Júlio
Por favor, veja comentários abaixo, entremeio seu texto.

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Décio Krause
Departamento de Filosofia
Universidade Federal de Santa Catarina
88040-900 Florianópolis - SC - Brasil
http://www.cfh.ufsc.br/~dkrause
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Em 15/12/2011, às 11:40, julio cesar <[email protected]> escreveu:

> Bom dia, Décio (e lista),
> 
> antes de mais nada, eu acho muito importante essa discussão!
> 
> Concordo que os quatro princípios (identidade, não-contradição, 
> terceiro-excluído e bivalência) não são os únicos princípios da LC, 
> principalmente se formos pensar nos Cálculos Clássicos. Eu digo que são 
> essenciais apenas pq embora possamos ter mais *princípios*, não vejo como 
> podemos ter menos (nem como realmente os restringir a esse nível).
Bom, depende da lógica que estiver usando. Pode sim ter "menos" princípios, 
como ocorre na lógica de Brouwer-Heyting. Me parece que você se apega à lógica 
clássica. Nada contra isso, mas deve dizer por que. O Manuel já sugeriu que ela 
seria a mais simples. Não sei o que "simples" significa neste caso, mas mesmo 
na metamatemática não estou certo se usamos a lógica clássica ou algo meio 
construtivo, beirando ao intuicionismo...

> Porém, minha fala só tem sentido se se diferenciar *Lógica* de *Sistema 
> Formal*, e essa é uma questão que, embora quase ninguém pareça se importar, 
> pra mim está longe de ser algo trivial, tanto para identificá-los como para 
> diferenciá-los (outra coisa, por exemplo, se formos pensar na equivalência 
> dos conectivos de Sheffer, Quine ou Peirce com os operadores booleanos, a 
> dupla negação e a explosão não seriam nem princípios, mas sim algo como 
> teoremas, então bastaria encontrar os princípios que *gerariam* um desses 
> conectivos e o resto viria por si, não?).
Talvez possamos definir sistema formal do seguinte modo, como alguns fazem: 
trata-se de um conjunto de objetos que chamamos fórmulas, um subconjunto deste 
que chamamos de conjunto dos axiomas e um conjunto de relações entre conjunto 
de fórmulas e fórmulas, as regras de inferência. Axiomas específicos determinam 
o sistema particular, ou a lógica particular. Neste sentido  não haveria a 
distinção pela qual você clama. Mas veja que uma definição como a que esbocei 
pressupõe  a noção de conjunto. Um sistema formal então depende de uma teria de 
conjuntos? Como responde a isso? Mesmo na elaboração se um sistema básico como 
o cálculo preposicional clássico, você precisa da aritmética para saber que tem 
dois símbolos, etc. Ora, a lógica, que é base para a aritmética, pressupõe a 
aritmética? Sem saber responder a essa questões, dentre outras, na minha 
opinião, não dá para se meter a discutir fundamentos.
> 
> Entretanto, uma confusão nisso tudo é o escopo da própria expressão 
> *princípio lógico*, o que queremos dizer com isso?
Postulados ou teoremas considerados de grande relevância formal ou semântica 
(em algum sentido do termo).

> Eu não entendo tal expressão referenciando axiomas ou leis fundamentais de um 
> Sistema Formal, mas sim alguma coisa antes disso. A meu ver, para algo 
> merecer o título de *princípio lógico*, tal coisa deveria ser fundamental ao 
> ponto de ser aquilo pelo qual é possível conferir significado aos próprios 
> axiomas, para que não sejam eles meros rabiscos num papel.
Claro que você conhece a distinção entre as contrapartes sintática e semântica 
de uma lógica clássica ou de um sistema formal (assim como da esquecida 
contrapartida pragmática). Assim, não entendo sua dúvida.

> É justamente aqui minha questão: não importa quais os meus axiomas (ou seja, 
> não importa qual o meu Sistema Formal) eu só consigo retirar um significado 
> dali se eu assumir plenamente aqueles quatro princípios fundamentais.
De onde tirou isso? Pergunte ao Priest se ele concorda.

> Como eu posso falar então em Lógicas distintas? Não são apenas Sistemas 
> Formais distintos?
Nunca pensei em fazer uma distinção. Temos que pensar no assunto. Alguém quer 
dar um palpite?

> (por isso minha comparação com arquitetura de computadores: há um mesmo 
> processador  - um mesmo conjunto de instruções, de *princípios* - para as 
> mais distintas e incompatíveis linguagens de programação! Linguagens formais 
> contraditórias ou distintas não exigem Lógicas contraditórias ou distintas.)
Analogias deste tipo você pode fazer com praticamente qualquer coisa e não 
significam nada objetivamente, a não ser para você mesmo. 
> 
> Assim, não vejo como Heráclito conseguiria ter influenciado a tal ponto a 
> cultura de forma que hoje seríamos paraconsistentes, pois é difícil perceber 
> como isso seria uma questão diretamente cultural. Nesse ponto, a influência 
> da cultura se resume na aquisição de uma linguagem com semântica e 
> significado, nada mais.
Isso é discutível e não cabe aqui em poucas linhas. Mas não concordo com o 
"nada mais". 

> Logo, sermos Clássicos ou não-Clássicos (paraconsistentes, polivalentes...) 
> se resume em utilizarmos uma linguagem com semântica ou não. Por isso eu 
> disse que a semântica exige a LC, não sendo assim uma questão diretamente 
> cultural.
Júlio, nada impede que você use uma lógica distinta da clássica na 
metamatemática. Eu tive um trabalho danado para construir uma teoria de 
quase-conjuntos dentre outras coisas para dar sentido à semântica de certas 
lógicas não-reflexivas. Aliás, o Prof. Newton Costa defende justamente que a 
teoria na qual se faz a semântica de uma lógica deve ser consoante com a dita 
cuja. Mas coloco outra questão: como você trata semanticamente, por exemplo, 
ZF? Como justifica o uso dos quantificadores na lógica usual sem usar ZF, que 
os pressupõe? ZF pode ser vista como uma teoria de primeira ordem. Onde faz a 
sua semântica? Em ZF? O que são seus modelos? São conjuntos? Pode usar a 
verdade de Tarski aqui? 
> 
> Alguém poderia dizer: *mas é justamente isso! será que se nós tivéssemos 
> outra linguagem nós não seríamos paraconsistentes?*. Pra mim, a resposta é, 
> *depende*. Se essa nova linguagem possuir semântica e significado, 
> continuaríamos a ser clássicos! 
Semântica, significado? O que quer dizer com isso? (veja que estou provocando, 
mas são questões importantes)
> 
> Talvez a maior prova disso é que - pelo menos até onde sei - não é possível 
> construir uma estrutura semântica totalmente independente daqueles quatro 
> princípios!
De onde tirou isso? Veja a semântica para uma lógica de Schrödinger intensional 
dada na teoria de quase-conjuntos em um artigo meu com o Prof. Newton. 

> Sem qualquer um deles, a semântica simplesmente desaba.
????????????????????e mais?????????????e mais????????????????

> (veja bem, construir primeiramente através da LC e depois *entrar* e 
> reconstruir com outros princípios, prova justamente o meu ponto! O 
> processador ainda é o mesmo, essa *reconstrução* que você diz, a meu ver, é 
> um nível acima, não abaixo, é Linguagem de Alto-Nível em cima de Linguagem de 
> Alto-Nível - é pegar o C e criar o C++ - porém o sustentáculo básico ainda 
> são as mesmas instruções de Baixo-Nível embutidas lá no processador)
Não entro nesses exemplos porque não conheço o assunto. 

> 
> Abraços,
> Júlio César A. Custódio
> 
> De: Décio Krause <[email protected]>
> Para: julio cesar <[email protected]> 
> Cc: "[email protected]" <[email protected]> 
> Enviadas: Quarta-feira, 14 de Dezembro de 2011 19:53
> Assunto: Re: [Logica-l] por qual logica comecar? Computacao ajuda?
> 
> Júlio
> Não é nada disso o que falei. Penso que temos os critérios da lógica que 
> chamamos de clássica (LC) por razões históricas e pela forma como interagimos 
> com o mundo. Quem sabe se Heráclito tivesse vingado na nossa tradição e não 
> Aristóteles, seríamos paraconsistentes desde o berço. 
> Depois, há variadas concepções de lógica, inclusive uma que adentra o 
> psicologismo, que muitos dizem que Frege e Husserl afastaram da lógica, o que 
> é besteira. Basta ler Federigo Enriques, o que estou fazendo no momento e me 
> deliciando, apesar de suas críticas.
> Ah, antes de encerrar, os princípios da bivalência, da identidade, do 
> terceiro excluído e da contradição são de fato alicerces da LC, mas os três 
> últimos não constituem *os* princípios da LC, como se lê por aí. Com efeito, 
> a LC (por exemplo, o cálculo proposicional) não pode ser fundamentado neles 
> somente, e há muitos outros que só não são tão famosos historicamente, como 
> os da dupla negação, explosão, redução ao absurdo, etc. 
> Uma lógica é um constructo que elaboramos para dar conta de alguma coisa, 
> expressar uma metafísica, dar conta de uma parcela de uma teoria, etc. Não 
> há, para mim, sistema privilegiado, e a nossa LC está aí, vai muito bem, e 
> vai continuar sendo importante por muito tempo, mas é algo meramente 
> contingente. Se fossemos diferentes, poderia ser outra. Esta é a idéia.
> Abraço
> Décio
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