Eu não julgo que esse framework mina a possibilidade de se falar a respeito de criatividade humana. Autoria não é minada mesmo nas perspectivas onde uma "autonomia transcendental" do gênio humano é eliminada, como no darwinismo neural de Dean K. Simonton ( http://www.amazon.com/Origins-Genius-Darwinian-Perspectives-Creativity/dp/0195128796) e na memética:
(...)We would like to think of ourselves as godlike creators of ideas, manipulating and controlling them as our whim dictates, and judging them from an independent, Olympian standpoint. But even if this is our ideal, we know that it is seldom if ever the reality, even with the most masterful and creative minds. As Mozart famously observed of his own brainchildren: "When I feel well and in a good humor, or when I am taking a drive or walking after a good meal, or in the night when I cannot sleep, thoughts crowd into my mind as easily as you would wish. Whence and how do they come? I do not know and *I have nothing to do with it*.[emphasis added] Those which please me I keep in my head and hum them; at least others have told me that I do so."Endnote 5<http://ase.tufts.edu/cogstud/papers/memeimag.htm#5.> Mozart is in good company. Rare is the novelist who *doesn't* claim characters who "take on a life of their own"; artists are rather fond of confessing that their paintings take over and paint themselves, and poets humbly submit that they are the servants or even slaves to the ideas that teem in their heads, not the bosses. And we all can cite cases of memes that persist unbidden and unappreciated in our own minds.(...) http://ase.tufts.edu/cogstud/papers/memeimag.htm Dou outro exemplo - podemos descrever uma *Biblioteca de Mendel* ( http://www.amazon.com/DARWINS-DANGEROUS-IDEA-EVOLUTION-MEANINGS/dp/068482471X), um espaço de todos os *genomas terrestres possíveis*, vastamente maior do que todos os genomas terrestres que foram efetivamente realizados em 3,5 bilhões de anos de evolução biológica. Podemos, no framework da Biblioteca de Mendel, conceber um toy model de neodarwinismo em termos de algoritmos genéticos vasculhando o espaço dos genomas possíveis (o maior diferencial é que as funções de fitness são dinâmicas e extremamente complicadas, seu correlato real possivelmente não admitiria uma solução analítica). Isso não mina nosso discurso metafórico a respeito de "inovações evolucionárias" e "soluções de engenharia" da seleção natural. Ergo, não vejo por quê minaria nosso discurso a respeito da inventividade de agentes autônomos. Um forte abraço. 2011/9/29 Francisco Antonio Doria <[email protected]> > Vcs leram o livro de Koestler, The Act of Creation? > > 2011/9/29 Antonio Carlos da Rocha Costa <[email protected]> > > > Computacionalmente, a implicação da idéia é a de que todo processo de > > "criação" pode ser formalizado como um processo de busca heurística (no > > espaço constituído pelos textos, estruturado por um critério de > > similaridade > > - o qual, aí sim, depende do "criador"), onde o texto "criado" é > aproximado > > sucessivamente por uma sequência de textos semelhantes, até que o > "criador" > > alcance uma versão do mesmo que satisfaça seu critério de "conclusão" da > > "criação". > > > > É, assim, o fundamento de uma teoria computacional da criatividade > > (explorada, originalmente - me parece) por Margareth Bode e constitui uma > > sub-área importante ("criatividade computacional") na área da > Inteligência > > Artificial. > > > > Nessa perspectiva, a "criatividade" não deixa de existir: ela apenas > migra > > da criação do objeto (texto, no caso - mas pode ser qualquer objeto de > > arte) > > para a criação da relação de similaridade que orienta o processo de busca > > pelo objeto da "criação". > > > > A criatividade do artista está na criação dessa relação de similaridade > > (que > > não é objetiva nem enumerável) e que lhe permite (mais rapida ou mais > > lentamente) descobrir a forma final desejada para o texto. > > > > Numa teoria da recepção da obra de arte, poder-se-ia dizer que "entender" > o > > que um artista colocou em uma obra de arte (ou um escritor em um texto) é > > ser capaz de entender a relação de similaridade que ele criou e > utilizá-la > > para reconstruir proveitosamente - enquanto receptor - os relacionamentos > > de > > que o escritor/artista utilizou no seu ato de "criação". > > > > > > Em 29 de setembro de 2011 09:12, Joao Marcos <[email protected]> > > escreveu: > > > > > Não vejo como dizer que Shakespeare teria "descoberto" algo que estava > > > no "espaço de possibilidades" sem que ele tivesse sequer _vasculhado_ > > > este espaço. Talvez "reinventado" seja a palavra certa, mesmo para um > > > platonista... > > > > > > O tema da "Biblioteca Universal" foi de fato inventado (ou, dizem > > > alguns, foi encontrado entre os livros da própria Biblioteca > > > Universal!) há bastante tempo, e o tema foi explorado com muita > > > competência e razoável criatividade (sem macacos nem máquinas de > > > datilografar, na versão final), em particular, por Borges > > > (http://www.literaberinto.com/vueltamundo/bibliotecaborges.htm). A > > > Biblioteca de Babel borgiana contém exclusivamente "libros de formato > > > uniforme; cada libro es de cuatrocientas diez páginas; cada página, de > > > cuarenta renglones; cada renglón, de unas ochenta letras de color > > > negro". Segue desta descrição, pelo Lema de Zorn, que há pelo menos > > > um livro com infinitas cópias, caso a biblioteca seja mesmo infinita. > > > Borges parece não ter percebido isto, contudo, como consequência dos > > > seus "axiomas" (ou talvez ele não trabalhasse exatamente em ZFC, algo > > > que também fica aparente no seu conto "El Aleph"). > > > > > > Quine tem um artigo bem curtinho no qual ele analisou e simplificou a > > > "Biblioteca Universal": > > > http://jubal.westnet.com/hyperdiscordia/universal_library.html > > > O Teorema do Macaco Infinito é por sua vez discutido em: > > > http://en.wikipedia.org/wiki/Infinite_monkey_theorem > > > > > > Por fim, vale mencionar ainda o conto borgiano "Pierre Menard, autor > > > de Quijote", na qual a obra de Cervantes é recriada de uma forma muito > > > mais inteligente e direta do que no _negócio dos macacos_. > > > > > > Joao Marcos > > > > > > 2011/9/29 Antonio Carlos da Rocha Costa <[email protected]>: > > > > Na verdade, chama-se "Princípio da Biblioteca do Museu de Londres", > > para > > > > indicar que, dado o tempo necessário, todos os livros da biblioteca > > > poderiam > > > > ser "re-inventados" desse jeito. > > > > > > > > Mas, para mim, o principalmente questionamento que resulta é de > > natureza > > > > estética, particularmente sobre a noção de "criatividade": dado que, > em > > > > nível formal, todos os textos já estão escritos no espaço de > > > possibilidades, > > > > é correto dizer que o autor do texto "criou" o texto? > > > > > > > > Dado que qualquer peça de Shakespeare já estava escrita no espaço dos > > > textos > > > > possíveis com aquele tamanho de texto, é certo dizer que Shakespeare > > > "criou" > > > > aquelas peças? > > > > > > > > Ou é mais correto dizer que ele as "descobriu" (como quem descobre um > > > > depósito de um mineral qualquer que já existia em algum lugar). > > > > > > > > A consequência prática direta é que o argumento parece invalidar > > qualquer > > > > noção de "direito autoral". > > > > > > -- > > > http://sequiturquodlibet.googlepages.com/ > > > > > > > > > > > -- > > Antônio Carlos da Rocha Costa - C3/PPGMC/FURG > > Centro de Ciências Computacionais > > Prog. Pós-grad. Modelagem Computacional > > Universidade Federal do Rio Grande > > 96.201-900 Rio Grande, RS, Brasil. > > http://www.rocha.c3.furg.br <http://rocha.c3.furg.br> > > _______________________________________________ > > Logica-l mailing list > > [email protected] > > http://www.dimap.ufrn.br/cgi-bin/mailman/listinfo/logica-l > > > > > > -- > fad > > ahhata alati, awienta Wilushati > _______________________________________________ > Logica-l mailing list > [email protected] > http://www.dimap.ufrn.br/cgi-bin/mailman/listinfo/logica-l > _______________________________________________ Logica-l mailing list [email protected] http://www.dimap.ufrn.br/cgi-bin/mailman/listinfo/logica-l
