Camaradas, bons dias. 
Como se trata de dar opinião,  vou dar a minha, já q sou graduado e pós 
graduado em filosofia, pela UNICAMP, e tive uma formação pífia em lógica, 
pois na minha graduação havia 1 único semestre reservado para a disciplina 
e muito desprezado tanto pelo corpo docente quanto pelo discente. Estou 
falando da década de 1990, qdo a graduação em filosofia na UNICAMP era 
recém nascida. Hoje, creio eu, a situação é outra, tanto por parte da carga 
horária quanto por parte do interesse, e até onde sei muita coisa mudou, 
não apenas na UNICAMP. da qual podem falar com propriedade quem está lá. 
No entanto, para fazer o advogado do diabo e tentar apresentar um contexto 
mais amplo, não posso deixar de lembrar q "reservas de mercado" não surgem 
do nada e não sobrevivem pairando no céu. Relativamente ao concurso da UnB, 
o edital diz "graduação em filosofia", o que me parece incluir licenciatura 
e bacharelado, não? Posso estar enganado, não li o edital todo, mas se for 
realmente isso, a pessoa pode ter bacharelado em matemática, engenharia ou 
direito e licenciatura em filosofia (ou vice-versa) e estaria apta a 
prestar o concurso. Se for isso mesmo, não vejo tanto problema na 
exigência; é restritivo, mas nem tanto. Digo isso pq acho q cabe aqui 
lembrar q a carreira docente nas universidades brasileiras inclui a 
docência, apesar de muita gente não gostar disso. E a realidade no Brasil é 
q há mais cursos de filosofia com professores q são formados em teologia ou 
direito do q em filosofia (a CAPES, até bem pouco tempo,  reunia as áreas 
de Teologia e Filosofia, e a separação não mudou a realidade). Isso 
incapacita os professores a priori? Não creio q seja o caso. Mas é um fato 
a se pensar q nem Aristóteles, nem Galileo enfrentaram o contexto da 
profissionalização q hoje é imprescindível. Diploma não é garantia de 
conhecimento, mas se prescindirmos dos diplomas, então q seja abolida 
também a estrutura disciplinar, departamental e burocrática q sustenta a 
universidade como instituição de produção capitalista de conhecimento 
(lembremos q a "modernização" departamental foi uma imposição do regime 
militar, severamente criticada à época; hj, é praticamente um dado da 
natureza, tamanha a falta de questionamento). Não me parece q temos o q por 
no lugar em nenhum país do mundo e isso nada tem q ver com recusar a 
interdisciplinaridade; inclusive, eu diria q no atual estágio de 
capitalização das universidades no mundo, a interdisciplinaridade é um 
fator desejado para a reprodução do capital. Eu mesmo faço um elogio da 
interdisciplinaridade e sou a favor de concursos abertos à diferentes 
áreas, mas é preciso defender a especificidade da formação ao mesmo tempo, 
não apenas para a pesquisa, mas sobretudo para a docência, pois a 
interdisciplinaridade no conhecimento vem do aprofundamento específico - é 
por aprofundar o conhecimento na sua área q alguém busca o de outras, 
deixem-me dizer assim - é o próprio desenvolvimento das questões q leva à 
necessidade de recorrer a outros saberes, pois conhecer, pesquisar, 
filosofar ou fazer ciência são atividades essencialmente comunicativas. No 
contexto de fragmentação das áreas de conhecimento, a filosofia, coitada, 
parece q perdeu tanto terreno q até hoje sofre a perda da identidade, mas 
tb sofre de falta de respeito por parte de outras áreas, q são 
esquizofrênicas qdo se trata de lidar com a filosofia. Se é possível 
filosofar em alemão, tupi ou mesmo português, e poetas e até donos de 
padaria filosofam, ao mesmo tempo filosofia não é qualquer coisa q basta 
querer fazer para conseguir. A esquizofrenia está aí: ninguém sabe o q é 
filosofia, mas todo mundo quer filosofar e acha q consegue. Longe de mim 
dizer quem pode ou não fazer qq coisa, mas entre a intenção e o gesto vai 
uma distância e não me parece q seja possível muito menos desejável 
escamotear q para não ficarmos presos ao senso comum é fundamental a 
sistematização formal do conhecimento (e isso é um direito q as escolas 
públicas devem garantir aos estudantes, aliás). Ao mesmo tempo, na minha 
avaliação, o insulamento da área de filosofia no Brasil levou a tal 
ignorância e descolamento da realidade q resultaram em elitismos 
vergonhosos; mas mesmo internamente à filosofia o insulamento é terrível, 
muitos sequer reconhecem a importância de estudar com um mínimo de 
seriedade algo q não está na sua prateleira elegida (não é de escolhas 
pessoais q falo, afinal, cada um escolhe a sua área de dedicação por razões 
psicológicas, qdo a situação o permite). Felizmente, penso, isso está 
mudando, ainda que talvez de modo muito indutivo. O diploma garante alguma 
coisa, nesse sentido? Acho q não, ou muito pouco. Mas o diploma, não como 
documento, mas como resultado de um percurso, é prescindível? Não creio q o 
seja e acho q poderia ser melhor. 
Perdoem-me o relato pessoal, mas não é por desabafo, é para levar ao ponto 
q o faço. Na minha graduação, tive péssimos professores formados em 
qualquer área, simplesmente pq, apesar de contratados e pagos como 
professores, detestavam lecionar.  Eu tb não gostava tanto assim de ir às 
aulas, então, não faço condenações pessoais. E gostar de lecionar, é claro, 
tampouco garante a qualidade da aula. O ponto é o sentido da formação e o 
compromisso com a formação, q a meu ver deve necessariamente ir além do 
carreirismo pessoal. Muitos professores ainda hoje não lecionam um único 
curso sequer em vários anos ou, se conseguem, lecionam apenas na 
pós-graduação cursos q interessam aos seus orientandos (a UNICAMP era uma 
bolha elitista, naquela época; basta citar q havia pouquíssimos cursos 
noturnos e muitos em período integral). Já ouvi de mais de um colega q dar 
aulas é como um pedágio para fazer pesquisa. Então, pra q serve a 
indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão? Nem vou falar da 
função social da extensão, ultimamente muito debatida. Mas a continuar essa 
mentalidade, tanto faz o diploma, pois é muito fácil lecionar a bel-prazer. 
Falta de compromisso pedagógico e liberdade docente são coisas bem 
diferentes, e, falando especificamente agora, planejar e executar um curso 
de lógica que dialogue com a formação em filosofia, da perspectiva da 
lógica contemporânea, não é fácil e exige muito mais q conhecimento da 
disciplina, exige tanto formação em lógica e filosofia quanto formação 
pedagógica. Nesse sentido, é mesmo estranho q nesse edital a filosofia 
esteja ausente. Mas o q me parece ruim mesmo é a falta de exigência 
pedagógica, o q fica a critério da banca, no fim das contas. Mas será q o 
bacharelado basta e isso pode ser relegado ao juízo da banca? Faz sentido, 
pq, afinal, o último projeto nacional de formação de professores foi de 
fato o Normal (o Magistério foi um remanejamento para baixo do Normal) e as 
licenciaturas não dão conta dessa tarefa. 
Eu entendo q a finalidade da pesquisa é a formação do estudante, pois sem 
isso a própria pesquisa não continua, então acho muito complicado q para 
concursos de instituições regidas pela indissociabilidade citada baste o 
diploma de bacharel e a prova didática seja avaliada por pessoas cuja única 
formação docente é, na maioria das vezes, a própria experiência ou quase 
isso. Não vejo muito outro jeito, pois de temos de partir do real, mas sem 
imaginar um futuro diferente fica difícil mudar. 

Saudações, 
cass. 
On Wednesday, December 14, 2022 at 11:17:16 AM UTC-3 Joao Marcos wrote:

> > Me parece que a questão é a completa ausência de temas relacionados a 
> filosofia da lógica em um concurso para um departamento de filosofia.
>
> Não sei se dá para dizer que esta é "a questão", nesta thread, mas
> certamente é uma _outra questão_ importante, além daquela que foi
> levantada por João Ferrari.
>
> Vários anos atrás rolaram algumas conversas aqui interessantes sobre
> que temas deveriam fazer parte de um concurso como este. Uma thread
> nesta direção, do longínquo ano de 2008, foi esta, na qual
> participaram em particular os saudosos amigos Andrea Loparic e Carlos
> Gonzalez:
>
> https://groups.google.com/a/dimap.ufrn.br/g/logica-l/c/aBuc6Lyg4R0/m/y3OqInfGt6IJ
>
> Teria sido interessante acompanhar a evolução do tema ao longo dos
> anos, com a coleta evidencial de programas de concursos que já
> ocorreram, no país, para a área de Lógica na Filosofia. (Fiz isso
> durante vários anos, e divulguei sempre nesta lista. Depois me
> cansei, tendo notado haver pouco interesse na área de Filosofia para
> dar continuidade a este diálogo.)
>
> > O candidato que domina os 10 temas do concurso não necessariamente sabe 
> sobre como fazer filosofia. Independente da graduação.
>
> E será que a _graduação_ específica em Filosofia, neste caso,
> garantiria que o candidato aprovado "sabe sobre como fazer filosofia"?
> (Esta questão particular está claramente relacionada à questão
> original desta thread.)
>
> []s, JM
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