Prezada Maria Francisca,

O trabalho proposto parece extremamente interessante e sobretudo,
pertinente, para tentar aliviar o inter-diálogo entre essas disciplinas. Na
estrutura gramatical superficial, cientistas e juristas podem usar as
mesmas palavras quando estão designando conceitos *muito* diferentes.

Tenho a impressão que no meio jurídico brasileiro, o qual conheço muito
pouco, é feita uma distinção bem estrita entre "prova" e "evidência" que
não será encontrada na filosofia da ciência em geral e o uso de várias
outras categorias ontológicas não segue o uso da filosofia da ciência ou
filosofia em geral.

Dando um exemplo, de um glossário escrito por um advogado:

http://www.conjur.com.br/2004-jun-11/prova_evidencia_definicoes_diferentes

"Ou são provas, ou são apenas evidências. As provas são concretas,
documentadas. As evidências prescindem de provas: tem-se certeza mesmo sem
contar com provas objetivas. Portanto, prova e evidência são coisas
diferentes."

Esse trecho me desperta muita estranheza. Consensualmente em filosofia da
ciência costuma-se empregar "prova" para o domínio do a priori, em ciências
formais. Há discussões muito finas do significado bastante delicado de
"prova" em matemática e lógica. O que habitualmente é chamado de "prova" no
meio jurídico é realmente melhor traduzido por "evidência", algo que o
autor do artigo considera estritamente distinto. Evidências largamente são
"concretas" e "documentadas", tirando exemplos de evidência indireta,
evidência por abdução, etc. Uma definição operacional razoável é que
"evidências" são fatos que aumentam a probabilidade de uma proposição ou
conjunto de proposições serem verdadeiros.

Por exemplo, a presença de tecido humano com DNA de Eliza Samudio no
estômago dos rottweilers do Goleiro Bruno seria considerado uma evidência
de que ele esteve envolvido no homicídio, dado certo background knowledge.
Se existisse uma confissão do homicídio oriunda do próprio punho do Goleiro
Bruno, isso seria habitualmente chamado de "prova documental" mas decerto
este não é o mesmo sentido de "prova" em ciências formais. Continuaria
sendo uma evidência, evidências não mudam seu estatuto ontológico para
"prova" após certa threshold, mas algumas evidências são mais fortes do que
outras. E para a confirmação/validação de um conjunto de proposições - como
muitos vêem teorias científicas - é necessária uma *convergência de
evidência*, corroboração oriunda de vários fronts independentes.

Entretanto, para piorar a história, não existe consenso em epistemologia e
filosofia da ciência sobre o significado estrito de "evidência", e
provavelmente não existe uma definição estrita que acobertará todo exemplo.

O epistemólogo que conheço que trabalhou mais exaustivamente em sua
carreira no conceito de "evidência" é Peter Achinstein. Ele possui uma
taxonomia de três tipos de evidência; falarei brevemente de *evidência
potencial* e *evidência verídica*

*Evidência potencial* é objetiva, independe de estados mentais dos agentes
envolvidos. Evidência potencial para *p* continua sendo evidência potencial
mesmo se *p* for falsa. *f* é uma *evidência verídica* para *p* se *f* for
evidência potencial para *p* & *p* for verdadeira & existir uma conexão
explicativa entre a verdade de *f* e a verdade de *p.*

Para a análise completa, recomendo os primeiros capítulos de *Evidence,
Explanation, and Realism: Essays in Philosophy of Science* do mesmo autor.

Continuando o breve artigo:

"*Fato verídico:* Todo fato é verídico, porque só é fato aquilo que já
aconteceu. O fato é que se deve escolher entre: *É fato e É verídico*. O
resto é errado (sic), portanto inverídico."

Isso aqui também está estranho. Para algumas visões ortodoxas de 'fatos' em
metafísica contemporânea, de fato "fato verídico" é um pleonasmo, pois todo
fato seria um portador de verdade com valor de verdade 'verdadeiro'. Há
muitas outras teorias. Mas dizer que fato "é verídico" porque fato é
"aquilo que aconteceu" é uma petição de princípio disfarçada
(implicitamente está sendo assumido "aquilo que aconteceu é verídico") o
que torna a sentença não-informativa. Também não fez muito sentido ele ter
escrito que "deve-se escolher entre 'é fato' ou 'é verídico'" pois ele
começa dizendo que se "é um fato, é verídico" mas não defendeu em nenhum
lugar que "é fato" é co-extensivo com "é verídico", para permitir o uso
intercambiável dos termos.

Também está sendo assumido que algo só é um fato se pertencer ou for um
evento no passado, algo que talvez faça parte de uma visão *folk* de fatos.
Para mim, isso é *prima facie* falso. Pode ser defendido convincentemente,
por exemplo numa visão Wittgensteiniana, de que *é um fato* que o Sol se
tornará uma gigante vermelha em 7,5 bilhões de anos. Isso só mostra mais
uma vez que o vernáculo jurídico e o vernáculo filosófico empregam as
mesmas palavras mas usam sistemas conceituais muito diferentes. Mais uma
evidência da importância do trabalho que você está preparando.

Um forte abraço.

2011/11/4 Maria Francisca <[email protected]>

> Prezados colegas,
>
> Estou desenvolvendo um estudo comparativo entre o conceito de prova no
> direito e na ciência. A prova jurídica advém do modelo positivista
> consolidado no século XVIII e assim permanece até nossos dias, enquanto que
> o conceito de prova científica evoluiu e multifacetou-se enormemente.
> Tenciono propor uma reflexão a esse respeito.
>
> Assim, agradeceria de alguém puder me indicar referências bibliográficas
> ou links sobre o assunto.
>
> Tenho algum material sobre prova lógica, mas não pretendo abordar este
> tópico no momento. Talvez fique para uma etapa posterior do projeto.
>
> Desde já agradeço pelas indicações.
>
> Um abraço,
>
> Maria Francisca
> Curitiba - PR
>
>
> _______________________________________________
> Logica-l mailing list
> [email protected]
> http://www.dimap.ufrn.br/cgi-bin/mailman/listinfo/logica-l
>
_______________________________________________
Logica-l mailing list
[email protected]
http://www.dimap.ufrn.br/cgi-bin/mailman/listinfo/logica-l

Responder a