vc leu Koestler, que é mais ou menos como penso.

2011/9/29 Manuel Doria <[email protected]>

> Eu não julgo que esse framework mina a possibilidade de se falar a respeito
> de criatividade humana. Autoria não é minada mesmo nas perspectivas onde uma
> "autonomia transcendental" do gênio humano é eliminada, como no darwinismo
> neural de Dean K. Simonton (
> http://www.amazon.com/Origins-Genius-Darwinian-Perspectives-Creativity/dp/0195128796)
> e na memética:
>
> (...)We would like to think of ourselves as godlike creators of ideas,
> manipulating and controlling them as our whim dictates, and judging them
> from an independent, Olympian standpoint. But even if this is our ideal, we
> know that it is seldom if ever the reality, even with the most masterful and
> creative minds. As Mozart famously observed of his own brainchildren:
>
> "When I feel well and in a good humor, or when I am taking a drive or
> walking after a good meal, or in the night when I cannot sleep, thoughts
> crowd into my mind as easily as you would wish. Whence and how do they come?
> I do not know and *I have nothing to do with it*.[emphasis added] Those
> which please me I keep in my head and hum them; at least others have told me
> that I do so."Endnote 5<http://ase.tufts.edu/cogstud/papers/memeimag.htm#5.>
>
> Mozart is in good company. Rare is the novelist who *doesn't* claim
> characters who "take on a life of their own"; artists are rather fond of
> confessing that their paintings take over and paint themselves, and poets
> humbly submit that they are the servants or even slaves to the ideas that
> teem in their heads, not the bosses. And we all can cite cases of memes that
> persist unbidden and unappreciated in our own minds.(...)
>
> http://ase.tufts.edu/cogstud/papers/memeimag.htm
> Dou outro exemplo - podemos descrever uma *Biblioteca de Mendel* (
> http://www.amazon.com/DARWINS-DANGEROUS-IDEA-EVOLUTION-MEANINGS/dp/068482471X),
> um espaço de todos os *genomas terrestres possíveis*, vastamente maior do
> que todos os genomas terrestres que foram efetivamente realizados em 3,5
> bilhões de anos de evolução biológica.
>
> Podemos, no framework da Biblioteca de Mendel, conceber um toy model de
> neodarwinismo em termos de algoritmos genéticos vasculhando o espaço dos
> genomas possíveis (o maior diferencial é que as funções de fitness são
> dinâmicas e extremamente complicadas, seu correlato real possivelmente não
> admitiria uma solução analítica).
>
> Isso não mina nosso discurso metafórico a respeito de "inovações
> evolucionárias" e "soluções de engenharia" da seleção natural. Ergo, não
> vejo por quê minaria nosso discurso a respeito da inventividade de agentes
> autônomos.
>
> Um forte abraço.
>
> 2011/9/29 Francisco Antonio Doria <[email protected]>
>
>> Vcs leram o livro de Koestler, The Act of Creation?
>>
>> 2011/9/29 Antonio Carlos da Rocha Costa <[email protected]>
>>
>> > Computacionalmente, a implicação da idéia é a de que todo processo de
>> > "criação" pode ser formalizado como um processo de busca heurística (no
>> > espaço constituído pelos textos, estruturado por um critério de
>> > similaridade
>> > - o qual, aí sim, depende do "criador"), onde o texto "criado" é
>> aproximado
>> > sucessivamente por uma sequência de textos semelhantes, até que o
>> "criador"
>> > alcance uma versão do mesmo que satisfaça seu critério de "conclusão" da
>> > "criação".
>> >
>> > É, assim, o fundamento de uma teoria computacional da criatividade
>> > (explorada, originalmente - me parece) por Margareth Bode e constitui
>> uma
>> > sub-área importante ("criatividade computacional") na área da
>> Inteligência
>> > Artificial.
>> >
>> > Nessa perspectiva, a "criatividade" não deixa de existir: ela apenas
>> migra
>> > da criação do objeto (texto, no caso - mas pode ser qualquer objeto de
>> > arte)
>> > para a criação da relação de similaridade que orienta o processo de
>> busca
>> > pelo objeto da "criação".
>> >
>> > A criatividade do artista está na criação dessa relação de similaridade
>> > (que
>> > não é objetiva nem enumerável) e que lhe permite (mais rapida ou mais
>> > lentamente) descobrir a forma final desejada para o texto.
>> >
>> > Numa teoria da recepção da obra de arte, poder-se-ia dizer que
>> "entender" o
>> > que um artista colocou em uma obra de arte (ou um escritor em um texto)
>> é
>> > ser capaz de entender a relação de similaridade que ele criou e
>> utilizá-la
>> > para reconstruir proveitosamente - enquanto receptor - os
>> relacionamentos
>> > de
>> > que o escritor/artista utilizou no seu ato de "criação".
>> >
>> >
>> > Em 29 de setembro de 2011 09:12, Joao Marcos <[email protected]>
>> > escreveu:
>> >
>> > > Não vejo como dizer que Shakespeare teria "descoberto" algo que estava
>> > > no "espaço de possibilidades" sem que ele tivesse sequer _vasculhado_
>> > > este espaço.  Talvez "reinventado" seja a palavra certa, mesmo para um
>> > > platonista...
>> > >
>> > > O tema da "Biblioteca Universal" foi de fato inventado (ou, dizem
>> > > alguns, foi encontrado entre os livros da própria Biblioteca
>> > > Universal!) há bastante tempo, e o tema foi explorado com muita
>> > > competência e razoável criatividade (sem macacos nem máquinas de
>> > > datilografar, na versão final), em particular, por Borges
>> > > (http://www.literaberinto.com/vueltamundo/bibliotecaborges.htm).  A
>> > > Biblioteca de Babel borgiana contém exclusivamente "libros de formato
>> > > uniforme; cada libro es de cuatrocientas diez páginas; cada página, de
>> > > cuarenta renglones; cada renglón, de unas ochenta letras de color
>> > > negro".  Segue desta descrição, pelo Lema de Zorn, que há pelo menos
>> > > um livro com infinitas cópias, caso a biblioteca seja mesmo infinita.
>> > > Borges parece não ter percebido isto, contudo, como consequência dos
>> > > seus "axiomas" (ou talvez ele não trabalhasse exatamente em ZFC, algo
>> > > que também fica aparente no seu conto "El Aleph").
>> > >
>> > > Quine tem um artigo bem curtinho no qual ele analisou e simplificou a
>> > > "Biblioteca Universal":
>> > > http://jubal.westnet.com/hyperdiscordia/universal_library.html
>> > > O Teorema do Macaco Infinito é por sua vez discutido em:
>> > > http://en.wikipedia.org/wiki/Infinite_monkey_theorem
>> > >
>> > > Por fim, vale mencionar ainda o conto borgiano "Pierre Menard, autor
>> > > de Quijote", na qual a obra de Cervantes é recriada de uma forma muito
>> > > mais inteligente e direta do que no _negócio dos macacos_.
>> > >
>> > > Joao Marcos
>> > >
>> > > 2011/9/29 Antonio Carlos da Rocha Costa <[email protected]>:
>> > > > Na verdade, chama-se "Princípio da Biblioteca do Museu de Londres",
>> > para
>> > > > indicar que, dado o tempo necessário, todos os livros da biblioteca
>> > > poderiam
>> > > > ser "re-inventados" desse jeito.
>> > > >
>> > > > Mas, para mim, o principalmente questionamento que resulta é de
>> > natureza
>> > > > estética, particularmente sobre a noção de "criatividade": dado que,
>> em
>> > > > nível formal, todos os textos já estão escritos no espaço de
>> > > possibilidades,
>> > > > é correto dizer que o autor do texto "criou" o texto?
>> > > >
>> > > > Dado que qualquer peça de Shakespeare já estava escrita no espaço
>> dos
>> > > textos
>> > > > possíveis com aquele tamanho de texto, é certo dizer que Shakespeare
>> > > "criou"
>> > > > aquelas peças?
>> > > >
>> > > > Ou é mais correto dizer que ele as "descobriu" (como quem descobre
>> um
>> > > > depósito de um mineral qualquer que já existia em algum lugar).
>> > > >
>> > > > A consequência prática direta é que o argumento parece invalidar
>> > qualquer
>> > > > noção de "direito autoral".
>> > >
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>> > > http://sequiturquodlibet.googlepages.com/
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>> > Prog. Pós-grad. Modelagem Computacional
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