Manuel
O PNC pode implicar, junto com os demais axiomas, que p^~p -> q é teorema, 
nunca o que escreveu, que é algo metalinguístico. Quanto ao resto, concordo 
plenamente, exceto que diria que a lógica clássica *parece* ser mais intuitiva 
para nós *hoje*, mas talvez Brouwer não concordasse. Aliás, pensando bem, tenho 
também minhas dúvidas...
D

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Décio Krause
Departamento de Filosofia
Universidade Federal de Santa Catarina
88040-900 Florianópolis - SC - Brasil
http://www.cfh.ufsc.br/~dkrause
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Em 15/12/2011, às 12:59, Manuel Doria <[email protected]> escreveu:

> Minha opinião sobre quais fatores foram mais importantes para a sedimentação 
> dos sistemas formais que chamamos podem ser agrupados como exemplos de 
> "lógica clássica" varia de acordo com qual aspecto desta estamos discutindo.
> 
> O princípio da explosão (PE) não se segue dedutivamente do PNC em conjunção 
> com os demais. O PE asserta que p^~p ⊨ β é um teorema.
> 
> Graham Priest argumenta muito convincentemente que o PE foi sedimentado e 
> explicitado na Idade Média, não tem nem 1000 anos. Esse seria um bom exemplo 
> de um aspecto da "lógica clássica" determinado socio-historicamente e levado 
> adiante por inércia da tradição.
> 
> Já para coisas mais basilares de sistemas formais como PNC, terceiro 
> excluído, propriedade de transitividade em teoria dos conjuntos ingênua eu 
> tenho uma abordagem neo-empirista, julgo que são consequência natural de como 
> funcionam nossos sistemas cognitivos. Muito da teoria dos conjuntos ingênua e 
> das álgebras e lógicas isomórficas a esta pode ser explicado como emergindo 
> de padrões sistemáticos de nossa experiência perceptual quando interagimos 
> com "contêineres", regiões enclausuradas no espaço - como nossos corpos, 
> canecas, vasos, bolsos, etc.
> 
> A forma como representamos Diagramas de Venn não é acidental. Nestes 
> aspectos, a "lógica clássica" é em geral a mais intuitiva.
> 
> Abraços.
> 
> 2011/12/15 julio cesar <[email protected]>
> Bom dia, Décio (e lista),
> 
> antes de mais nada, eu acho muito importante essa discussão!
> 
> Concordo que os quatro princípios (identidade, não-contradição, 
> terceiro-excluído e bivalência) não são os únicos princípios da LC, 
> principalmente se formos pensar nos Cálculos Clássicos. Eu digo que são 
> essenciais apenas pq embora possamos ter mais *princípios*, não vejo como 
> podemos ter menos (nem como realmente os restringir a esse nível). Porém, 
> minha fala só tem sentido se se diferenciar *Lógica* de *Sistema Formal*, e 
> essa é uma questão que, embora quase ninguém pareça se importar, pra mim está 
> longe de ser algo trivial, tanto para identificá-los como para diferenciá-los 
> (outra coisa, por exemplo, se formos pensar na equivalência dos conectivos de 
> Sheffer, Quine ou Peirce com os operadores booleanos, a dupla negação e a 
> explosão não seriam nem princípios, mas sim algo como teoremas, então 
> bastaria encontrar os princípios que *gerariam* um desses conectivos e o 
> resto viria por si, não?).
> 
> Entretanto, uma confusão nisso tudo é o escopo da própria expressão 
> *princípio lógico*, o que queremos dizer com isso? Eu não entendo tal 
> expressão referenciando axiomas ou leis fundamentais de um Sistema Formal, 
> mas sim alguma coisa antes disso. A meu ver, para algo merecer o título de 
> *princípio lógico*, tal coisa deveria ser fundamental ao ponto de ser aquilo 
> pelo qual é possível conferir significado aos próprios axiomas, para que não 
> sejam eles meros rabiscos num papel. É justamente aqui minha questão: não 
> importa quais os meus axiomas (ou seja, não importa qual o meu Sistema 
> Formal) eu só consigo retirar um significado dali se eu assumir plenamente 
> aqueles quatro princípios fundamentais. Como eu posso falar então em Lógicas 
> distintas? Não são apenas Sistemas Formais distintos? (por isso minha 
> comparação com arquitetura de computadores: há um mesmo processador  - um 
> mesmo conjunto de instruções, de *princípios* - para
>  as mais distintas e incompatíveis linguagens de programação! Linguagens 
> formais contraditórias ou distintas não exigem Lógicas contraditórias ou 
> distintas.)
> 
> Assim, não vejo como Heráclito conseguiria ter influenciado a tal ponto a 
> cultura de forma que hoje seríamos paraconsistentes, pois é difícil perceber 
> como isso seria uma questão diretamente cultural. Nesse ponto, a influência 
> da cultura se resume na aquisição de uma linguagem com semântica e 
> significado, nada mais. Logo, sermos Clássicos ou não-Clássicos 
> (paraconsistentes, polivalentes...) se resume em utilizarmos uma linguagem 
> com semântica ou não. Por isso eu disse que a semântica exige a LC, não sendo 
> assim uma questão diretamente cultural.
> 
> Alguém poderia dizer: *mas é justamente isso! será que se nós tivéssemos 
> outra linguagem nós não seríamos paraconsistentes?*. Pra mim, a resposta é, 
> *depende*. Se essa nova linguagem possuir semântica e significado, 
> continuaríamos a ser clássicos! 
> 
> Talvez a maior prova disso é que - pelo menos até onde sei - não é possível 
> construir uma estrutura semântica totalmente independente daqueles quatro 
> princípios! Sem qualquer um deles, a semântica simplesmente desaba. (veja 
> bem, construir primeiramente através da LC e depois *entrar* e reconstruir 
> com outros princípios, prova justamente o meu ponto! O processador ainda é o 
> mesmo, essa *reconstrução* que você diz, a meu ver, é um nível acima, não 
> abaixo, é Linguagem de Alto-Nível em cima de Linguagem de Alto-Nível - é 
> pegar o C e criar o C++ - porém o sustentáculo básico ainda são as mesmas 
> instruções de Baixo-Nível embutidas lá no processador)
> 
> Abraços,
> Júlio César A. Custódio
> 
> De: Décio Krause <[email protected]>
> Para: julio cesar <[email protected]> 
> Cc: "[email protected]" <[email protected]> 
> Enviadas: Quarta-feira, 14 de Dezembro de 2011 19:53
> Assunto: Re: [Logica-l] por qual logica comecar? Computacao ajuda?
> 
> Júlio
> Não é nada disso o que falei. Penso que temos os critérios da lógica que 
> chamamos de clássica (LC) por razões históricas e pela forma como interagimos 
> com o mundo. Quem sabe se Heráclito tivesse vingado na nossa tradição e não 
> Aristóteles, seríamos paraconsistentes desde o berço. 
> Depois, há variadas concepções de lógica, inclusive uma que adentra o 
> psicologismo, que muitos dizem que Frege e Husserl afastaram da lógica, o que 
> é besteira. Basta ler Federigo Enriques, o que estou fazendo no momento e me 
> deliciando, apesar de suas críticas.
> Ah, antes de encerrar, os princípios da bivalência, da identidade, do 
> terceiro excluído e da contradição são de fato alicerces da LC, mas os três 
> últimos não constituem *os* princípios da LC, como se lê por aí. Com efeito, 
> a LC (por exemplo, o cálculo proposicional) não pode ser fundamentado neles 
> somente, e há muitos outros que só não são tão famosos historicamente, como 
> os da dupla negação, explosão, redução ao absurdo, etc. 
> Uma lógica é um constructo que elaboramos para dar conta de alguma coisa, 
> expressar uma metafísica, dar conta de uma parcela de uma teoria, etc. Não 
> há, para mim, sistema privilegiado, e a nossa LC está aí, vai muito bem, e 
> vai continuar sendo importante por muito tempo, mas é algo meramente 
> contingente. Se fossemos diferentes, poderia ser outra. Esta é a idéia.
> Abraço
> Décio
> 
> 
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