Vcs leram o livro de Koestler, The Act of Creation?
2011/9/29 Antonio Carlos da Rocha Costa <[email protected]>
> Computacionalmente, a implicação da idéia é a de que todo processo de
> "criação" pode ser formalizado como um processo de busca heurística (no
> espaço constituído pelos textos, estruturado por um critério de
> similaridade
> - o qual, aí sim, depende do "criador"), onde o texto "criado" é aproximado
> sucessivamente por uma sequência de textos semelhantes, até que o "criador"
> alcance uma versão do mesmo que satisfaça seu critério de "conclusão" da
> "criação".
>
> É, assim, o fundamento de uma teoria computacional da criatividade
> (explorada, originalmente - me parece) por Margareth Bode e constitui uma
> sub-área importante ("criatividade computacional") na área da Inteligência
> Artificial.
>
> Nessa perspectiva, a "criatividade" não deixa de existir: ela apenas migra
> da criação do objeto (texto, no caso - mas pode ser qualquer objeto de
> arte)
> para a criação da relação de similaridade que orienta o processo de busca
> pelo objeto da "criação".
>
> A criatividade do artista está na criação dessa relação de similaridade
> (que
> não é objetiva nem enumerável) e que lhe permite (mais rapida ou mais
> lentamente) descobrir a forma final desejada para o texto.
>
> Numa teoria da recepção da obra de arte, poder-se-ia dizer que "entender" o
> que um artista colocou em uma obra de arte (ou um escritor em um texto) é
> ser capaz de entender a relação de similaridade que ele criou e utilizá-la
> para reconstruir proveitosamente - enquanto receptor - os relacionamentos
> de
> que o escritor/artista utilizou no seu ato de "criação".
>
>
> Em 29 de setembro de 2011 09:12, Joao Marcos <[email protected]>
> escreveu:
>
> > Não vejo como dizer que Shakespeare teria "descoberto" algo que estava
> > no "espaço de possibilidades" sem que ele tivesse sequer _vasculhado_
> > este espaço. Talvez "reinventado" seja a palavra certa, mesmo para um
> > platonista...
> >
> > O tema da "Biblioteca Universal" foi de fato inventado (ou, dizem
> > alguns, foi encontrado entre os livros da própria Biblioteca
> > Universal!) há bastante tempo, e o tema foi explorado com muita
> > competência e razoável criatividade (sem macacos nem máquinas de
> > datilografar, na versão final), em particular, por Borges
> > (http://www.literaberinto.com/vueltamundo/bibliotecaborges.htm). A
> > Biblioteca de Babel borgiana contém exclusivamente "libros de formato
> > uniforme; cada libro es de cuatrocientas diez páginas; cada página, de
> > cuarenta renglones; cada renglón, de unas ochenta letras de color
> > negro". Segue desta descrição, pelo Lema de Zorn, que há pelo menos
> > um livro com infinitas cópias, caso a biblioteca seja mesmo infinita.
> > Borges parece não ter percebido isto, contudo, como consequência dos
> > seus "axiomas" (ou talvez ele não trabalhasse exatamente em ZFC, algo
> > que também fica aparente no seu conto "El Aleph").
> >
> > Quine tem um artigo bem curtinho no qual ele analisou e simplificou a
> > "Biblioteca Universal":
> > http://jubal.westnet.com/hyperdiscordia/universal_library.html
> > O Teorema do Macaco Infinito é por sua vez discutido em:
> > http://en.wikipedia.org/wiki/Infinite_monkey_theorem
> >
> > Por fim, vale mencionar ainda o conto borgiano "Pierre Menard, autor
> > de Quijote", na qual a obra de Cervantes é recriada de uma forma muito
> > mais inteligente e direta do que no _negócio dos macacos_.
> >
> > Joao Marcos
> >
> > 2011/9/29 Antonio Carlos da Rocha Costa <[email protected]>:
> > > Na verdade, chama-se "Princípio da Biblioteca do Museu de Londres",
> para
> > > indicar que, dado o tempo necessário, todos os livros da biblioteca
> > poderiam
> > > ser "re-inventados" desse jeito.
> > >
> > > Mas, para mim, o principalmente questionamento que resulta é de
> natureza
> > > estética, particularmente sobre a noção de "criatividade": dado que, em
> > > nível formal, todos os textos já estão escritos no espaço de
> > possibilidades,
> > > é correto dizer que o autor do texto "criou" o texto?
> > >
> > > Dado que qualquer peça de Shakespeare já estava escrita no espaço dos
> > textos
> > > possíveis com aquele tamanho de texto, é certo dizer que Shakespeare
> > "criou"
> > > aquelas peças?
> > >
> > > Ou é mais correto dizer que ele as "descobriu" (como quem descobre um
> > > depósito de um mineral qualquer que já existia em algum lugar).
> > >
> > > A consequência prática direta é que o argumento parece invalidar
> qualquer
> > > noção de "direito autoral".
> >
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