Boa essa de Heráclito...

2011/12/14 Décio Krause <[email protected]>

> Júlio
> Não é nada disso o que falei. Penso que temos os critérios da lógica que
> chamamos de clássica (LC) por razões históricas e pela forma como
> interagimos com o mundo. Quem sabe se Heráclito tivesse vingado na nossa
> tradição e não Aristóteles, seríamos paraconsistentes desde o berço.
> Depois, há variadas concepções de lógica, inclusive uma que adentra o
> psicologismo, que muitos dizem que Frege e Husserl afastaram da lógica, o
> que é besteira. Basta ler Federigo Enriques, o que estou fazendo no momento
> e me deliciando, apesar de suas críticas.
> Ah, antes de encerrar, os princípios da bivalência, da identidade, do
> terceiro excluído e da contradição são de fato alicerces da LC, mas os três
> últimos não constituem *os* princípios da LC, como se lê por aí. Com
> efeito, a LC (por exemplo, o cálculo proposicional) não pode ser
> fundamentado neles somente, e há muitos outros que só não são tão famosos
> historicamente, como os da dupla negação, explosão, redução ao absurdo, etc.
> Uma lógica é um constructo que elaboramos para dar conta de alguma coisa,
> expressar uma metafísica, dar conta de uma parcela de uma teoria, etc. Não
> há, para mim, sistema privilegiado, e a nossa LC está aí, vai muito bem, e
> vai continuar sendo importante por muito tempo, mas é algo meramente
> contingente. Se fossemos diferentes, poderia ser outra. Esta é a idéia.
> Abraço
> Décio
>
>
>
> ------------------------------------------------------
> Décio Krause
> Departamento de Filosofia
> Universidade Federal de Santa Catarina
> 88040-900 Florianópolis - SC - Brasil
> http://www.cfh.ufsc.br/~dkrause
> ------------------------------------------------------
>
>
> Em 12/12/2011, às 10:57, julio cesar <[email protected]> escreveu:
>
> > Sem querer entrar na espinhosa questão (só que talvez seria necessário)
> de uma definição mais elegante da expressão *lógica clássica*, mas apenas
> pra uma interseção aqui na discussão, entendo por tal expressão
> principalmente as filosofias e os sistemas de lógica que não violam - ou
> não procuram violar (nem restringir) - os princípios de bivalência,
> não-contradição, identidade e terceiro excluído. Com isso posto, é ainda
> possível imaginar que tal lógica clássica possa ser considerada algo
> *culturalmente evolutiva*?
> >
> > A Teoria Crítica de Frankfurt, principalmente Adorno (Dialética
> Negativa) - e também a grande maioria da filosofia continental - atacam a
> lógica e filosofia analítica por um viés parecido. Dizem eles que os
> lógicos *hipostasiam* algo que é meramente cultural, que as regras e
> necessidades da lógica (ou das lógicas) são apenas frutos de uma sociedade
> burocrática que mesmo antes de ter indústrias de materiais de produção já
> possuía o seu próprio esclarecimento industrializado - segundo Adorno, em
> Homero já se encontra a *fórmula capitalista correta* (!) - Sendo assim,
> todo e qualquer princípio ou regra lógica seriam apenas descrições de um
> modo comum de pensar que foi puramente determinado por um momento
> (momentum?) social, de tal forma que bastaríamos mudar as condições sociais
> que mudaríamos assim a própria Lógica! No entanto, eu acho isso tudo no
> mínimo uma imensa ingenuidade.
> >
> > Minha questão: sem a Lógica Clássica (*definida* no início) como é
> possível inclusive diferenciar momentos distintos numa sociedade? Como é
> possível identificar as *Lógicas não-Clássicas* e diferenciá-las das
> *Lógicas Clássicas*? Ou seja, toda crítica ou restrição à Lógica Clássica
> necessita dessa mesma lógica pra sequer fazer sentido. Você não consegue
> significar nada que não caia nas exigências da Lógica Clássica! Falo isso
> pois, a meu ver, a expressão "Lógica" não se identifica com a expressão
> "Sistema Formal". Há Sistemas Formais não-Clássicos plenamente funcionais e
> significativos, mas não vejo que exista por causa disso *Lógicas
> não-Clássicas*.
> >
> > Farei aqui uma rápida comparação com a Computação para tentar clarear
> ainda mais essa questão:
> >
> > Os inúmeros sistemas lógicos são apenas manipulações de símbolos,
> naturalmente, muitos deles de extrema utilidade. Considero os Sistemas
> Formais da Lógica no mesmo patamar das Linguagens de Programação de Alto
> Nível. Há inúmeras delas e sua quantidade é potencialmente infinita; basta
> mudar uma sintaxe e eu crio uma nova Linguagem, um novo Sistema. Porém, da
> mesma forma como as Linguagens de Alto Nível (como Java, C++, .NET,
> Haskell...) dependem das mesmas regras embutidas lá no micro-processador e
> por mais distintas e contraditórias-entre-si que sejam tais Linguagens
> serão todas elas processadas por essas mesmas regras, assim, da mesma
> forma, todo Sistema Formal, para sequer ter sentido, dependem das regras
> *embutidas* na semântica da metalinguagem do próprio uso linguístico ao
> manusear tais sistemas. Explico-me: no meu entender, ao se fazer filosofia,
> lógica, ciência.... há sempre uma *primeira linguagem* que é simplesmente
> > impossível de ser mencionada (eis o nosso *micro-processador*) nela é só
> possível o uso, nunca a menção! Pois basta mencioná-la que ela deixa de ser
> a primeira linguagem e passa a ser uma linguagem-objeto, sendo agora
> mencionada pelo uso daquela sempre *primeira meta-linguagem*, que sempre se
> mantém ativa em qualquer uso da linguagem humana.
> >
> > Assim, a estrutura semântica dessa sempre primeira metalinguagem é uma
> Lógica essencialmente Clássica, bivalente e consistente, sem qual nada
> faria sentido, sem a qual não seria possível diferenciar nem *momentos
> sociais distintos* nem *sistemas formais distintos*.  A Lógica Clássica,
> por esse ponto de vista, é simplesmente uma exigência semântica, é a única
> maneira de uma coleção de símbolos possuir significado, não sendo assim uma
> questão meramente cultural, social ou axiomática.... Enquanto a humanidade
> utilizar uma linguagem que necessita de semântica, tal linguagem trará
> junto consigo as exigências Lógica Clássica.
> >
> > Pode soar meio radical ou meio esquisito mas é mais ou menos isso mesmo!
> >
> > Abraços,
> > Júlio César A. Custódio
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