Daniel e demais
Continuando a discussão, dou mais umas opiniões pessoais.
Depois, com mais calma, respondo ao email anterior do Júlio.
Eu não diria que defendo um "relativismo lógico" sem qualificação (exceto quem 
sabe em algum sentido próximo a Feyerabend). Penso mais em um "pluralismo 
lógico", em haver uma gama de possibilidades que são por nós utilizadas segundo 
critérios de ordem pragmática, como intuitividade, facilidade, beleza (por que 
não?), capacidade expressiva, etc. Isso permite que fujamos do relativismo puro 
e simples. 
Quanto à " lógica básica", eu já expressei minha opinião, de que usamos 
inicialmente algo meio construtivo, que nos permite combinar sinais, etc. e aos 
poucos vamos sofisticando isso de forma a elaborar sistemas bem complexos e até 
mesmo contra intuitivos. Depois, com refinamento, entendemos o processo e 
conseguimos explicar o que fizemos, justificando, pelo menos idealmente, os 
passos dados dentro de uma teoria mais forte, digamos ZF. Não há, para mim, 
lógica ou metodologia privilegiada. A lógiça clássica é para mim algo 
contingente. Sou meio Feyerabend: tudo vale em um primeiro momento, até mesmo 
inspiração advinda dos anjos, não importa. O que fica é o que resultada disso, 
em um bom exemplo de uma entidade do mundo 3 de Popper, apesar das diferenças 
deste para com Feyerabend (com calma, posso fazer as distinções, mas creio ser 
claro que não há conflito no que eu disse). 
Por outro lado, Daniel, temos que tomar cuidado com o intuicionismo e o 
terceiro excluído. Em uma conversa recente, o Prof. Newton Costa chamou a minha 
atenção para o fato  (e minha ignorância) de haver uma forma de  lógica 
intuicionista devida a Lorenzen (não sei AINDA dos detalhes, mas estou curioso, 
e gostaria  de saber se alguém pode dar mais informações ) a qual seria 
intuicionista, ou melhor, construtivista, (em um sentido) e nela valeria o 3 
excluído. O que o Prof. Newton sempre chama a atenção, e creio que ele está 
coberto de razão, é para a necessidade de qualificação: por exemplo, de que 
tipo de intuicionismo estamos falando? 
No mais, concordo bastante com você, Daniel, em especial em dizer que a lógica, 
qualquer que seja ela, está impregnada de metafísica, ainda que eu não diria 
que ela É metafísica. 
Deixamos no entanto, a discussão ao sabor da Lista: se isso está chato, que nos 
avisem que falamos em separado, concorda? (Júlio inclusive).
Abraço 
Décio


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Décio Krause
Departamento de Filosofia
Universidade Federal de Santa Catarina
88040-900 Florianópolis - SC - Brasil
http://www.cfh.ufsc.br/~dkrause
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Em 17/12/2011, às 16:23, Daniel Durante <[email protected]> escreveu:

> Caro Júlio e colegas,
> 
>> Do meu ponto de vista, a LC é também uma consequência de nossos sistemas 
>> cognitivos (nisso estamos de acordo?) mas se for isso então não é nada 
>> cultural, e sim algo mais natural, certo?
> 
> Eu tendo a concordar que deve haver uma lógica tão básica ao ponto de estar 
> ligada ao nosso próprio "sistema cognitivo", mas acho que esta lógica é MUITO 
> mais fraca que a lógica clássica. Seria, talvez, algo próximo às regras 
> meramente estruturais do cálculo de sequentes.  Não acho que o princípio de 
> não contradição, ou o de explosão, ou o terceiro excluído sejam tão 
> fundamentais assim. Acho que estes princípios lógicos têm mais a ver com as 
> nossas expectativas sobre o mundo (a realidade, as coisas, os seres,...) Mas 
> podemos divergir sobre estas expectativas. As divergências mais fundamentais 
> entre clássicos e intuicionistas, por exemplo, não são sobre a validade de 
> princípios lógicos, mas sobre o estatuto ontológico de certas entidades. Se 
> os números existem independentemente de nossas considerações sobre eles, é de 
> se esperar que qualquer asserção sobre os números deva ser verdadeira ou 
> falsa, independentemente de nossa capacidade de justificar esta asserção. Por 
> outro lado, se os números são apenas instrumentos conceituais através dos 
> quais raciocinamos sobre as coisas, não temos (literalmente) nenhum motivo 
> para considerar verdadeiras ou falsas asserções que fazemos sobre os números 
> enquanto não tivermos uma justificativa (prova) para elas. Se "P" é "2+2=4", 
> o intuicionista concorda com o clássico que "P v ~P", mas se "P" é a 
> conjectura de Goldbach, por que, para o intuicionista, haveria de ser o caso 
> de "P v ~P"? Para o intuicionista, se ampliarmos nossas considerações, se 
> "construirmos" mais matemática, eventualmente decidiremos sobre a conjectura 
> de Goldbach. Mas esta decisão depende de uma ação positiva nossa, que pode 
> até nunca ocorrer. Já, para o clássico, esta decisão já está dada pelo modo 
> como as coisas da matemática são, e que cabe a nós apenas perceber este modo.
> 
> De um modo geral, os princípios lógicos que aceitamos descrevem o 
> comportamento a que qualquer coisa (independentemente de sua natureza, 
> condições, contingências,...) deve submeter-se e, por isso, representam 
> nossas expectativas mais básicas sobre como é o mundo. É neste sentido que 
> afirmo que lógica é metafísica. Mas estas nossas expectativas básicas sobre 
> como é o mundo, que os princípios lógicos constituem, não são, no meu 
> entender, nada além de expectativas mesmo. Não temos como resolver "a priori" 
> nossas diferenças neste campo. Elas, portanto, acabam envolvendo 
> considerações culturais e históricas e, neste sentido, concordo com o 
> relativismo lógico do Décio.
> 
> Saudações,
> Daniel
> 
> 
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