parte do conjunto dos
números inteiros, pode ser posto em correspondência biunívoca com ele, de
modo que os dois con- juntos teriam o mesmo número de elementos e, assim, a
parte seria igual ao todo: 1, 2, 3, 4..... n 2, 4, 6, 8..... 2n = n Com
esta demonstração, Cantor e seus epígonos acreditavam estar derrubando,
junto com um princípio da geometria antiga, também uma crença estabelecida
do senso comum e um dos pilares da lógica clássica, descortinando assim os
horizontes de uma nova era do pensamento humano. Esse raciocínio baseia-se
na suposição de que tanto o conjunto dos números inteiros como o dos pares
são conjuntos infinitos atuais, e ele pode portanto ser re- jeitado por
quem acredite, com Aristóteles, que o infinito quantitativo é só potencial,
nunca atual. Mas, mesmo aceitando-se o pressuposto dos infinitos atuais, a
demons- tração de Cantor é apenas um jogo de palavras, e bem pouco
engenhoso no fundo. Em primeiro lugar, é verdade que, se representarmos os
números inteiros cada um por um signo ( ou cifra ), teremos aí um conjunto
( infinito ) de signos ou cifras; e se,nesse conjunto, quisermos destacar
por signos ou cifras especiais os números que representem pares, então
teremos um “segundo” conjunto que será parte do primeiro; e, sendo ambos
infinitos, os dois conjuntos terão o mesmo número de ele- mentos,
confirmando o argumento de Cantor. Mas isso é confundir os números com seus
meros signos, fazendo injustificada abstração das propriedades matemáticas
que definem e diferenciam os números entre si e, portanto, abolindo
implicitamente também a distinção mesma entre pares e ímpares, na qual se
baseia o pretenso ar- gumento. “4” é um signo, “2” é um signo, mas não é o
signo “4” que é o dobro de 2, e sim a quantidade 4, seja ela representada
por esse signo ou por quatro bolinhas. O conjunto dos números inteiros pode
conter mais signos numéricos do que o con- junto dos números pares— já que
abrange os signos de pares e os de ímpares—, mas não uma maior quantidade
de unidades do que a contida na série dos pares. A tese de Cantor escorrega
para fora dessa obviedade mediante o expediente de jogar com um duplo
sentido da palavra “número”, ora usando-a para designar uma quantidade
definida com propriedades determinadas ( entre as quais a de ocupar um
certo lugar na série dos números e a de poder ser par ou ímpar ), ora para
designar o mero signo de número, ou seja, a cifra. A série dos números
pares só é composta de pares porque é contada de dois em dois, isto é,
saltando-se uma unidade entre cada dois números; se não fosse con- tada
assim, os números não seriam pares. De nada adianta aqui recorrer ao
subter- fúgio de que Cantor se refere ao mero “conjunto” e não à “série
ordenada”; pois o conjunto dos números pares não seria de pares se seus
elementos não pudessem ser ordenados de dois em dois numa série ascendente
ininterrupta que progride pelo acréscimo de 2, nunca de 1; e nenhum número
poderia ser considerado par se pudesse livremente trocar de lugar com
qualquer outro na série dos inteiros. “Pari- dade” e “lugar na série” são
conceitos inseparáveis: se n é par, é porque tanto n+1 como n-1 são
ímpares. Nesse sentido, é unicamente a soma implícita das unidades não
mencionadas que faz com que a série de pares seja de pares. Portanto— e eis
aqui a falácia de Cantor—, não há aqui duas séries de números, mas uma
única, contada de duas maneiras: a série dos números pares não é realmente
parte da série dos números inteiros, mas é a própria série dos números
inteiros, contada ou nomeada de uma determinada maneira. A noção de
“conjunto” é que, desta- cada abusivamente da noção de “série”, produz todo
esse samba-do-alemão-doido, dando a aparência de que os números pares podem
constituir um “conjunto” inde- pendentemente do lugar de cada um na série,
quando o fato é que, abstraída a posi- ção na série, não há mais paridade
ou imparidade nenhuma. Se a série dos números inteiros pode ser
representada por dois conjuntos de signos, um só de pares, outro de pares
mais ímpares, isto não significa que se trata de duas séries realmente
distin- tas. A confusão que existe aí é entre “elemento” e “unidade”. Um
conjunto dex uni-dades contém certamente o mesmo número de “elementos” que
um conjunto dex pares, mas não o mesmo número de unidades. O que Cantor faz
é, no fundo, substancializar ou mesmo hipostasiar a noção de “par” ou
“paridade”, supondo que um número qualquer possa ser par “em si”, inde-
pendentemente de seu lugar na série e de sua relação com todos os demais
números (inclusive, é claro, com sua própria metade), e que os pares possam
ser contados como coisas e não como meras posições intercaladas na série
dos números inteiros. No seu “argumento”, não se trata de uma verdadeira
distinção entre todo e par- te, mas sim de uma comparação meramente verbal
entre um todo e o mesmo todo, diversamente denominado. Não se tratando de
um verdadeiro todo e de uma verda- deira parte, não se pode falar então de
uma igualdade de elementos entre todo e parte, nem, portanto, de uma
refutação do 5º princípio de Euclides. Cantor erra o alvo por muitos
metros.

Em qui, 25 de out de 2018 17:46, Joao Marcos <botoc...@gmail.com> escreveu:

> Como este assunto em princípio nada tem a ver com o "Dia Internacional
> da Lógica"
>
> https://groups.google.com/a/dimap.ufrn.br/d/msg/logica-l/lKvBQm5eOg8/JXqHZkv0BgAJ
> inicio outra thread para os interessados.
>
> On Thu, Oct 25, 2018 at 4:45 PM A***** N*** wrote:
> >
> > Acho que a questão é ignorar o Olavo (concordo com tudo que disseram
> acima dele).
>
> A*****, aí bem pertinho de você, em SC, uma advogada eleita deputada
> federal há três semanas com mais de 100 mil votos fez toda sua
> campanha se auto-descrevendo como "aluna do Olavo de Carvalho desde
> 2006".  Não dá para ignorar.
>
> * * *
>
> O alegado filósofo já é discutido ---e desmontado--- na LOGICA-L ao
> menos desde 2012 (discussão comentada aparentemente com cinco anos de
> atraso pelo Olavo no video que o Yuri enviou).  Exemplo:
>
> https://groups.google.com/a/dimap.ufrn.br/d/msg/logica-l/QFRRpcVLPnc/bA9vvh7Jer0J
> Também outros colegas nossos já dispenderam seu tempo com boçalidades
> que tinham a mesma origem, noutros lugares:
> http://adonaisantanna.blogspot.com/2015/02/olavo-de-carvalho.html
>
> Aparentemente o principal argumento apresentado por Olavo no dito
> video para se defender é de que "todos os membros da lista, um por um"
> são "pessoas incultas e incapazes de lidar com os problemas da
> realidade", pessoas que "não têm domínio da gramática do seu idioma" e
> que por isso "não têm o sentido da linguagem", e não são capazes de
> realizar uma "formalização lógica" por terem falhado em aprender antes
> a boa "formalização gramatical".  Afirma ali Olavo: "o uso
> inapropriado da linguagem comum e corrente expressa uma deficiência de
> percepção".
>
> Olavo afirma "se as pessoas estudam Lógica, é evidente que a ocupação
> delas diz respeito a provas e refutações", e sustenta que "ao longo da
> tradição filosófica [as provas e refutações] sempre significaram muito
> pouca coisa".  Em particular, no video, Olavo dá a impressão de
> reconhecer que _não_ teria tentado *refutar* a teoria dos Conjuntos
> Transfinitos de Cantor, "ao ter escrito apenas uma página e meia sobre
> o assunto em um livro de quatrocentas páginas" [alguém poderia postar
> aqui este trecho completo?], e diz que de fato não pode ter tentado
> refutar a teoria de Cantor, pois, segundo ele, qualquer "refutação
> cabal" demanda _centenas de páginas_, e consiste em "um trabalho muito
> mais sistemático e muito mais meticuloso".
>
> Por fim, no video o descrédito completo dos participantes da
> discussão, neste fórum (e de "todos os representantes da classe
> universitária brasileira", pessoas que são "despreparadas [...] mas
> não têm cultura"), se dá ao apontar que:
> "nenhum deles é autor de algum trabalho monumental nesta coisa [a
> Lógica], nenhum deles tá na altura, sei lá, do Newton da Costa ou do
> Alexandre Costa-Leite".
>
> * * *
>
> Joao Marcos
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