> Que tal a gente fazer uma espécie de abaixo assinado?

Vou tentar explicar em poucas palavras porque não acredito que um
abaixo-assinado teria qualquer utilidade prática.  Nestas linhas
usarei JYB como abreviatura para "o autor da PCNL".

Asserção 0. Fazendo um arremedo do que disse outro francês, "o *mau
gosto* é a coisa mais bem distribuída do mundo".
Digressão 0.0. (Sem comentários.)

Asserção 1. A PCNL é de *responsabilidade individual* de JYB.
Corolário 1.0. A responsabilidade pelo que aparece na PCNL *não se
transfere automaticamente* à comunidade de lógicxs ou
paraconsistentistas brasileirxs.
Corolário 1.1. A responsabilidade pelo que aparece na PCNL *não se
transfere automaticamente* às universidades brasileiras.  (Admito que
nem sempre é trivial estabelecer, contudo, o que fazemos
"profissionalmente" do que fazemos "na nossa identidade civil".  Mas é
parte da responsabilidade do profissional deixar isto claro.)

Asserção 2. Citando o que aquele outro francês provavelmente gostaria
de ter dito, "eu desaprovo o que dizeis, mas defenderei até a morte
vosso direito de dizê-lo".
Corolário 2.0. Muitas vezes não nos resta senão aceitar o erro *dos
outros*, erro este que deve ser *a eles* imputável.  (Isto se aplica
em particular a JYB, gostemos dele ou não.)  Outras vezes, também, não
nos resta senão ouvir o que não gostaríamos de ter que ouvir.  (Eu
próprio já ouvi nesta lista muita coisa que não precisava ter ouvido.)

Asserção 3. Filósofos e outros acadêmicos (brasileiros ou não),
principalmente aqueles que são pagos pelos respectivos Estados, têm
*responsabilidade social*.
Digressão 3.0. A este ponto ainda se aplicam, também, todos os
corolários anteriores.

Asserção 4. A *cultura do cancelamento* já tem feito demasiadas
vítimas neste mundo que navega hoje à deriva, ao sabor de redes
sociais.
Digressão 4.0. _Constrangimento_ não é o mesmo que _humilhação_ ou
_perseguição_.  Mais ainda, a convivência civil entre os colegas
requer que ataques _pessoais_ sejam evitados, sempre que possível.
Digressão 4.1. Navigare necesse est.

Asserção 5. A reação praticamente unânime dos membros desta lista que
se manifestaram até o momento, e os prontos manifestos da SBL e de
outros colegas a este respeito, mostra que não podemos ser
legitimamente acusados de *conivência*, como comunidade.
Digressão 5.0. Sim, o silêncio dos _indiferentes_ nos tem trazido até
onde chegamos, na triste situação sócio-política em que nos
encontramos, na qual há fartos exemplos do *inaceitável* --- o qual,
receio, não se resolverá/dissolverá simplesmente como fruto de um
abaixo-assinado.

Asserção 6. O opção do *boicote* sempre existe, e é, em princípio, de
caráter pessoal.  Claro, há sempre quem prefira "começar um
movimento", e este é um direito que assiste a cada um de nós.
Digressão 6.0. Um boicote deve ser coerente.  Recusar-se a participar
de um "special issue" de um periódico do qual você próprio é membro do
comitê editorial, por exemplo, não parece fazer lá muito sentido.

%%%
Um exemplo.  Uma reportagem publicada esta semana no Haaretz era
intitulada "The Racist Tradition of Blackface Is Alive and Well in
Israel".

Segundo o Corolário 1.0 acima, a responsabilidade pela persistência
deletéria de tal "tradição" no humor não deve ser imputada a todos os
israelenses.

Segundo o Corolário 2.0, não temos muito a fazer senão apontar o
dedinho para quem é o real responsável.

Cada um de nós, individualmente, e a nossa sociedade como um todo, tem
todo o direito de não querer se associar a tais "tradições".  Caso tal
"tradição" não apenas venha ferir aquilo em que _acreditamos_ mas,
mais ainda, vá contra aquilo que _desejamos_, contra o modelo de
_mundo em que desejamos viver_, *não devemos nos calar*.
%%%

Dito tudo isso, e retomando ao assunto principal, concordo que a PCNL,
*neste formato/estilo*, presta um desserviço à comunidade da nossa
área, como um todo, e à biografia (científica) de JYB.  Deixar de
atentar àquilo que a comunidade considera amplamente ofensivo e
contra-produtivo, em um certo contexto cultural ou momento histórico,
é simplesmente *tolo*: nada mais traz além de _detratores_, nada mais
alimenta senão a _má-vontade_ por parte dos demais.  É preciso mudar,
já.

Convido os colegas a discordar dos itens que listei acima, ou
acrescentar novas perspectivas --- que não sejam argumentativamente
rasas.
(Em tempo, pode ser que já tenha me escapado aqui algum _argumento_
oferecido pelos colegas?)

Joao Marcos

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